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31 outubro 2026

"Cartório das Almas", filme-cabeça que não entrega o que propõe sobre eternidade e finitude

Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia
(Fotos: Pandora Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas. 

A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste. 


Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".

A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.


Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado. 

A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer. 

Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga. 


No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.

Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo. 

A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa. 


Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.

O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece. 

A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Léo Bello
Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h17
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: fantasia, ficção

07 maio 2025

"Virgínia e Adelaide" traz à tona a coragem e o pioneirismo de mulheres lutadoras

Longa-metragem é tão delicado, eficaz e didático que funciona quase como um documentário
(Fotos: Fábio Rebelo)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Adeptos da Psicanálise - sejam eles profissionais, pacientes ou meramente curiosos - certamente vão tirar proveito maior de "Virgínia e Adelaide", longa de Yasmin Thayná e Jorge Furtado produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre. 

Com roteiro enxuto e certeiro de Furtado, o filme que conta a trajetória da pesquisadora negra Virginia Leone Bicudo e da médica alemã Adelaide Koch estreia dia 8 de maio nos cinemas, prometendo esclarecer e resgatar o pioneirismo de duas mulheres visionárias e lutadoras.


São apenas duas atrizes em cena - Gabriela Correa, como Virgínia, e Sophie Charlotte, como Adelaide - o que leva o espectador a se sentir, em alguns momentos, como se estivesse num teatro. Não há ação, suspense nem tramas, mas o filme é tão delicado e didático que funciona quase como um documentário. 

Quem não sabe, vai ficar sabendo, minimamente, como funciona uma sessão de psicanálise, com seus silêncios, divã, sonhos, transferência, tempo lógico e palavras. Muitas palavras.


Tudo começa quando a paulista Virgínia Leone Bicudo, talvez paralisada e traumatizada após anos de enfrentamento de preconceito racial, procura a médica alemã Adelaide Koch, judia que chegou a São Paulo fugida da perseguição nazista de Hitler. 

Depois de muitas dúvidas e senões, Adelaide topa aceitar a nova cliente e, ao longo das sessões, o espectador vai descobrindo que há muito mais em comum entre elas do que se imagina. 


E é assim, lentamente, durante longos cinco anos, que a relação entre elas vai sendo transformada. As duas se tornam amigas, Virgínia ganha forças para enfrentar tudo e todos, faz também sua formação em Psicanálise, vive um tempo em Londres e se torna a primeira psicanalista brasileira.

No início, o público pode até estranhar o sotaque de Sophie Charlotte como Adelaide, mas a interpretação da atriz é tão convincente e natural que os diálogos passam a transcorrer naturalmente. 

Os diretores Jorge Furtado e Yasmin Thayná

Não se pode esquecer que embora tenha vindo para o Brasil aos sete anos, ela nasceu em Hamburgo, na Alemanha, e alguma coisa deve ter ficado com ela - no inconsciente?  Confira o vídeo do making off do filme clicando aqui

Gabriela Correa também brilha numa interpretação contida de mulher negra vítima de racismo disposta a mostrar ao mundo do que é capaz enquanto seu tratamento vai evoluindo, palavra por palavra, como convém à Psicanálise. Destaque para os figurinos irretocáveis de época, que ajudam a criar o clima para a história.


Como o filme se passa em sua maior parte na década de 1930, em alguns momentos fatos históricos como a ascensão do nazismo e do Estado Novo no Brasil são mostrados, levando o espectador a, quem sabe, traçar alguma similaridade ou paralelo entre eles. 

"O ódio é uma doença contagiosa", uma delas sentencia num dos diálogos. E a certa altura, Adelaide conclui: "Cada um sabe a hora de lutar ou correr". Elas lutaram. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Yasmin Thayná e Jorge Furtado
Produção: Casa de Cinema de Porto Alegre, coprodução Globo Filmes e GloboNews
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h35
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama