01 abril 2026

“À Paisana” supera clichês ao juntar o dever, o desejo e uma sociedade castradora

Tom Blyth é um policial que trabalha disfarçado para prender homens que praticam atos sexuais no
banheiro de um shopping até conhecer Russell Tovey (Fotos: Divulgação)
 
 

Eduardo Jr.

 
Seja você integrante ou não da comunidade LGBTQIAPN+, será difícil não ser impactado - para o bem e para o mal - com “À Paisana” ("Plainclothes"). O filme marca a estreia do diretor norte-americano Carmen Emmi, que aposta em poluição visual, momentos de agitação e no embate entre dever e desejo para rechear seu primeiro longa. 

No filme, Lucas (vivido por Tom Blyth) é um policial que trabalha disfarçado para prender, por meio da sedução, homens que praticam atos sexuais no banheiro de um shopping. 

Mas precisa lidar com o segredo da própria sexualidade, que passa a ser mais fortemente provocada quando conhece Andrew (Russell Tovey), um dos homens que ele poderia levar para a prisão. 


Mas este resumo não exprime a estética maluca que o longa estampa na tela. Já de saída o protagonista segura um envelope em uma cena “limpa”. A imagem muda para câmeras similares às de circuito fechado de segurança, que parecem vigiar o policial e os homens que transitam pelo centro comercial. 

Daí as lentes retornam para texturas mais atuais, até se tornarem um mosaico de imagens típico das câmeras caseiras de décadas atrás. Lamentavelmente, não fica claro se essa confusão de imagens é questão de estilo ou se é cinema experimental feito com equipamentos emprestados.


O espectador então percebe que a direção pretende levar a história por duas linhas temporais. Em uma, as memórias revelam o caminho trilhado por Lucas até aquele momento. 

Na outra, o “momento presente”, na festa de ano novo na casa da mãe, nos anos 1990 (é possível chegar a essa conclusão também por conta da barba do contido protagonista). 

E no castrador ambiente doméstico, ele parece calcular seus movimentos e reações, escondendo de todos um segredo que reluta em contar. A tensão de estar prestes a ser descoberto alcança o espectador. 


Pode até parecer que vai se desenrolar um filme clichê, mas os elementos apresentados até este momento são fragmentos de surpresas que virão. Além disso, é interessante ver como as cenas de “pegação” no banheiro são tensas e claustrofóbicas, puxando uma fila de cenas ágeis, barulhentas e de luz estourada… até que a próxima prisão se transforma em paixão. 

Com Andrew em cena, o frenesi da vida de Lucas encontra paz. É quando a agitação paralisa na calma do toque. Quando o sexo dá espaço à conversa para que ambos se sintam mais à vontade. 


Já vimos isso antes, mas o mistério é figura presente e nos mantém presos na história do possível casal, e atentos ao jovem que deseja conhecer mais do homem que é objeto de seu desejo, mas não se conhece nem se aceita integralmente. 

Você já deve estar imaginado se o casal ficará junto, se haverá a revelação de um grande segredo… mas digo a vocês: o longa reserva outros plots que vão ultrapassar esses clichês. 

Será uma boa escolha acessar a plataforma Filmelier+ no dia 02 de abril para descobrir, com exclusividade, porque “À Paisana” foi o vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Sundance 2025.  


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Carmen Emmi
Produção: Magnolia Pictures
Exibição: plataforma Filmelier+
Duração: 1h35
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, suspense

31 março 2026

Crítica "Tatame": judô e geopolítica em um filme asfixiante

Zar Amir Ebrahimi e Arienne Mandi são treinadora e atleta que travam uma disputa nos bastidores do Campeonato Mundial de Judô (Fotos: Kajá Filmes)
 
 

Wallace Graciano

 
Há uma tendência perigosa (e até um pouco estressante) no cinema contemporâneo de confundir minimalismo com falta de recursos. No entanto, em "Tatame", o que vemos é a utilização da restrição como uma arma narrativa de precisão cirúrgica. 

Codirigido por Zar Amir Ebrahimi (Melhor Atriz no Festival de Cannes por “Holy Spider”) e Guy Nattiv, o longa, que chega ao Brasil nesta quinta-feira (2), mas foi lançado em 2023, é um bom exemplo de como o drama esportivo pode ser subvertido em um thriller psicológico de alta voltagem política.


Se você, como eu, já vestiu um judogui, sabe que campeonatos da “arte suave” não são decididos apenas no Tatame, mas também nos bastidores. E é isso que circunda a película, que se passa em um Campeonato Mundial de Judô. 

Nela, acompanhamos Leila (Arienne Mandi), uma atleta iraniana cujo maior adversário são os telefonemas frenéticos de sua treinadora, Maryam (interpretada pela própria Zar Amir), que ecoam as ordens autoritárias do regime de Teerã: simular uma lesão ou abandonar a disputa para evitar um confronto direto com uma oponente israelense.


A tensão geopolítica misturada com o medo do adversário que a aguarda ficam ainda mais escancarados com a escolha por uma tela de aspect ratio 4:3 e pela fotografia em preto e branco.

Assim, não há horizonte ou respiro das cores, há apenas o suor, o grão da imagem e o enquadramento claustrofóbico que mimetiza a vigilância constante que a protagonista passa. E com isso, a película ganha um aspecto sensorial, onde somos convidados para sentir a tensão a cada novo frame. 


Aliado ao aspecto técnico de filmagem, a performance de Arienne Mandi é exemplar como um judoca que trabalhou todo seu kata rumo a uma competição de vida ou morte. Ela transita da determinação ao desespero absoluto com uma sutileza que evita o melodrama barato. Isso é raro!

Já Zar Amir Ebrahimi entrega uma Maryam complexa: ela é, ao mesmo tempo, a mentora que empurra Leila ao topo e o canal através do qual o medo sistêmico flui. 

A dinâmica entre as duas é o coração pulsante da obra, revelando como a opressão não apenas esmaga o indivíduo, mas corrói os laços de confiança e solidariedade feminina em prol da sobrevivência.

 
O que achei do filme

"Tatame" vai bem longe do pieguismo dos filmes de superação hollywoodianos. Ele entende que, em certos contextos geopolíticos, a vitória esportiva é um ato de insurreição que cobra juros impagáveis na vida pessoal. 

O filme acerta ao não ser meramente panfletário; ele é humano. É sobre o peso de carregar uma bandeira que, em vez de proteger o atleta, serve apenas para sufocá-lo.
É um cinema de urgência, necessário e, acima de tudo, corajoso.

Prós:
- Atuações viscerais de Arienne Mandi e Zar Amir Ebrahimi.
- Uso inteligente do formato 4:3 para gerar claustrofobia.
- Roteiro que transforma um dilema político em um suspense de tirar o fôlego.

Contras:
Certa redundância visual no uso excessivo de closes nos primeiros atos.

Nota Final: 4 (0 a 5)


Ficha técnica:
Direção:
Guy Nattiv e codireção de Zar Amir Ebrahimi
Produção: West End Films
Distribuição: Kajá Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
Países: Irã e Israel
Gêneros: drama, esporte