26 abril 2026

Crítica de "Zico, O Samurai de Quintino" – O Legado do Camisa 10 da Gávea

Documentário descreve a construção do mito que fez do atleta uma unanimidade para uma parcela da população que gosta de futebol (Fotos: Divulgação, Peter Wrede e Pedro Curi)
 
 

Wallace Graciano

 
Transportar para a telona a essência de um atleta que é tratado pelo público como uma divindade exige muito mais do que devoção: exige a coragem de, em certa medida, profanar o que, para muitos, é um mito para encontrar o lado mundano. 

E, em "Zico, O Samurai de Quintino", que estreia na próxima quinta-feira, dia 30, o diretor João Wainer explora um arquivo biográfico incomum — que inclui registros em Super-8, fitas VHS tateadas pelo tempo e diários pessoais — para seguir um caminho no qual a reverência e a ousadia narrativa tabelam como Bebeto e Romário certa vez já fizeram. 


O resultado é uma obra que não explora o camisa 10 da Gávea apenas como detentor da pedra mais alta, o que seria um caminho fácil. Ela também expõe sua carne. Esqueça o clubismo. O filme é, acima de tudo, uma obra que prende o cinéfilo apaixonado por futebol. 

Ao descrever a construção do mito que fez de Zico uma unanimidade para uma parcela da população, o diretor usa um ritmo frenético para escapar do academicismo biográfico. Ele vai e volta na narrativa, como um camisa 8 que dita os rumos de um meio-campo, dando fôlego aos acontecimentos sem precisar de uma linearidade para explicar por que o “Galinho de Quintino” chegou ao panteão onde o colocam.


Mas, como dito lá atrás, essa obra não é apenas uma construção de exaltação à figura mítica. Wainer sabe como inserir contrapontos de profundo potencial dramático e histórico, não fugindo de temas como a perseguição política sofrida por seu irmão, Nando, durante a ditadura militar, ou o impacto sociopolítico da fundação do Kashima Antlers no Japão.

E toda essa dualidade de construção do personagem, seja pela doce memória dos torcedores ou pelo sabor amargo da lona, tem um ponto focal que Wainer soube explorar bem: Sandra, esposa do craque há cinco décadas. Ela é o principal fio condutor do relato, sendo a guardiã da memória íntima que humaniza o ídolo.


Por meio dela e dos depoimentos sensíveis dos filhos — que não hesitam em expor as fraturas emocionais causadas pelas constantes ausências de um pai sugado por sua própria grandeza —, o documentário acessa o custo invisível da glória. É nesse terreno de vulnerabilidade que a narrativa ganha a textura que lhe falta em outros momentos. 

A dor lancinante da eliminação na Copa de 1982, o trauma físico imposto pela criminosa entrada de Márcio Nunes em 1985 e o peso do pênalti perdido contra a França em 1986 não são enquadrados apenas como obstáculos superados, mas como feridas abertas. E é nesse ponto que o estoicismo blindado do "Samurai" finalmente cede espaço às angústias do homem nascido em Quintino.


"Zico, O Samurai de Quintino" é um filme que escolhe desafiar seu público. Obviamente que ele afaga a memória coletiva de uma torcida, entregando uma filmagem quase litúrgica para seus devotos e uma introdução eficiente para quem ainda não foi apresentado ao camisa 10 da Gávea. 

Porém, não mergulha na fácil narrativa de exaltação contínua que faz do homem um mito. Se não reinventa a roda do documentário, sabe como explorar a fragilidade do ser humano, tratando com sensibilidade sua memória.

Obs.: De acordo com o perfil do Flamengo na rede social “X” (antigo Twitter), quem for trajado com a camisa do rubro-negro para assistir ao filme pagará meia-entrada. A promoção será válida exclusivamente durante a primeira semana em que a película estiver em cartaz. Consulte os cinemas participantes.


Ficha Técnica
Direção: João Wainer
Roteiro: Thiago Iacocca
Produção: Vudoo Filmes e Guará Entretenimento, com a coprodução da Globo Filmes, SporTV, Pontos de Fuga, Investimage e Clube de Regatas do Flamengo
Distribuição: Downtown Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário
Avaliação: 4,5 (0 a 5)

21 abril 2026

“Michael” acerta ao transformar espetáculo em emoção

Jaafar Jackson entrega a grande aposta do filme ao interpretar o tio com precisão (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Robhson Abreu e Maristela Bretas
Parceiro da Revista PQN, Jornal de Belô e Bloco de Belô


Há filmes que procuram apenas contar uma história. Outros tentam reconstruir um mito. "Michael", no entanto, vai além dessas missões. O longa, dirigido por Antoine Fuqua (responsável por sucessos como a trilogia "O Protetor" 2014, 2018 e 2023 e "Sete Homens e um Destino" - 2016), estreou nesta terça-feira (21) nos cinemas brasileiros e mira no centro de uma das figuras mais complexas e influentes da cultura pop. 

O que se vê é uma tentativa de devolver a Michael Jackson aquilo que o tempo, a fama e o próprio excesso de reverência muitas vezes lhe roubaram, sua dimensão humana. E é aí que o filme encontra sua força mais rara. Não apenas no brilho do ícone, mas na dor, na solidão e na pulsação íntima de um artista que se tornou maior do que a própria imagem.


O grande triunfo da produção, que custou mais de US$ 155 milhões, está na atuação de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, o irmão mais velho e um dos integrantes da primeira geração do The Jackson 5. 

Em sua primeira grande passagem pelo cinema, Jaafar não interpreta o tio como quem reproduz um repertório de gestos conhecidos pelo mundo inteiro, ele o encarna com uma entrega que impressiona pela precisão e pela emoção. 


Há no seu trabalho uma combinação difícil de alcançar como a semelhança física, o domínio corporal, a respiração cênica, o olhar que alterna insegurança e magnetismo. Jaafar não copia Michael. Ele o reconstrói por dentro e dá ao personagem uma presença que vai além da lembrança nostálgica. Seu desempenho carrega o peso de uma herança monumental, mas também a coragem de não se esconder atrás dela.

Nos momentos musicais, Jaafar parece habitar um território em que técnica e encantamento se confundem. A dança não surge como truque, e sim como linguagem. A voz, embora inevitavelmente comparada à do artista original, não soa como simples reprodução. Ela tenta captar o espírito de uma assinatura vocal que moldou gerações. 


Mas é nas passagens mais silenciosas que o ator encontra sua maior potência. Quando o filme desacelera e deixa o espetáculo em segundo plano, Jaafar revela um Michael mais vulnerável, quase ferido pela própria grandeza. É nesses instantes que a performance ganha densidade dramática e faz o filme respirar.

O elenco de apoio também sustenta bem essa construção. Colman Domingo ("Rustin" - 2024), como Joe Jackson, imprime peso e tensão à narrativa, sem jamais diluir a sombra paterna que marcou a trajetória do cantor. Sua presença em cena tem autoridade e desconforto na medida certa. 


Nia Long ("The Banker", 2020) como Katherine Jackson, oferece um contraponto de ternura e resistência, emprestando ao núcleo familiar uma delicadeza que impede o filme de se tornar apenas um desfile de traumas.

Destaque também para Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael criança, um garoto muito fofo que deu o tom certo ao personagem no período do surgimento do The Jackson 5. Cada coadjuvante, à sua maneira, ajuda a compor o ambiente em que o cantor e compositor foi forjado, pressionado e, muitas vezes, esmagado.

"Michael" dialoga diretamente com a cultura pop. O filme não trata apenas de um astro, mas de um fenômeno que moldou linguagem, imagem, coreografia, moda e comportamento. Michael Jackson não foi apenas um cantor, ele foi uma gramática estética que atravessou décadas e segue influenciando o entretenimento mundial. 


Revisitá-lo no presente é também uma forma de reavaliar o modo como a cultura pop fabrica ídolos, os consome e depois tenta decifrá-los. Nesse sentido, o longa, que vai dos anos 1960 até 1980, tem algo de ritual e de reparação. 

Explica alguns fatos da infância e da adolescência do artista - sua paixão por animais, o vitiligo que começa a se manifestar na pele, a obsessão por brinquedos e compras e o início do consumo de remédios.

Não podemos esquecer, no entanto, que a produção do filme é da família Jackson, que deixa de fora do enredo momentos comprometedores e complexos da vida do cantor e de suas relações pessoais e judiciais. A continuação está prevista para 2027 (ainda sem confirmação) que deverá abordar a fase adulta de Michael. 


Sem falar na reconstrução de clipes memoráveis que estão em nossas memórias por décadas como “Thriller”, "Bad", “Beat it”, “Dont' stop til you get enough”, entre outras. 

Algo fantástico para todos nós que só vimos o produto pronto e não como foi feito na época. É emocionante ver um ídolo sendo recriado com tanta emoção e carisma. Dá vontade de ver todo dia!

Com a ambição que exibe a força de seu protagonista e o apelo universal do personagem central, "Michael" entra naturalmente na conversa sobre a temporada de prêmios e com certeza desponta como um nome a ser observado com atenção rumo ao Oscar 2027. 


Filmes biográficos musicais costumam encontrar ressonância na Academia quando combinam transformação física, densidade emocional e apuro técnico. E em "Michael" há material de sobra para isso. 

Se mantiver o impacto que a interpretação de Jaafar Jackson sugere, o filme pode ir muito além da homenagem. Ele poderá se tornar um dos grandes eventos cinematográficos da década, assim como sempre foi o mito Michael Jackson, com uma expectativa dos produtores de atingir US$ 1 bilhão na bilheteria mundial. 


Ficha técnica:
Direção: Antoine Fuqua
Produção: Lionsgate, GK Films
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h05
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama, biografia