segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Subjetivo, lento e poético, "Unicórnio" é quase uma fábula

Trama aborda a vida de mãe e filha num lugar distante de tudo, cercado por belas paisagens (Fotos: Vitrine Filmes/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Unicórnio é uma figura mitológica representada por um cavalo branco com apenas um chifre no meio da cabeça. Entre outros símbolos, pode significar pureza e castidade. Pode ser que seja essa a representação sugerida no filme do mesmo nome, em cartaz no Belas Artes 3 (sessão vitrine às 19h10). Ou não. Pode ser também que o diretor tenha buscado, na representação, algo como força e vida, outras interpretações possíveis para o animal.

Mas ninguém precisa saber disso para gostar - ou não - de "Unicórnio", filme mais recente de Eduardo Nunes com elenco encabeçado por Patrícia Pillar. Enigmático, subjetivo, lento e poético, o longa tem tudo para não agradar os espectadores mais acostumados a tramas bem amarradas e construídas.

Com poucas palavras - na verdade, pouquíssimas - e imagens lindíssimas de paisagens que parecem ter saído de um quadro impressionista, a história se arrasta por 120 longos minutos, criando, na primeira metade da exibição, a impressão de que nada acontece ou vai acontecer. Quase isso. É visível o incômodo que provoca nas pessoas, que se mexem nas poltronas e cochicham, como se cobrassem um andamento, uma ação. É como se o diretor Eduardo Nunes, que é também o roteirista, quisesse que o público sentisse na pele o marasmo, a sensação de "tempo que não passa" - como os personagens.

Baseado em dois contos de Hilda Hilst, "Unicórnio", contado assim de um jeito bem simples, é a história de duas mulheres - mãe e filha - que vivem no campo, de forma muito rústica, enquanto esperam a volta do homem da casa que, aos poucos, o público vai descobrindo, está internado. Não se sabe se em um hospital para tratamento de alguma doença do corpo, ou numa instituição de tratamento de saúde mental, para cuidar, digamos, da alma.

Enquanto esperam, descobrem a presença de um vizinho, um misterioso criador de cabras muito bem interpretado por Lee Taylor. Pelo jeito, ele é o queridinho da vez no cinema e na TV. Brilhou em "Paraíso Perdido", na telona, e em "Os dias eram assim" e "Onde nascem os fortes", na telinha. Patrícia Pillar faz a mãe, bonita e lacônica, expressiva como sempre. O pai hospitalizado é Zécarlos Machado, correto e comedido como convém ao seu personagem, meio lunático, meio filósofo.


Mas quem carrega o filme, também com poucas palavras e muitos olhares e expressões, é a novata Bárbara Luz. (Parênteses para informar, pra quem não sabe, que ela é filha de Inês Peixoto e Eduardo Moreira, artistas fundadores do Grupo Galpão, velhos conhecidos, principalmente dos mineiros).

Enfim, "Unicórnio" não é um filme para todos. Autoral, ousado e enigmático, vale a pena ser visto para quem busca subjetividade, reflexão e poesia. Sem pressa, sem ação, sem trama. Com direito apenas a vislumbrar, interpretar, adivinhar e construir junto com o diretor uma espécie de fábula.
Duração: 2h02
Classificação: 10 anos



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