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| Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, acompanhando o piloto Felipe Nasr em tempo real (Fotos: Paulo Oliveira) |
Maristela Bretas
Há uma ideia potente no centro de “2DIE4: 24 Horas no Limite” — e ela, de fato, acelera forte. O problema é que o filme parece mais interessado em impressionar do que em sustentar o percurso. Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, o longa dirigido pelos irmãos publicitários André e Salomão Abdala mergulha o espectador na experiência das 24 Horas de Le Mans de 2025.
O filme acompanha o piloto brasileiro Felipe Nasr, quase em tempo real, na prova de resistência mais famosa do automobilismo mundial, considerada a mais antiga e exigente da história.
Nesse aspecto é impossível negar seu impacto: há momentos em que a sensação de estar dentro do cockpit é tão convincente que o cinema praticamente desaparece — sobra apenas a corrida. Isso para uma produção que contou com apenas oito pessoas e levou dois anos para ser realizada.
A fotografia é um espetáculo à parte, especialmente nas cenas captadas ao amanhecer e durante o dia, quando a luz recorta os carros e a pista com precisão. A qualidade de imagem é, sem exagero, impressionante, e justifica plenamente a ambição de ser o primeiro filme brasileiro pensado para esta tecnologia.
A proposta sensorial funciona: o longa não quer apenas ser visto, quer ser sentido. A produção foi vencedora do Motor Sports Film Award 2025 na categoria Melhor Documentário de Longa-Metragem.
Essa escolha, no entanto, cobra seu preço. Ao estruturar o filme como uma sucessão de “melhores momentos” da corrida, os diretores acertam no ritmo, mas sacrificam muito a construção dramática. O que poderia ser um retrato íntimo da pressão física e psicológica de uma prova de resistência se transforma em algo superficial, quase ilustrativo.
A tentativa de criar um arco emocional para Nasr — por meio de narrações em off e cenas encenadas de preparação e introspecção — soa artificial. Em vez de aprofundar o personagem, que inegavelmente é um grande piloto, essas inserções lembram discursos motivacionais prontos, quebrando a autenticidade que o restante do filme tenta construir.
A narrativa passa a imagem de uma pessoa arrogante e dona da verdade, que desmerece o trabalho da equipe e dos demais pilotos, se colocando quase que como única salvação para a vitória. Todos os demais são meros componentes de um filme que foi feito para valorizar Felipe Nasr e a Porsche.
Há também um desequilíbrio na mixagem de som. Embora a trilha sonora seja eficiente e envolvente, seu uso excessivo acaba sabotando a própria experiência. Em diversos momentos, a música se sobrepõe ao ronco dos motores — que deveria ser protagonista — e até mesmo às conversas de bastidores. Para um filme que busca imersão, chega a ser incoerente abafar, por diversas vezes, seus próprios elementos mais orgânicos.
“2DIE4: 24 Horas no Limite” tem seus méritos: ao abrir mão de entrevistas, contextualizações e explicações didáticas, ele aposta na imersão pura, transformando o espectador em participante direto da corrida. Uma associação interessante entre documentário e ficção sensorial, uma ousadia rara no cinema nacional.
Para os fãs de automobilismo, é um prato cheio: tecnicamente arrebatador e capaz de entregar momentos de tirar o fôlego. No entanto, a narrativa da produção é cansativa, com furos que incomodam até mesmo quem acompanha o mundo do automobilismo.
Além de abusar em longos minutos de tela preta, que ajudam a confirmar que toda a potência do IMAX foi apenas parcialmente aproveitada, assim como o tema e que a duração de 60 minutos poderia ser menor. “2DIE4: 24 Horas no Limite” acelera com força, mas esquece de construir uma linha de chegada que valha a jornada ao cinema para o público comum.
OBS.: Como parte da divulgação do filme, o carro dirigido por Felipe Nasr pela equipe Porsche Penske Motorsport, o Porsche 963 de número 7, está em exibição no terceiro andar do Boulevard Shopping, em BH.
Ficha técnica:
Direção: André e Salomão AbdalaProdução: Abdala Brothers
Distribuição: 02 Play Filmes
Exibição: sala IMAX do Cineart Boulevard, sala 2 do Cineart Ponteio e sala 3 do Cinemark Pátio Savassi
Duração: 60 minutos
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário




