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23 setembro 2026

"Fiebre" - Uma viagem febril e delirante de uma criança pelo universo do fantástico

O visual elaborado da produção pode encantar os adultos, mas a narrativa exige atenção redobrada,
o que não combina com crianças (Fotos: Cup Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos principais trunfos de “Fiebre: Um Filme Para Crianças que Não Têm Medo do Fogo” é, sem dúvida, o apuro visual, cativante do início ao fim. O filme de Elisa Eliash, uma produção que une Brasil, Chile e Peru, mescla live-action e animação analógica para compartilhar a história de Nino, um garoto cujos olhos não produzem lágrimas – portanto, demanda cuidados constantes da mãe, que trata de ter sempre à mão um colírio para que os olhos do filho não fiquem demasiadamente ressecados.

Nino não sai muito de casa – a mãe teme que ele caia, devido ao problema ocular. No seu recolhimento involuntário, desenha bastante, mais até do que gostaria. Os trabalhos, fixados na parede, ressaltam um percurso imaginativo que será destrinchado ao logo da narrativa: assim, há a figura do avô chinês, as aventuras do pai, uma ilha na Polinésia... 


A figura da mãe surge em cena quando ela está prestes a sair ao encontro com um homem interessado em adquirir uma pintura que guarda em casa desde a infância. Mesmo febril, Nino vai acompanhá-la.

O aspecto fantástico começa a adentrar a cena quando o menino pede à mãe que lhe conte novamente a história da tela. Apesar de estar em cima da hora, a mulher cede à insistência do filho e relembra Pablo, artista adolescente e misantropo que, quando ela registrava apenas nove anos de idade, habitava o mesmo prédio, até subitamente desaparecer sem deixar rastros. 

Bem, ao menos para as pessoas do entorno, já que, a menina o encontra preso em um quadro a óleo descoberto no apartamento dele, o qual trata de pendurar em seu quarto. É na representação artística que Pablo dá sequência à sua existência, crescendo junto à garota.


Fascinado, Nino é informado pela mãe que é possível adentrar a pintura. Ao mesmo tempo, ela alerta: se entrar é fácil, sair... Imerso no já citado estado febril, Nino em dado momento ignora o alerta materno e profere as palavras mágicas que o transportam para um mundo metafísico, no qual os cenários podem mudar radicalmente a partir do momento em que da sua boca as palavras-chave voltam a sair e mediante representações visuais concretas, como fotos, desenhos e postais. 

Para citar um exemplo, não tarda a ele se ver imerso no filme italiano que, pouco antes, estava sendo exibido na TV de sua casa. O enredo mostra uma família (mãe e crianças) notadamente sem muitos recursos financeiros em meio aos bombardeios de uma guerra que ameaçam fazer a casa desabar. 


É neste momento, aliás, que ele encontra uma companheira de jornada, Dina. Juntos, os dois procuram comida e água, até desembarcarem em uma comunidade aborígene localizada nas cercanias de um vulcão prestes a entrar em erupção. 

Por sinal, temos aí um dos vários apontamentos da simbologia do fogo que aparece no subtítulo em português, para além, claro, da febre que perpassa o corpo do personagem principal, da presença de um sol inclemente ou do que emana de um fósforo.

Ao fim, há uma referência aos pais e mães que contam histórias para seus filhos, revelando uma homenagem aos que não reprimem a imaginação ilimitada dessa fase da vida, a infância, e que, pela realidade concreta, muitas vezes não deixa vestígios na vida adulta. 


A intenção é ótima, assim como digna de nota a associação do estado febril ao percurso delirante de Nino (sozinho ou junto à amiga imaginária Dina). Tal qual, como assinalado no início, o invólucro visual é de assoberbar, e é fácil prever que vai encantar adultos. 

O único porém fica por conta de uma provável não aderência do público-alvo (crianças) à história, pelo menos daquele que pertence à chamada primeira infância. Inicialmente, por conta de a narrativa exigir atenção redobrada, sem tempo para desvios ou desconcentração. 

Por outro lado, há citações que adentram terrenos arenosos, como a menção à morte iminente provocada pela erupção do vulcão. De todo modo, é uma aposta interessante. Se a criança não entender de todo o contexto, sairá impressionada pelo esmero visual. Já os pais, certamente serão cooptados.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Elisa Eliash
Produção: La Forma Cine e Válvula Films (Chile), coproduzido pela Klaxon (Brasil) e Films Bastardia y Tiempo Libre (Peru)
Distribuição: Cup Filmes
Duração: 1h24
Classificação: Livre
Países: Chile, Brasil e Peru
Gêneros: infantil, live-action, animação, ficção