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13 abril 2026

Com leve suspense e ótimo elenco, "Caso 137" esquenta o debate sobre a ética na polícia

Léa Drucker está muito bem como corregedora de polícia Stephanie Bertrand que investiga má conduta
de policiais durante uma manifestação (Fotos: Autoral Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
"Se há manifestação, certamente, trata-se de Paris"  O comentário costuma ser repetido entre as pessoas que já visitaram mais de uma vez a capital francesa ou já viveram por lá algum tempo.  A verdade é uma só: os franceses - e os parisienses em particular - estão sempre dispostos a participar de passeatas, greves e movimentos, sejam eles contra o governo, o transporte público, o serviço de saúde ou a polícia. 

Pois é a partir dessa ideia que surge a história de "Caso 137" ("Dossier 137"), dirigido por Dominik Moll ("Lemming"- 2005 e "A Noite do 12" - 2022), em cartaz nos cinemas a partir de 16 de abril.


Ficção baseada em fatos, o longa apresenta ao público os dois lados do eterno conflito entre polícia e manifestantes a partir de um embate ocorrido em  2018, em plena Champs Elysées, quando um jovem foi ferido na cabeça por uma bala de borracha, também chamada de granada de dispersão, deixando sequelas sérias e irreversíveis. 

Quem atirou? Foi legítima defesa ou abuso de autoridade? Houve testemunhas? É exatamente isso tudo que está investigando a corregedora Stephanie Bertrand (Léa Drucker), no que poderia ser apenas mais um caso de rotina, se ela já não conhecesse superficialmente a família de Guillaume Girard (Côme Peronnet), o jovem ferido.


Numa daquelas interpretações que podem ser chamadas de "tipicamente francesa", calcada na naturalidade, a policial de Léa Drucker convence sem muito esforço, colocando o espectador dentro do seu dilema. Afinal, ela completou 15 anos de bons serviços prestados à Inspeção Geral da Polícia Nacional, sem que nada manchasse sua carreira. 

De quebra, ao mesmo tempo que fica conhecendo a seriedade com que a IGPN parece investigar a própria polícia, o espectador passa a tomar conhecimento também da burocracia que torna tudo mais lento, como se forçasse o apagamento dos erros. 


E, claro, toca no inevitável corporativismo das forças policiais como se perguntasse: a quem a polícia deve proteger - o poder ou o cidadão?

O fato de ser uma mulher à frente da investigação é outro acerto do diretor, que também assina o roteiro com Gilles Marchand. Aos poucos, a história apresenta a vida de Stephanie e suas questões com os pais idosos, o ex-marido e o filho adolescente. 

Não é difícil imaginar como foi que ela chegou ao topo da carreira diante de tantas dificuldades, já que sua família vive em Saint-Dizier, a mais de 200 quilômetros de Paris.


Indicado à Palma de Ouro de Cannes no festival de 2025, "Caso 137" teve oito indicações ao Prêmio César, quando Léa Drucker levou o prêmio de Melhor Atriz. 

O elenco, aliás, é todo afinado e conta com Jonathan Turnbull (policial Benoit Guérine), Sandra Colombo (Joelle Girard), Mathilde Riu (Sonia Girard) e Guslagie Malanda (Alícia Mady), cada um colaborando, de uma forma ou de outra, para que as reviravoltas provoquem algum suspense e para que a discussão sobre a ética na polícia seja, mais uma vez, motivo de reflexão.


Ficha técnica:
Direção: Dominik Moll
Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand
Distribuição: Autoral Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h55
Classificação: 16 anos
País: França
Gênero: thriller policial

12 julho 2023

"A Noite do Dia 12" denuncia a violência presente em diversas esferas da sociedade

Destaque para as ótimas atuações de Bastien Bouillon e Bouli Lanners como os investigadores (Fotos: Fanny de Gouville/Haut et Court)


Carolina Cassese
Blog no Zint


Com estreia exatamente nesta quarta-feira (12) e direção de Dominik Moll, o longa "A Noite do Dia 12" é inspirado numa história real que virou livro pelas mãos da escritora francesa Pauline Guéna. 

Na noite de 12 de outubro de 2016, em Saint-Jean-de-Maurienne (Savoie), uma jovem de 21 anos, Clara Royer (Lula Cotton-Frapier), foi assassinada por um homem encapuzado, quando voltava de uma noite com amigos. 


Sabemos que, infelizmente, esse caso de feminicídio não representa um incidente isolado - no nosso país, por exemplo, há inúmeros registros de mulheres que são assassinadas, especialmente por namorados ou ex-companheiros. 

Diante desse quadro preocupante é primordial que o cinema contemporâneo trate dessa questão e nos faça refletir acerca das muitas dimensões do problema. Desde o começo do filme, que está em cartaz nos cinemas, o espectador está ciente de que o assassinato não será solucionado. 


Tal aviso é bem-vindo, já que, por esse motivo, compreendemos de antemão que o longa não seguirá a cartilha dos clássicos filmes de detetive. O que nos faz ficar com os olhos grudados na tela mesmo sem a iminência de descobrir quem é o assassino? 

A resposta possivelmente diz respeito ao eficiente ritmo do filme e, ainda, às ótimas atuações de Bastien Bouillon (Yohan) e Bouli Lanners (Marceau), que fazem o papel dos investigadores. No César de 2023, principal premiação do cinema francês, o longa foi o grande vencedor da noite, levando inclusive as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Direção. 


Outro mérito do trabalho de Moll é mostrar que, por mais que a autoria daquele episódio seja individual, existe uma responsabilidade coletiva acerca de crimes cometidos contra a mulher. Em determinado momento, o investigador Yohan chega a dizer que todos os homens mataram Clara, inclusive porque ela foi vítima de diferentes tipos de violência. 

Mesmo após o assassinato, um cantor se sente no direito de fazer brincadeiras sobre sua trágica morte. Além disso, sabe-se que, em casos de crimes contra as mulheres, muitos representantes da (suposta) justiça acabam culpabilizando a vítima pelo ocorrido. Nesse sentido, fica evidente que o feminicídio é um problema sistêmico e bastante complexo.


Parte da inventividade de "O Crime É Meu", longa francês em cartaz no Cineart Ponteio e UNA Cine Belas Artes, está justamente na subversão desse cenário, já que, no filme de François Ozon, são as mulheres que matam os pares masculinos por motivos banais, numa espécie de vingança contra abusos naturalizados cotidianamente. 

Na vida real, evidentemente, ninguém deveria ser morto por razão alguma. Mas ao inverter a situação ficcionalmente, Ozon evidencia o absurdo da realidade em que estamos inseridos. 


"A Sindicalista", em cartaz também no UNA Cine Belas Artes, é outro filme que mostra como as engrenagens do sistema muitas vezes são programadas para operarem contra a mulher, transformando a vítima em culpada.

Angustiante e visceral, "A Noite do Dia 12" não é um filme fácil de assistir. No entanto, o novo trabalho de Dominik Moll é muito eficiente em prender a atenção do espectador e em denunciar como a sociedade patriarcal pode ser conivente com crimes cometidos contra a mulher. 


Se, por um lado, às vezes necessitamos apenas de um filme feel good para descansar a cabeça, em outros momentos precisamos encarar nossa realidade e nos movimentar a partir da indignação. Um soco no estômago, portanto, é bem-vindo para nos tirar da inércia.


Ficha técnica:
Direção: Dominik Moll
Roteiro: Gilles Marchand e Dominik Moll
Produção: Haut et Court
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h55
Classificação: 16 anos
Países: Bélgica, França
Gêneros: drama, suspense, policial