31 março 2026

Crítica "Tatame": judô e geopolítica em um filme asfixiante

Zar Amir Ebrahimi e Arienne Mandi são treinadora e atleta que travam uma disputa nos bastidores do Campeonato Mundial de Judô (Fotos: Kajá Filmes)
 
 

Wallace Graciano

 
Há uma tendência perigosa (e até um pouco estressante) no cinema contemporâneo de confundir minimalismo com falta de recursos. No entanto, em "Tatame", o que vemos é a utilização da restrição como uma arma narrativa de precisão cirúrgica. 

Codirigido por Zar Amir Ebrahimi (Melhor Atriz no Festival de Cannes por “Holy Spider”) e Guy Nattiv, o longa, que chega ao Brasil nesta quinta-feira (2), mas foi lançado em 2023, é um bom exemplo de como o drama esportivo pode ser subvertido em um thriller psicológico de alta voltagem política.


Se você, como eu, já vestiu um judogui, sabe que campeonatos da “arte suave” não são decididos apenas no Tatame, mas também nos bastidores. E é isso que circunda a película, que se passa em um Campeonato Mundial de Judô. 

Nela, acompanhamos Leila (Arienne Mandi), uma atleta iraniana cujo maior adversário são os telefonemas frenéticos de sua treinadora, Maryam (interpretada pela própria Zar Amir), que ecoam as ordens autoritárias do regime de Teerã: simular uma lesão ou abandonar a disputa para evitar um confronto direto com uma oponente israelense.


A tensão geopolítica misturada com o medo do adversário que a aguarda ficam ainda mais escancarados com a escolha por uma tela de aspect ratio 4:3 e pela fotografia em preto e branco.

Assim, não há horizonte ou respiro das cores, há apenas o suor, o grão da imagem e o enquadramento claustrofóbico que mimetiza a vigilância constante que a protagonista passa. E com isso, a película ganha um aspecto sensorial, onde somos convidados para sentir a tensão a cada novo frame. 


Aliado ao aspecto técnico de filmagem, a performance de Arienne Mandi é exemplar como um judoca que trabalhou todo seu kata rumo a uma competição de vida ou morte. Ela transita da determinação ao desespero absoluto com uma sutileza que evita o melodrama barato. Isso é raro!

Já Zar Amir Ebrahimi entrega uma Maryam complexa: ela é, ao mesmo tempo, a mentora que empurra Leila ao topo e o canal através do qual o medo sistêmico flui. 

A dinâmica entre as duas é o coração pulsante da obra, revelando como a opressão não apenas esmaga o indivíduo, mas corrói os laços de confiança e solidariedade feminina em prol da sobrevivência.

 
O que achei do filme

"Tatame" vai bem longe do pieguismo dos filmes de superação hollywoodianos. Ele entende que, em certos contextos geopolíticos, a vitória esportiva é um ato de insurreição que cobra juros impagáveis na vida pessoal. 

O filme acerta ao não ser meramente panfletário; ele é humano. É sobre o peso de carregar uma bandeira que, em vez de proteger o atleta, serve apenas para sufocá-lo.
É um cinema de urgência, necessário e, acima de tudo, corajoso.

Prós:
- Atuações viscerais de Arienne Mandi e Zar Amir Ebrahimi.
- Uso inteligente do formato 4:3 para gerar claustrofobia.
- Roteiro que transforma um dilema político em um suspense de tirar o fôlego.

Contras:
Certa redundância visual no uso excessivo de closes nos primeiros atos.

Nota Final: 4 (0 a 5)


Ficha técnica:
Direção:
Guy Nattiv e codireção de Zar Amir Ebrahimi
Produção: West End Films
Distribuição: Kajá Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
Países: Irã e Israel
Gêneros: drama, esporte

30 março 2026

"Ditto: Conexões do Amor" - uma experiência sensível sobre relações humanas

Os atores sul-coreanos Yeo Jin-goo e Cho Yi-hyun protagonizam este romance de ficção de 2022
(Fotos: Sato Company)
 
 

Silvana Monteiro

 
A refilmagem de "Ditto - Conexões do Amor" (2022), dirigida por Seo Eun-young, parte da narrativa de que a conexão entre os seres humanos atravessa o tempo. 

No decorrer da história é possível observar o que há de mais cotidiano nas relações: o encontro, o desencontro e inúmeras tentativas de buscar a concretização daquilo que para nós é ainda mais caro e necessário: olho no olho, frente a frente.


Protagonizada por Yeo Jin-goo e Cho Yi-hyun a obra chegou aos cinemas brasileiros por meio da Sato Company. O enredo traz a história dos universitários Kim Yong (Yeo Jin-goo) e Mo-nee (Cho Yi-hyun) que acabam se encontrando e interagindo apenas por meio das ondas de rádio, um dispositivo antigo amador encontrado por acaso, por ele. 

Ao conectar Kim Yong, em 1999, e Mo-nee, em 2022, o filme transforma a comunicação em metáfora. Além de tratar de um recurso de ficção científica, o filme nos traz uma reflexão sobre como, em qualquer época — seja por meio de rádios transceptores, redes sociais ou encontros presenciais —, seguimos tentando alcançar o outro, muitas vezes sem saber exatamente o que esperamos encontrar.


Há, nesse sentido, uma poesia discreta na forma como a história se desenrola: a vida como um campo de possibilidades, mas também de entraves. 

A condução narrativa aposta no afeto e na nostalgia, especialmente ao contrastar dois tempos que, embora próximos, revelam mudanças sutis nas formas de se relacionar.

As conversas entre os protagonistas sustentam o filme, ainda que, em alguns momentos, o roteiro se alongue mais do que o necessário. Há também escolhas previsíveis, que aproximam a obra de certos clichês do gênero romântico.


Ainda assim, "Ditto - Conexões do Amor" mantém um equilíbrio que o torna acessível. Não busca reinventar o romance nem a ficção científica, mas oferecer uma experiência sensível sobre conexões humanas. 

É bem simples e morno às vezes: uma história sobre como, apesar das distâncias, sejam elas temporais ou emocionais, seguimos buscando formas de nos reconhecer no outro.

No fim, é um filme razoável, que pode agradar tanto a quem se aproxima pela primeira vez quanto aos que carregam alguma memória afetuosa da obra original. 

Mais do que sobre o tempo, "Ditto - Conexões do Amor" fala sobre a tentativa constante, e sempre tentante, de conexões afetivas. Com certeza é uma boa pedida para dorameiras e dorameiros de plantão.


Ficha técnica:
Direção: Seo Eun-young
Distribuição: Sato Company
Exibição: Cineart Shopping Cidade
Duração: 1h54
Classificação: 12 anos
País: Coreia do Sul
Gêneros: romance, ficção