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| Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra) |
Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta.
Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal.
Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.
O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.
Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens.
Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.
O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força.
Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.
É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz.
A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional.
Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.
Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco.
O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão.
O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.
“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.
Ficha técnica:
Direção: Zelito VianaProdução: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário





