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09 junho 2026

Uma "BuenosAires" muito particular - e encantadora

Município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário
(Fotos: Garimpo Filmes e Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Na cidade de Buenos Aires, apenas um habitante nasceu de fato na Argentina. Não, você não leu errado. Ocorre que a "BuenosAires" à qual estamos nos referindo não é a capital do país vizinho, mas, sim, uma cidade localizada no interior de Pernambuco – precisamente, na Zona da Mata norte do estado, a cerca de 80 km do Recife. 

Na verdade, enquanto povoado, o local atendia pelo nome de Jacu, mas, em 1928, com a elevação do status para vila, virou Buenos Aires. Hoje com cerca de 13 mil habitantes, o município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário – que, aliás, estreia no Cine Belas Artes BH neste 11 de junho. 


Dirigido pela cineasta Tuca Siqueira, “BuenosAires” apresenta ao espectador, por meio de uma professora de espanhol (que ministra aulas gratuitas para poucos alunos), o universo rico e deleitante desse lugar tão fora da curva, no qual, para citar um pequeno exemplo, há que mulheres empenhadas em se aperfeiçoar no preparo das empanadas (iguaria típica da Argentina e outros países platinos), para venda. 

Ou, ainda, quem tente reproduzir as casinhas coloridas características do Caminito, em La Boca, ponto turístico obrigatório para quem vai à Buenos Aires argentina (pelo menos na primeira visita). 

Há também o morador – Luzivaldo – que, enquanto fã de carteirinha do lendário jogador que hoje atua no Inter Miami, colocou o nome de Lionel em seu filho mais novo. 

No documentário, Janaína, a mãe do garoto, inclusive assume o arrependimento de não ter atendido ao desejo inicial do marido, que era registrar o rebento como Lionel Messi. Em tempo: um dos sonhos não realizados de Luzivaldo era morar na Argentina.


O futebol também é responsável pelo clima de frenesi que toma conta dos habitantes às vésperas do “clássico” Penãrol X Boca Juniors (não os originais, claro, mas os locais, homônimos ao time uruguaio e ao argentino). No alto falante, anuncia-se uma promoção de camisas da seleção argentina, assim como da brasileira, na loja Zé Paulo Variedades. 

Este comércio, vale dizer, é comandado por um ex-jogador (sim, óbvio, o Zé Paulo) que, apaixonado pelo Boca Juniors, criou o clube homônimo no sertão pernambucano, onde atua como preparador, técnico e massagista, além de também entrar no campo. Sua esquadra enfrenta times como o River Plate da Paraíba ou o já citado Penãrol pernambucano.


Em uma cena, jovens da Buenos Aires brasileira comentam, em tom de crítica, o fato de, por conta do nome da cidade, muitos habitantes do município torcerem entusiasticamente pela seleção argentina, e não pela brasileira, o que seria mais natural. 

Parênteses: isso porque as imagens de “BuenosAires” foram captadas em 2022, ano do Mundial, que, ao fim, foi vencido pelo país banhado pelo Rio da Prata, no confronto com a França. 

Outro momento do longa, mais uma vez ligado ao futebol, mostra torcedores vestidos com a camisa oficial do time azul e branco cantando: “Eu... sou argentino/com muito orgulho/com muito amor”. 

Ah, sim... A cidade pernambucana também tem um La Bombonera, que ostenta, na entrada, uma estátua de Maradona, assim como, nos muros que o delimitam, pinturas retratando ídolos como Messi ou Tévez. 


Para além das semelhanças com a capital argentina, “BuenosAires” também mostra outras características da cidade pernambucana, como o sósia de Roberto Carlos ou a rotina dos que trabalham na colheita da cana de açúcar. 

Mas mesmo aí a adoração pela seleção argentina se infiltra, como na figura de Catita, trabalhador que acorda às quatro da manhã para garantir o futuro da família, e que aparece na telona com a camisa da seleção argentina. 

Não só. Até a tradição cultural mais importante da cidade, o maracatu, surge maculada pela paixão pela bola em campo. Um contraponto é o patriótico Biart, escultor de figuras sacras (lindíssimas), que, lá atrás, sonhou em ser famoso com sua faceta cantor/compositor de rock e reggae – uma de suas músicas, aliás, está presente na trilha. 


Em um momento divertido, o doc fala de uma marcante semelhança entre as duas cidades: a presença incômoda dos mosquitos. Quem levanta o fato é o argentino citado no início da matéria, Leonardo, nascido em La Pampa, mas criado em Bariloche (não por outro motivo, o moço penou para se adaptar ao clima da sua nova morada, dividida com Josi, a “Gringa”). 

Programador de software, ele hoje é profundo conhecedor da história local e sonha em criar o Museu dos Engenhos. A câmera o flagra com seu detector de metais a procurar moedas no solo árido.


O cemitério da cidade (e seus túmulos singelos, pintados com afinco), a agremiação que faz bonito no Carnaval pernambucano, a alegria que emerge em meio às despretensiosas conversas cotidianas nas calçadas (para as quais as cadeiras são trazidas no interior das casas e instaladas nas calçadas, a fanfarra que motiva os jovens a ensaiarem coreografias, exibidas de forma empenhada... 

Outros pontos se incumbem de delinear de forma mais precisa o dia a dia dessa cidade que, ao fim, deixa no espectador a vontade sincera de conhecê-la. E o desenlace não poderia ser embalado por outra música que não a de Biart: “Na velha cidade da lua/na velocidade da luz/você é a nave que me conduz/e no balanço do reggae eu chego lá”. Ou, quizá, no balanço do tango, do maracatu...


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Garimpo Filmes
Distribuição: ArtHouse Distribuidora
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h10
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

27 fevereiro 2023

Documentário “Muribeca” mostra a destruição de uma comunidade

Filme distribuído pela Descoloniza Filmes chega às telas após rodar por festivais nacionais e internacionais (Foto: Alcione Ferreira)



Eduardo Jr.


“Muribeca é memória; porque não volta, não existe mais”. A definição na voz de uma das pessoas ouvidas no documentário de mesmo nome não é exagero. O bairro, localizado em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, vive um processo de apagamento e resistência.

Este é o ponto de partida da produção encabeçada por Alcione Ferreira e Camilo Soares, que chega às telonas no dia 2 de março. 

(Foto: Alcione Ferreira)

O espectador não precisa esperar imagens exuberantes. As cenas do grande conjunto habitacional deteriorado dialoga com a tristeza dos depoimentos. E a essa combinação se somam gravações antigas de uma comunidade festiva. 

Está posto o contraponto e o incômodo: como um bairro de periferia, em que as pessoas se reuniam nas ruas para curtir o carnaval e jogos de copa do mundo, se transforma em uma cidade fantasma?       

(Foto: Alcione Ferreira)

Momentos significativos

A produção de 1 hora e 18 minutos responde a essa questão, mas não sem antes colocar na tela momentos significativos. Como a cena de um céu com nuvens anunciando tempo ruim, enquanto, ao fundo, um berimbau chama para a luta. 

E também a saudade de pessoas pobres que foram forçadas a abandonar amigos, seus lares, toda uma vida construída ao longo de décadas.   

(Foto: Alcione Ferreira)

Entre os depoimentos, colhidos em 2018, estão os do quadrinista Flavão, que também atuou como produtor local no documentário, e de outros moradores. 

Com a demolição de um dos prédios, caem também as lágrimas e vem à tona o desespero de quem viu a vida ruir e de quem tenta, melancolicamente, resistir em um cenário de problemas estruturais, especulação imobiliária e insegurança jurídica. 

Camilo Soares e Alcione Ferreira (Foto: Rafael Cabral)

Contadores de histórias

Se aproximar de pessoas e contar histórias junto delas não é novidade para os diretores. A jornalista Alcione Ferreira foi fotojornalista e videorrepórter do Diário de Pernambuco, onde conquistou o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Camilo Soares é um dos fundadores da produtora de cinema Senda, e participa do coletivo de fotógrafos CRIA. 

(Foto: Shilton Araújo)  

“Muribeca” foi realizado com poucos recursos, mas ainda assim conquistou espaço em diversos festivais, como o Toronto Lift-Off (Canadá), Fidba (Argentina), Cine Del Mar (Uruguai), Aubervilliers (França), GBiennale (Austrália), Metrópolis (Itália), Cine PE, Festival de Santos, Mostra de Ouro Preto e Cine Sesc. 

A distribuição é da Descoloniza Filmes, que nasceu com o propósito de equiparar a distribuição de filmes dirigidos por mulheres, e que já codistribuiu, com a Vitrine Filmes, a produção “Carta Para Além dos Muros”. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Alcione Ferreira e Camilo Soares
Produção: Senda Produções
Distribuição: Descoloniza Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h18
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário