18 abril 2026

“The Beauty - Lindos de Morrer”: o que você faria para ter beleza eterna?

Nova série de Ryan Murphy expõe o preço da perfeição em um mundo onde estética e imagem valem
mais que a alma (Fotos: Fox)
 
 

Robhson Abreu

 
Se você tivesse um visual não tão atraente, alguma enfermidade e soubesse que a indústria farmacêutica criou uma fórmula capaz de curar todos os males e ainda te deixar lindo (a), o que faria? Pagaria por essa fórmula milagrosa que custaria uma fortuna? E se soubesse que a fórmula poderia ser sexualmente transmissível, transaria por isso? Tudo em prol da beleza e aceitação social? 

Em tempos de medicamentos milagrosos para emagrecimento parece que a série "Lindos de Morrer" ("The Beauty"), do canal Fox e exibida na plataforma Disney+, não é tão fantasiosa.


Há séries que entretêm e outras que provocam. E, em se tratando de Ryan Murphy (“‘Glee”, "Pose" e "American Horror Story"), as duas sensações caminham juntas. O diretor manteve sua habilidade de trabalhar temas provocativos e universos estilizados, mas com um tom mais reflexivo, sem abrir mão do impacto visual que marca sua carreira.

"The Beauty" é uma série que seduz ao mesmo tempo em que desconforta. O roteiro é simples na superfície e brutal em suas implicações. 

Por meio de uma injeção ou por sexo, qualquer pessoa pode ficar extraordinariamente bonita. Em troca, um preço irreversível. O que poderia soar como fantasia logo se revela um comentário ácido sobre o mundo real.


Inspirada nos quadrinhos de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a narrativa acompanha os detetives Cooper Madsen (Evan Peters, da série "Mare of Easttown" - 2021) e Jordan Bennett (Rebecca Hall, de "Godzilla e Kong: O Novo Império" - 2024) que investigam uma possível conspiração entre o governo e a indústria farmacêutica para lucrar com a disseminação controlada da doença de “ser bonito”. 

Assim, eles investigam mortes que orbitam a fórmula chamada Beauty, enquanto tentam compreender como algo tão desejado pode esconder consequências tão devastadoras.


O elenco amplia a densidade da trama. Peters sustenta o protagonismo com um registro contido, quase silencioso, que cresce em tensão a cada episódio. Rebecca oferece um contraponto emocional, trazendo humanidade a uma história que poderia facilmente se tornar apenas conceitual. 

Entre os nomes de peso, Ashton Kutcher ("Jobs" - 2013) assume um papel central e perturbador, enquanto Isabella Rossellini ("Conclave" - 2024) imprime sofisticação e ambiguidade. O elenco conta ainda com Jeremy Pope ("A Inspeção" - 2022) e Anthony Ramos ("Twisters" - 2024), que ajudam a ampliar as camadas sociais e emocionais da narrativa.


Kutcher, como o ambicioso Byron Forst, acredita ter alcançado o que a humanidade sempre quis - a fonte da juventude e da beleza eterna. Mais do que um usuário da Beauty, ele se enxerga como alguém acima dela, quase um criador, alguém capaz de controlar e redefinir os padrões do mundo. 

Essa convicção o leva a ultrapassar limites morais com frieza, eliminando qualquer pessoa que represente ameaça ao seu projeto de poder. Há nele uma dimensão quase messiânica, distorcida por vaidade e ambição, que o aproxima da ideia de um “Deus da beleza”.


Ao mesmo tempo, a construção do personagem evita reduzi-lo a um vilão unidimensional. A narrativa revela fissuras. Quando os efeitos colaterais começam a se intensificar, especialmente entre aqueles contaminados pela transmissão sexual, surge outro lado. 

Aquele que observa as consequências fora de controle, que percebe a falha no sistema que acreditava dominar. É nesse ponto que o personagem expõe traços de humanidade, ainda que tardios, ainda que atravessados por culpa e desespero.


Uma nova IST?

Esse arco reforça um dos temas centrais da série. Beauty promete perfeição, mas escapa ao controle. A mesma tecnologia pode ser interpretada como uma espécie de Infecção Sexualmente Transmissível (IST), transmitida pelo contato íntimo que, ao contrário das doenças combatidas, desperta desejo coletivo. 

Em um mundo que ainda luta para controlar infecções como o HIV, a série inverte a lógica ao apresentar uma doença que muitos querem contrair. O risco deixa de ser evitado e passa a ser buscado. O contágio vira símbolo de status.


No entanto, o acesso seguro depende de um tratamento caro, aplicado por injeção, restrito a quem pode pagar. A tecnologia não é democrática. Para quem não tem recursos, resta uma alternativa informal e arriscada. 

Mas essa escolha cobra seu preço. Os efeitos colaterais funcionam como uma verdadeira caixa de surpresas. Em alguns casos, a transformação pode acontecer dentro do esperado. 

Em outros, o resultado foge completamente ao controle, revelando consequências físicas e emocionais imprevisíveis. A promessa de perfeição convive, o tempo todo, com a possibilidade de fracasso. O que nos faz querer maratonar a temporada.


A Beauty pode ou não dar certo. Essa incerteza sustenta a tensão da narrativa e amplia seu impacto simbólico. A promessa de perfeição vem acompanhada de instabilidade. Cada rosto impecável carrega a possibilidade de colapso.

Há também um diálogo interessante com o cinema recente. "The Beauty" ecoa, em certa medida, às inquietações de "A Substância" (2024), filme protagonizado por Demi Moore. Lembra? Além do conteúdo, a forma também se destaca. A trilha sonora contribui de maneira decisiva para a atmosfera da série. 

Os figurinos seguem a mesma estética, com peças elegantes e contemporâneas. Já as locações apostam em ambientes luxuosos, frios e controlados como clínicas, coberturas e espaços urbanos de alto padrão, que ajudam a construir um universo onde a beleza não é apenas atributo, mas capital.


A série de Murphy, com 11 episódios na primeira temporada, é precisa ao construir um mundo onde a beleza é quase um produto. A fotografia valoriza peles impecáveis, simetrias e brilhos artificiais, criando imagens que remetem a campanhas publicitárias. 

Ao mesmo tempo, há algo deslocado em cada enquadramento, como se aquela perfeição estivesse sempre prestes a se desfazer. 

Em um mundo de muitos influencers em que ser belo é condição nata, "The Beauty - Lindos de Morrer" é um espelho distorcido que reflete com clareza o presente. 

Assim Murphy levanta uma questão direta: você tomaria uma medicação para alcançar a beleza e a juventude eternas, mesmo sabendo dos seus possíveis efeitos colaterais?


Ficha técnica:
Direção: Ryan Murphy, Alexis Martin Woodall e Michael Uppendahl 
Produção: Fox
Exibição: Disney+ e FX/Hulu
Duração: 1ª temporada - 11 episódios, média de 40 minutos por episódio
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, policial, terror, suspense

17 abril 2026

“Maldição da Múmia”: terror sobrenatural aposta no grotesco e esquece de assustar

Natalie Grace interpreta a jovem Katie, possuída por uma entidade maligna da antiguidade que vai
atormentar a vida de seus familiares (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
O terror contemporâneo tem apostado cada vez mais no desconforto físico e psicológico do espectador — e “Maldição da Múmia” segue exatamente por esse caminho. Em cartaz nos cinemas de Belo Horizonte, o longa troca o susto fácil por uma experiência mais perturbadora e sobrenatural, que provoca mais repulsa do que medo. E como anunciado pela produção, Brendan Frazer e Rachel Weisz não estão neste filme.

Produzido pela Blumhouse Productions em parceria com a Atomic Monsters e New Line Cinema, o filme carrega a expectativa de quem já entregou bons títulos do gênero. Mas, sob a direção de Lee Cronin, de “A Morte do Demônio: A Ascensão” (2023), o resultado é irregular — com mais impacto visual do que narrativa consistente.


A trama acompanha uma família marcada por uma tragédia inexplicável: a filha de um jornalista norte-americano desaparece durante uma viagem ao Egito e é dada como morta. 

Oito anos depois, porém, ela reaparece — ferida, deformada e carregando algo muito mais sombrio do que o trauma do desaparecimento. Encontrada dentro de um antigo sarcófago, a jovem retorna como um enigma perturbador.

O que deveria ser um reencontro emocionante logo se transforma em pesadelo. A presença da garota contamina o ambiente familiar, revelando sinais de possessão ligados a antigas seitas egípcias. E, nesse ponto, o filme acerta ao trazer o horror para dentro de casa, virando a vida dos personagens completamente de cabeça para baixo.


Se a proposta de Cronin era reinventar o terror com múmias, aproximando-o do cotidiano de uma família comum, ele até consegue. O problema é como faz isso. “Maldição da Múmia” tem um roteiro preguiçoso, que abandona o desenvolvimento dramático em favor de um festival de excessos visuais: olhos esbugalhados, dentes sendo arrancados, sangue escorrendo, fluidos corporais e uma coleção de sons grotescos, mas nada assustador.

Ainda assim, há méritos técnicos. Os closes nos rostos da criatura e de suas vítimas reforçam a tensão em momentos-chave, potencializando o desconforto de cada ataque. É um recurso eficiente — ainda que usado em excesso. 

Uma cena em especial chama a atenção e fica gravada na mente: a do cortador de unhas. Ponto positivo também para as referências sutis a cenas de filmes como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "O Exorcista".


O elenco, pouco conhecido, tem nomes como Jack Reynor, Laia Costa, Shylo Molina e Verónica Falcón, além da detetive egípcia interpretada por Dalia Zaki, que investiga o desaparecimento e os eventos estranhos após o retorno da jovem. Mesmo com esforço do elenco, os personagens acabam limitados por um roteiro que pouco aprofunda suas relações.

E esse talvez seja um dos maiores problemas do filme: a presença da múmia dentro de casa até expõe fragilidades familiares interessantes, mas tudo fica na superfície. Falta densidade emocional para sustentar o impacto das situações vividas.

O grande destaque fica com Natalie Grace, convincente como Katie, a jovem possuída. Sua atuação equilibra fragilidade e ameaça, sendo um dos poucos elementos que realmente sustentam a narrativa.


“Maldição da Múmia” pode não agradar a quem espera um terror mais clássico, cheio de sustos e tensão crescente. Mas pode encontrar seu público entre aqueles que preferem o horror mais gráfico, bizarro e incômodo de Cronin — e que não se importam tanto com a falta de profundidade ou de medo genuíno.

No fim, é um filme que chama atenção pelo choque, mas que deixa a sensação de uma boa ideia mal aproveitada, especialmente por ter James Wan, Jason Blum e John Keville entre seus produtores e os estúdios responsáveis por sucessos como a franquia "Invocação do Mal".


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Lee Cronin
Produção: Blumhouse Productions, Atomic Monsters, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror sobrenatural