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06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 2: “Vida Privada” e “Miroirs No. 3"

 
 

Carol Cassese

 
Dando sequência aos destaques da temporada iniciados em "Histórias de perdas e reinvenção - Parte 1: Hamnet e Valor Sentimental", a temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam também outros dois filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional. 

Em "Vida Privada", da realizadora francesa Rebecca Zlotowski, o tema da perda se constrói a partir da súbita morte de uma mulher, acontecimento que leva Lilian Steiner, psiquiatra da vítima, a questionar suas práticas profissionais. 


A recusa em tratar o episódio como encerrado transforma o luto em um processo de investigação, no qual a personagem passa a confrontar tanto a prática clínica quanto sua própria identidade.

Ambientado em Paris, o filme ganha força principalmente por conta da atuação de Jodie Foster, que apresenta uma significativa intensidade dramática e, ainda, um domínio impressionante do francês. 

Em entrevistas, a atriz comentou que atuar em outro idioma teve um impacto profundo sobre sua performance, em especial porque se sente “uma pessoa diferente quando conversa em francês”. 


Carregado de elementos hitchcockianos (já que a personagem principal decide investigar a morte de sua paciente), o filme ressalta a importância da escuta e ilustra como a aceleração da vida contemporânea prejudica a nossa capacidade de interpretação. 

A produção teve estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes e passou pelo Festival do Rio em 2025. A revista Trois Couleurs incluiu "Vida Privada" em sua lista dos 50 filmes preferidos de 2025, destacando o trabalho da diretora e a atuação de Foster. 

Vale destacar que o trabalho de Zlotowski, nome promissor do cinema independente, reúne ainda referências importantes da cena francesa, como Virginie Efira, Daniel Auteuil e Vincent Lacoste.


MIROIRS NO. 3

Outro longa que apareceu em um número significativo de listas dos melhores filmes do ano foi "Miroirs No. 3", do diretor alemão Christian Petzold. O filme acompanha Laura (Paula Beer), uma jovem que, após sobreviver a um acidente de carro, passa a conviver com uma família desconhecida e bastante misteriosa. 

Abalada pelo trauma, a protagonista se aproxima desse núcleo familiar por reconhecer nele uma fragilidade compartilhada, já que os personagens também parecem estar marcados por uma ausência traumática. 


Inspirado na obra musical "Miroirs", de Maurice Ravel, o título remete à ideia de espelhamento, sugerindo identidades que se refletem e, de certa forma, se duplicam ao longo da narrativa, assumindo um tom marcadamente enigmático e apostando na ambiguidade como motor narrativo. 

O longa, que está em cartaz em cinemas europeus e deve chegar ao Brasil em 2026 com distribuição da Imovision, carrega um tom bastante enigmático e prende a atenção do início ao fim. "Miroirs No. 3" se destacou em listas de fim de ano de veículos críticos internacionais, incluindo a da Cahiers du Cinéma.


Narrativas reflexivas

Chama a atenção o fato de que os diretores de "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", "Valor Sentimental", "Vida Privada" e "Miroirs No. 3" possuem nacionalidades diversas – Estados Unidos/China, França, Noruega e Alemanha –, o que reforça como os temas da perda e da reconstrução estão presentes em múltiplos contextos culturais. 

Ainda que partam de realidades específicas, as produções dialogam entre si ao mostrar como essas experiências dolorosas e profundamente humanas encontram ressonância em diferentes países.


Dessa maneira, os longas se afirmam como boas escolhas para quem busca narrativas reflexivas e intrigantes, sustentadas por atuações marcantes. 

Em uma sociedade em que a exibição constante de felicidade parece ganhar cada vez mais força, essas produções oferecem oportunidades valiosas de introspecção.

15 setembro 2018

"Hotel Artemis" - Um entretenimento que vai bem com uma pipoca

Jodie Foster protagoniza este suspense futurista ambientado quase na íntegra dentro de um hospital para criminosos (Fotos: Matt Kennedy/Diamond Films)

Matheus Ciolete


O filme se passa em 2028 em uma Los Angeles pós-apocalíptica quando há uma rebelião da população, sobretudo contra a empresa Cintra Clearwater, devido a dificuldades causadas pela privatização da água. A enfermeira (Jodie Foster), com a ajuda de seu fiel escudeiro Everest (Dave Bautista), é responsável por um dos hospitais clandestinos que, utilizando tecnologia futurística, tratam criminosos: o Hotel Artemis.

É uma noite agitada e o “hotel” está funcionando em sua capacidade máxima, recheado de bandidos cuja única informação a princípio é o nome do quarto em que estão. São os mais importantes para a trama: Acapulco (Charlie Day), um traficante de armas sem educação; Nice (Sofia Boutella), que faz o tipo “tão gata quanto letal” comum aos filmes de ação hollywoodianos; os irmãos Waikiki (Sterling K Brown) e Honalulu (Brian Tyree Henry), respectivamente o irmão competente e honrado e o incompetente e sem princípios.

As coisas começam a ficar complicadas quando aparecem dois hóspedes inesperados: Orion (Jeff Goldblum), o chefão do crime da cidade, e Mo (Jenny Slate), uma policial que a enfermeira conhecia desde antes da farda. A partir daí a trama de "Hotel Artemis" começa a se desenrolar e vemos as reais intenções de cada personagem durante o longa.

Apesar de a maior parte da ação se passar em um local fechado, o próprio hotel, não há a sensação de aprisionamento ou claustrofobia que costumam ser inerentes a filmes onde a área de ação é limitada e carece de locações amplas e variadas. Ponto positivo que se estende como elogio à direção de Drew Pearce, também roteirista do filme.

A estreia do diretor em longas metragens é marcada por sequências construídas com planos que conseguem alguma profundidade devido à exploração dos corredores do Hotel Artemis. Isto, alternando com algumas tomadas aéreas e às poucas cenas no exterior do prédio fazem tanto o filme quanto o espectador respirarem durante os 97 minutos de exibição.

Toda a trama se desenrola durante apenas uma noite em L.A. e, por isso, em alguns momentos, o filme parece andar rápido demais. Assim alguns personagens devem em profundidade e deixam evidentes as possíveis viradas de roteiro, contribuindo para a previsibilidade do filme.

Uma tentativa digna de nota é a de ressaltar o momento crítico da ação com o auxílio da fotografia. Quando o caldo realmente entorna no hospital, todo o clima é alterado por meio da iluminação vermelha que diegeticamente advém das luzes de segurança do prédio, acionadas quando a energia cai, e que marcam uma mudança na intensidade do filme.

A partir daí, quando o sinal vermelho é ligado, o clima esquenta e a ação se desenrola. As personagens mostram suas habilidades especiais e dividem o filme em duas partes: antes e depois da luz vermelha. Na primeira, onde os personagens se apresentam e a tensão começa a se formar, e na segunda, onde os problemas começam a ser resolvidos, geralmente da forma mais violenta possível. Por fim, e no fim, há ainda a epifania da enfermeira que segue seu caminho em meio à imagem enevoada, sugerindo que o futuro é inevitável e turvo para quem descobriu que “é mais difícil sair que entrar”. 

As superficialidades dos personagens, que deixam o roteiro óbvio demais, são o grande ponto negativo, mas o filme se salva pela boa produção, vide fotografia e direção, bem como pelas boas sequências de luta, em especial as vividas por Nice, e acaba tendo um saldo positivo.

Vale a pena assistir "Hotel Artemis" para quem não espera muito mais de um filme que diversão e um balde de pipoca. Apesar de ter estreado na última quinta-feira nos cinemas brasileiros, a previsão é de que o DVD e o Blu-ray de "Hotel Artemis" comecem a ser vendidos no dia 9 de outubro nos EUA.



Ficha técnica:
Direção e roteiro: Drew Pearce
Distribuição: Diamond Films
Duração: 1h35
Gêneros: Ação / Suspense / Ficção
Países: EUA / Reino Unido
Classificação: 16 anos

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