16 julho 2026

"A Odisseia": Christopher Nolan transforma um clássico em um espetáculo monumental

Diretor supera os próprios limites em seu filme mais grandioso, gravado em seis países, totalmente em
IMAX (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Christopher Nolan reúne novamente um elenco estelar para entregar uma obra épica em todos os sentidos: duração, elenco, efeitos visuais e, ainda, o fato de ser o primeiro longa-metragem totalmente filmado em IMAX 15/65 mm.

Falo de “A Odisseia” (“The Odyssey”), em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira. O diretor e roteirista de sucessos como "Oppenheimer" (2023), "Dunkirk" (2017), "Interestelar" (2014) e "Batman – O Cavaleiro das Trevas" (2008) mostra, mais uma vez, que consegue se superar a cada nova produção.

“A Odisseia” é um espetáculo visual e sonoro que prende o público do início ao fim, mesmo com quase três horas de duração. O IMAX é utilizado com maestria por Nolan, que prometeu recorrer minimamente à Inteligência Artificial — algo que, ao que tudo indica, foi cumprido. 


O filme, escrito e dirigido por Nolan, é baseado no poema épico da Antiguidade atribuído ao poeta grego Homero. O diretor segue de perto a narrativa original, alternando a trajetória de Odisseu e suas aventuras com a vida de Penélope e Telêmaco, que permanecem em Ítaca à espera de seu retorno.

Além da imponência visual, Nolan demonstra grande cuidado na construção de uma narrativa envolvente. Mesmo quem não conhece esse clássico da literatura consegue acompanhar o enredo sem dificuldade, já que as experiências dos personagens vão se encaixando como peças de um quebra-cabeça até a conclusão da história.


Matt Damon, em ótima atuação, interpreta o rei grego Odisseu (ou Ulisses, nome dado pelos romanos), comandante do grupo de soldados que utiliza o gigantesco cavalo de madeira para entrar em Troia e destruir a cidade e seu exército.

A trama começa após essa vitória e acompanha a longa jornada de Odisseu e seus homens para retornar à ilha de Ítaca e reencontrar suas famílias depois de 20 anos afastados — dez deles lutando na Guerra de Troia e o restante tentando voltar para casa.

É uma jornada marcada por novas batalhas contra criaturas da mitologia grega, como o ciclope Polifemo, filho de Poseidon; a feiticeira Circe (Samantha Morton, grande destaque do filme), que transforma humanos em animais; as sereias; e a misteriosa Calipso (Charlize Theron, que poderia ter sido melhor aproveitada).


Odisseu está disposto a enfrentar tudo isso para reencontrar a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland), que nunca conheceu. Também precisa recuperar seu trono, cobiçado por dezenas de pretendentes vindos de toda a Grécia, entre eles Antínoo (Robert Pattinson), decidido a se casar com a rainha e ocupar o poder.

O elenco de peso conta ainda com Zendaya (Athena), Elliot Page (Sinon), Jon Bernthal (Menelau), Lupita Nyong’o (Helena de Troia), Bill Irwin (voz do ciclope Polifemo), Mia Goth (Melanto), Himesh Patel (Euríloco), Ben Safdie (Agamenon) e John Leguizamo (o servo cego Eumeu), entre outros.


Não espere, porém, um filme sentimental. Pelo contrário: Nolan expõe a frieza humana tanto nas batalhas campais quanto nas ações dos personagens, levando até mesmo o herói a questionar seus princípios e o sentido da guerra diante de tanta crueldade.

Se a narrativa impressiona, o trabalho técnico eleva ainda mais o filme. A fotografia de Hoyte van Hoytema aproveita ao máximo o formato IMAX para criar imagens de impacto, explorando a beleza das locações e a imponência das batalhas. 

A trilha sonora de Ludwig Göransson confere emoção e intensidade na medida certa, enquanto a montagem mantém o ritmo fluido mesmo em uma produção de quase três horas. 


O desenho de som, aliado aos efeitos visuais discretos e ao uso predominante de recursos práticos, faz com que o espectador se sinta dentro da jornada de Odisseu, transformando a sessão em uma experiência cinematográfica envolvente.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e filmagens realizadas em seis países — Marrocos (que representa Troia), Grécia, Islândia (o submundo de Hades), Escócia, Itália (palco da ilha de Ítaca) e Estados Unidos —, “A Odisseia” é uma obra cinematográfica monumental e ambiciosa, à altura do próprio Christopher Nolan, e merece ser vista em IMAX.

Uma coisa é certa: o longa entra desde já como fortíssimo candidato a várias estatuetas do Oscar 2027.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Produção: Universal Pictures, Syncopy
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h52
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

12 julho 2026

"Nós Acreditamos em Vocês": quando a Justiça coloca a palavra das vítimas em julgamento

Drama belga expõe a difícil fronteira entre a dúvida e a proteção das vítimas contra abusos domésticos
(Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
À exceção de uma pequena cena externa, logo em seu início, a narrativa do filme belga “Nós Acreditamos em Vocês” ("On Vous Croit"), de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, se passa totalmente no curso de uma audiência judicial, na qual o que está em jogo é a permissão para a reaproximação (ou não) de um pai – vivido por Lauren Cappelutto - de seus dois filhos, uma adolescente e um garoto, esse, ainda criança. Mais que isso, ele pode conquistar a guarda das crianças.

A questão é que não só a Alice (Myriem Akheddiou), ex-esposa do sujeito e mãe dos dois, é absolutamente contrária à hipótese de que este contato seja restabelecido, quanto os próprios rebentos têm verdadeira aversão a tal – na verdade, ambos entram em pane diante da mera possibilidade de compartilhar o mesmo ar que o genitor, o que obrigatoriamente aconteceria (acontece) na audiência.   


O motivo de tal ojeriza é compartilhado em pequenas pílulas com o espectador no curso do citado compromisso: sobre o pai paira a suspeita de atos desprezíveis, incluindo a molestação do filho. 

Aliás, a mãe, assim como sua advogada, sustenta que uma situação fisiológica a qual o garoto está lidando no momento, e que o faz eventualmente faltar à escola, por ter muito nela de constrangedor, seria derivada justamente do aventado abuso. 

Ocorre que o processo perpetrado contra o pai ainda não foi julgado, e é nesta brecha jurídica que ele tenta descredibilizar a mãe, com a ajuda de uma jovem (muito jovem) advogada.


Interessante apontar que tanto a advogada da mãe quanto a do pai são mulheres, assim como a juíza que vai deliberar sobre o caso. Assim, no centro do embate, temos quatro mulheres contra dois homens – além do pai dos garotos, o advogado destinado pelo estado para analisar o que seria hipoteticamente melhor para os dois menores de idade.

Colocado também na condição de juiz, o espectador vai sendo informado das versões a partir do momento em que, na audiência, as partes envolvidas ganham o direito à palavra. 

Ou seja, o público não presenciou nada (não há cenas de flashbacks), e, portanto, não tem como saber de que lado está a verdade, mas, para embasar a sentença, precisa ser convencido pelos argumentos apresentados por uma das partes.


E é aí que temos o “clássico” processo de descredibilização da mulher, fenômeno que transcende fronteiras geográficas, religiosas e culturais e se espraia pelos quatro cantos do planeta. 

No caso de Alice, a própria advogada do reclamante chama atenção pela tentativa de desmoralizar uma companheira de sexo – talvez inclusive pela especificidade, aqui já apontada, de ser jovem demais, portanto, certamente sem ainda ter experimentado o desafio de ser mãe. 

Um componente importante, então, passa a ser o conjunto de expressões manifestadas por cada personagem, inclusive as corporais, assim como a argumentação. Neste quesito, que bela interpretação, a de Myriem Akheddiou.


Em um momento em que a violência – inclusive a sexual – doméstica tem sido cada vez mais denunciada, com índices assustadores, “Nós Acreditamos em Vocês” cumpre a missão de alertar quanto à importância de uma análise acurada de cada caso, visto que nem sempre as provas são assim, tão evidentes. 

E, afinal, estamos falando de seres (crianças, adolescentes) que, na maioria das vezes, inclusive pela dependência emocional e financeira, não têm como se defender de abusos que vão mostrar suas consequências pelo resto de suas existências.


Ficha técnica:
Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys
Produção: Makintosh Films
Distribuição: Filmes do Estação
Duração: 1h18
Exibição: em breve no streaming 
Classificação: 14 anos
País: Bélgica
Gênero: drama