| Zar Amir Ebrahimi e Arienne Mandi são treinadora e atleta que travam uma disputa nos bastidores do Campeonato Mundial de Judô (Fotos: Kajá Filmes) |
Wallace Graciano
Há uma tendência perigosa (e até um pouco estressante) no cinema contemporâneo de confundir minimalismo com falta de recursos. No entanto, em "Tatame", o que vemos é a utilização da restrição como uma arma narrativa de precisão cirúrgica.
Codirigido por Zar Amir Ebrahimi (Melhor Atriz no Festival de Cannes por “Holy Spider”) e Guy Nattiv, o longa, que chega ao Brasil nesta quinta-feira (2), mas foi lançado em 2023, é um bom exemplo de como o drama esportivo pode ser subvertido em um thriller psicológico de alta voltagem política.
Se você, como eu, já vestiu um judogui, sabe que campeonatos da “arte suave” não são decididos apenas no Tatame, mas também nos bastidores. E é isso que circunda a película, que se passa em um Campeonato Mundial de Judô.
Nela, acompanhamos Leila (Arienne Mandi), uma atleta iraniana cujo maior adversário são os telefonemas frenéticos de sua treinadora, Maryam (interpretada pela própria Zar Amir), que ecoam as ordens autoritárias do regime de Teerã: simular uma lesão ou abandonar a disputa para evitar um confronto direto com uma oponente israelense.
A tensão geopolítica misturada com o medo do adversário que a aguarda ficam ainda mais escancarados com a escolha por uma tela de aspect ratio 4:3 e pela fotografia em preto e branco.
Assim, não há horizonte ou respiro das cores, há apenas o suor, o grão da imagem e o enquadramento claustrofóbico que mimetiza a vigilância constante que a protagonista passa. E com isso, a película ganha um aspecto sensorial, onde somos convidados para sentir a tensão a cada novo frame.
Aliado ao aspecto técnico de filmagem, a performance de Arienne Mandi é exemplar como um judoca que trabalhou todo seu kata rumo a uma competição de vida ou morte. Ela transita da determinação ao desespero absoluto com uma sutileza que evita o melodrama barato. Isso é raro!
Já Zar Amir Ebrahimi entrega uma Maryam complexa: ela é, ao mesmo tempo, a mentora que empurra Leila ao topo e o canal através do qual o medo sistêmico flui.
A dinâmica entre as duas é o coração pulsante da obra, revelando como a opressão não apenas esmaga o indivíduo, mas corrói os laços de confiança e solidariedade feminina em prol da sobrevivência.
O que achei do filme
"Tatame" vai bem longe do pieguismo dos filmes de superação hollywoodianos. Ele entende que, em certos contextos geopolíticos, a vitória esportiva é um ato de insurreição que cobra juros impagáveis na vida pessoal.
O filme acerta ao não ser meramente panfletário; ele é humano. É sobre o peso de carregar uma bandeira que, em vez de proteger o atleta, serve apenas para sufocá-lo.
É um cinema de urgência, necessário e, acima de tudo, corajoso.
Prós:
- Atuações viscerais de Arienne Mandi e Zar Amir Ebrahimi.
- Uso inteligente do formato 4:3 para gerar claustrofobia.
- Roteiro que transforma um dilema político em um suspense de tirar o fôlego.
Contras:
Certa redundância visual no uso excessivo de closes nos primeiros atos.
Nota Final: 4 (0 a 5)
Direção: Guy Nattiv e codireção de Zar Amir Ebrahimi
Produção: West End Films
Distribuição: Kajá Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
Países: Irã e Israel
Gêneros: drama, esporte



