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| Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas Ana Flávia Cavalcanti e Mawusi Tulani (Fotos: Vitrine Filmes) |
Silvana Monteiro
Em "Criadas", Carol Rodrigues constrói um drama que parte da intimidade de uma casa para investigar estruturas profundas da sociedade brasileira na pele de mulheres, a maioria delas negras.
Sandra (Mawusi Tulani) está em busca de lembranças de sua mãe. Por isso ela procura Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), sua prima, que vive no lugar em que sua mãe atuou como trabalhadora doméstica.
O reencontro entre elas é permeado de conflitos necessários para ressignificar as relações. Por ser a herdeira de uma mulher que viveu o trabalho doméstico, Sandra traz em si uma força motriz com maior sensibilidade.
A atuação das duas funciona como o eixo de uma narrativa que examina as diferentes experiências de mulheres negras situadas em posições sociais distintas, revelando como raça, classe e pertencimento produzem trajetórias marcadas por privilégios e vulnerabilidades desiguais.
Embora ambas compartilhem origens, raça e afetos, suas experiências são atravessadas por formas distintas de reconhecimento social. Mariana, filha da patroa, alcança uma condição de relativa mobilidade e circula por espaços onde sua identidade racial é frequentemente relativizada ou invisibilizada por olhares brancos.
Sandra, mulher negra retinta, ocupa uma posição de destaque profissional, mas continua submetida às formas mais explícitas do racismo estrutural e do machismo corporativo. O contraste entre as duas personagens permite ao filme abordar questões como colorismo, trabalho doméstico, mobilidade social e desigualdade racial sem recorrer a soluções simplificadoras.
A casa onde a narrativa se desenvolve torna-se uma metáfora do próprio Brasil. Seus cômodos guardam memórias, silêncios e hierarquias que atravessam gerações.
As paredes não delimitam apenas espaços físicos, mas também fronteiras simbólicas entre quem serve e quem é servido, entre quem herda privilégios e quem precisa constantemente justificar sua presença.
A ancestralidade ocupa papel central na narrativa. Os fantasmas que percorrem a casa não são apenas recursos sobrenaturais; representam memórias coletivas que insistem em permanecer.
O passado não aparece como lembrança distante, mas como uma presença concreta que interfere no presente e desafia as protagonistas a compreenderem quem são.
Nesse sentido, a busca pelo eu se confunde com a necessidade de reconhecer as marcas deixadas pela história, pela família e pelas relações raciais que moldam suas identidades.
O roteiro também amplia a discussão ao abordar relações afetivas fora da lógica heteronormativa. A sexualidade de Mariana traz, de modo breve, à reflexão sobre pertencimento, liberdade e construção identitária. O filme traz à tona os questionamentos de uma relação interracial.
Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas. Ana Flávia Cavalcanti entrega uma Mariana complexa, marcada por contradições e zonas de desconforto.
Sua interpretação evita respostas fáceis e evidencia uma personagem constantemente tensionada entre consciência social e reprodução de privilégios. Já Mawusi Tulani oferece à Sandra uma presença de grande força dramática.
Sua composição transita entre firmeza e vulnerabilidade, conferindo humanidade a uma mulher que precisa enfrentar diariamente estruturas de discriminação sem perder a capacidade de afeto.
O encontro entre as duas atrizes constitui o coração emocional do filme de sustentar os debates sociais sem reduzir as personagens a meros instrumentos discursivos.
A trilha sonora, composta por excelentes canções brasileiras de grande sensibilidade, amplia essa dimensão afetiva. A fotografia é maravilhosa e nos leva à memória de um ambiente ancestral e afetivo. "Criadas" propõe uma reflexão ampla sobre o Brasil contemporâneo.
Embora seja um pouco longo, trata-se de um filme que, mesmo quando sacrifica a sutileza em favor da pedagogia, demonstra coragem ao enfrentar temas historicamente silenciados e ao colocar duas mulheres negras no centro de uma narrativa sobre memória, identidade e transformação.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Carol RodriguesProdução: Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama





