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19 abril 2026

"A Meia-Irmã Feia": a busca extrema da beleza num conto de fadas sombrio e moderno

Elvira, interpretada por Lea Myren, se submete a procedimentos dolorosos para se encaixar em
um padrão imposto pela sociedade (Fotos: Marcel Zyskind)
 
 

Marcos Tadeu

 
Sucesso em Sundance e disponível em diversas plataformas de streaming para assinantes e aluguel, o longa "A Meia-Irmã Feia" ("The Ugly Stepsister"), escrito e dirigido por Emilie Blichfeldt, pega um conto de fadas clássico dos Irmãos Grimm e o transforma em uma narrativa sombria, onde beleza, desejo e ambição se misturam de forma perturbadora.

A história acompanha Elvira (Lea Myren), uma jovem consumida pela vontade de ser perfeita como sua irmã bastarda, Agnes (Thea Sofie Loch Næss, de "O Último Reino"), para conquistar o príncipe Julian (Isac Calmroth). 


O que diferencia esse filme de outros slashers de contos de fadas — como "Ursinho Pooh: Sangue e Mel" (2023) ou "A Maldição de Cinderela" (2024) é que ele constrói personagens complexos. 

Elvira não é só a “irmã feia”: ela é moldada pela mãe abusiva, pela pressão social e pelo próprio desejo de sobreviver e ser reconhecida. Sua relação com Agnes é cheia de camadas: ao mesmo tempo que há afeição, existe inveja, competição e frustração.

Nada é idealizado aqui. A mãe, Rebekka (Ane Dahl Torp), usa todos os recursos para ascender socialmente, passando por cima de quem for preciso, inclusive da própria filha. A vida no castelo e a preparação para o baile do príncipe revelam uma obsessão com beleza e status que chega a doer. 


Elvira se submete a cirurgias e procedimentos dolorosos para se encaixar em um padrão imposto, enquanto o filme não poupa o espectador do desconforto físico e psicológico que isso provoca. É impossível não lembrar de "A Substância" (2024), body horror que também aborda obsessão estética extrema.

Não há fada madrinha: quem ajuda Elvira são os empregados da mãe, maquiando e arrumando o cabelo para que ela pareça “ideal” aos olhos da corte. Mesmo Alma (Flo Fagerli), a irmã mais nova, só funciona como conselheira e ponto de apoio emocional. 


O terceiro ato entrega uma conclusão complexa e potente, deixando uma sensação amarga, como deve ser, diante da violência social e psicológica que a protagonista vive.

Tecnicamente, o filme brilha em cabelo e maquiagem, elementos que não apenas embelezam, mas ajudam a contar a história da transformação e do sofrimento de Elvira. Não por menos, foi um dos indicados ao Oscar 2026 nesta categoria, apresentando uma proposta bem coerente. O prêmio saiu, no entanto, para "Frankenstein" (2025), de Guillermo Del Toro.


A fotografia de Marcel Zyskind alterna entre o mágico e o violento, captando a evolução física e emocional da personagem de forma intensa. A estética do filme é polida, mas a violência surge sem aviso, gerando desconforto visceral semelhante ao que sentimos em "A Mosca" (1986).

"A Meia-Irmã Feia" é mais do que um conto de fadas de terror: é uma história sobre rivalidade feminina, obsessão com a aparência e construção de identidade. Lea Myren entrega uma protagonista intensa, complexa e cheia de camadas, e o filme deixa claro que a beleza exterior nunca deveria se sobrepor ao que existe por dentro - mensagem poderosa e ainda mais relevante nos dias de hoje


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Emilie Blichfeldt
Produção: Mer Film e coprodução Zentropa International Sweden
Distribuição: Mares Filmes
Exibição: Mubi e Prime Vídeo (ambos para assinantes), Apple TV, Youtube, Claro TV e Google Play (por aluguel)
Duração: 1h45
Classificação: 18 anos
País: Noruega
Gêneros: terror, ficção