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| Longa é um retrato dos sistemas de extermínio utilizados por Israel nos ataques a palestinos e israelenses (Fotos: Vitrine Filmes) |
Eduardo Jr.
Na abertura, a mensagem de que rostos e vozes foram alterados para a segurança das fontes ouvidas. É com clima de tensão que o documentário “Naza” se apresenta ao público e pode ser conferido no Cine Belas Artes.
A aura de produção de risco tem razão de ser: filmado secretamente, durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o trabalho esmiúça os sistemas e tecnologias utilizados por Israel para realizar ataques em massa em Gaza.
Vencedor do Prêmio Especial do Júri e aplaudido por 24 minutos pelo público no 83º Festival de Veneza, o documentário é uma produção do jornal britânico The Guardian e de James Wilson, com direção dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor.
A dupla é responsável por “Zona de Interesse”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. Aqui no Brasil, a distribuição de "Naza" fica a cargo da Vitrine Filmes.
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| Yuval Abraham e Rachel Szor |
O documentário aborda a ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel e o massacre promovido pelo Hamas em 2023. É quando a Inteligência Artificial assume o papel de identificar alvos.
A partir dos depoimentos de 24 ex-integrantes do Serviço de Inteligência Israelense, o longa expõe como uma estrutura de vigilância transforma dados pessoais e celulares em instrumentos de guerra, borrando a fronteira moral do que é um combatente e o que é um civil, destruindo casas ocupadas por crianças e esfacelando a possibilidade de ajuda humanitária.
O nome “Naza” designa os danos colaterais, o número de civis que morrerão em um ataque. Em vez de contabilizar vidas e pessoas, contabilizam-se números, transformando mortes em estatísticas. Essa lógica, somada ao uso da tecnologia e aos rostos ocultos dos entrevistados, acaba por contribuir para tornar impessoal o ato de matar.
Como se a responsabilidade pela destruição de famílias inteiras pudesse ser dissolvida no argumento de que é um sistema, apenas um procedimento.
Sem ver os rostos de quem relata ou de quem sofre as consequências, corre-se o risco de perder a dimensão humana desses assassinatos. Ainda assim, os depoimentos chocam.
Espantam justamente por revelar como a morte de inocentes pode ser tratada com frieza, mesmo quando as vítimas são pessoas que apenas convivem ou se relacionam com os alvos escolhidos.
Na noite de Tel Aviv, as conversas nos telhados são emolduradas pelas vidraças dos prédios vizinhos, que parecem separar quem observa e quem é observado. Vidas e rotinas como a de qualquer pessoas que, em segundos podem não estar mais ali. O espectador chega a pressentir um ataque ao ouvir o soar de uma sirene de bombardeio aéreo.
O documentário acerta na tentativa de colocar o espectador mais próximo daquele drama. Principalmente quando as imagens saem do alto dos prédios e cedem lugar a cenas reais de sobreviventes procurando familiares sob os escombros, entre gritos e corpos soterrados, inertes, estampados na tela sem refresco para quem assiste.
Afinal, o choque talvez possa resgatar a humanidade que estamos perdendo dia após dia. Aí está a dimensão humana de decisões tomadas por militares mergulhados em ódio e algoritmos. Mais do que denunciar o emprego da tecnologia na guerra, “Naza” questiona a ética de um sistema no qual a eficiência operacional está acima da vida. Provoca ao colocar a morte de civis como dano calculável.
Talvez o efeito mais perturbador da obra esteja em mostrar que a atrocidade não depende apenas do ódio explícito, mas também de procedimentos transformados em atos burocráticos, códigos, telas que tornam a violência aparentemente impessoal.
Diante de uma destruição que persiste, o filme convoca o público para, em 80 minutos, reconhecer as vítimas para além das estatísticas. A questionar a normalização de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.
Ficha técnica:
Direção: Yuval Abraham e Rachel SzorProdução: Jornal The Guardian, JW Films (Jim Wilson) e mk2 Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Idiomas: hebraico e inglês
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: documentário




