20 março 2026

"Enzo" flagra o embate de um adolescente com sua sexualidade e uma realidade de privilégios

Eloy Pohu e Maksym Slivinskyi são colegas num canteiro de obras onde trabalham como pedreiros e
criam uma amizade que vai além do trabalho (Fotos: Mares Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Há um ponto importante a preceder a análise de "Enzo", produção francesa que entra agora em cartaz na cidade. É que, já com o projeto em curso, o diretor Laurent Cantet teve que lidar com o agravamento do seu quadro de saúde, em função de um câncer. 

Consciente de seu pouco tempo de vida, ele teria chegado a aventar o arquivamento do projeto. A ideia, no entanto, foi refutada pelo seu parceiro de trabalho de toda vida, o também diretor Robin Campillo ("120 Batimentos por Minuto"), que, no quarto de um hospital, manifestou o desejo de tocar a empreitada. 

Cantet faleceu aos 63 anos, em abril de 2024. Com absoluto respeito ao caminho já delineado pelo amigo - a quem havia conhecido quatro décadas antes -, Campillo seguiu resoluto e, assim, no ano passado, o filme, enfim, chegou às salas exibidoras na Europa.


"Enzo" se filia ao escaninho dos filmes que lançam um olhar sobre o rito de passagem da adolescência para a vida adulta por meio do personagem citado no título, um garoto de 16 anos (vivido por Eloy Pohu). 

Ele surge pela primeira vez em cena sendo repreendido pelo ritmo lento com o qual executa suas tarefas como aprendiz de operário em uma casa em construção. 

Sem paciência com o jovem, Corelli, o chefe de obras, resolve levá-lo de carro de volta à casa, de modo a conversar seriamente com os pais sobre o fraco desempenho do subordinado. 

Ao chegar ao destino, porém, Corelli é impactado por uma realidade à qual de modo algum esperava: é que Enzo mora em uma casa idílica, sofisticada, cool, debruçada sobre a riviera francesa (o filme se passa em La Ciotat, comuna francesa localizada na região da Provença-Alpes-Costa Azul, no sul do país). 


Inclusive, no momento em que adentra a casa, Corelli, desconcertado, vislumbra os pais do menino a se refestelar na piscina, que, vale dizer, circunda toda a casa. 

Simpáticos no último grau, Paolo (Pierfrancesco Favino, ator italiano que já tem um rosto conhecido no Brasil) e Marion (Élodie Bouchez), os genitores, desconcertam Corelli. 

Ao mesmo tempo, ele não consegue entender o que levou um jovem de status tão elevado a se candidatar ao posto de um mero aprendiz num canteiro de obras, cargo nada atraente a pessoas da elite.

A mesma dúvida acompanha o público, mas, no encaminhamento da trama, algumas pistas são lançadas. Ocorre que Enzo simplesmente não encontra seu lugar no mundo, o que pode soar natural na faixa etária em que o personagem se encontra. 

O diferente, aqui, é que o adolescente refuta veementemente o status da família, de modo que, na sequência, quando os colegas de obra manifestam desejo de ir à piscina, ele frisa que a casa não é dele, mas, sim, dos pais. Do mesmo modo, Enzo abandona a escola, por não se sentir confortável inserido no sistema tradicional de ensino.


Compreensivos, os pais de Enzo até tentam com que ele se valha dos seus inequívocos dotes artísticos para, quem sabe, seguir uma carreira neste campo, o que o garoto também descarta. 

O jovem está empenhadíssimo em continuar atuar no campo da construção, mas como operário. A todo tempo, aliás, Enzo questiona os privilégios que desfruta, inclusive em tempos nos quais guerras acontecem em outras partes do mundo. 

Principalmente mediante o contato com dois colegas ucranianos, no citado canteiro de obras. Por meio dos relatos dele, passa inclusive a mergulhar no conflito, não só questionando se ambos não deveriam voltar para casa e lutar pelo país como manifestando o insólito desejo de ir junto e estar no front.

Neste ponto, Vlad (Maksym Slivinskyi), um dos ucranianos, questiona o arroubo do garoto, posto que nem ele entende que deva sair naquele momento da França. Em resposta, Enzo surpreende ao dizer que se sentiria seguro ao lado do colega. 


A verdade é que, além do estranhamento quanto ao status que sua família ocupa em um mundo em desencanto, Enzo também está às voltas com questões ligadas à sexualidade. Assim, ao mesmo tempo em que no curso do filme investe em flertes com garotas de sua faixa etária, vai se conectando cada vez mais a Vlad.

A trama vai se desenrolando temperada pelos pensamentos críticos de Enzo - em determinado momento, por exemplo, ele se pergunta de que adiantaria o luxo alcançado pela família (e refletido pela beleza idílica da casa) se um tsunami ocorresse no local e a destroçasse por completo. 

E por pinceladas de momentos nos quais o público vai prender o fôlego ante a iminência de uma tragédia, como quando ele se deita à beira de um precipício ou quando frustra os planos do pai para o final de semana e se mete em aventuras com os companheiros de obra.


Um detalhe importante é que Eloy Pohu não é um ator de formação. De acordo com matérias publicadas em jornais franceses, ele se dirigiu ao local dos testes apenas para acompanhar o irmão, esse sim, candidato. 

Mas foi justamente sua inexperiência e sua performance contida que conquistou a produção, que enxergou, ali, o intérprete perfeito - mesmo porque, Enzo é um personagem predominantemente introspectivo, ensimesmado, contido... 

Quando os fatores externos o abalam, aí sim, é capaz de atitudes extremas, como a que irrompe na festa de despedida do irmão mais velho, que está para partir rumo a Paris, após conquistar uma bolsa, para orgulho dos pais.

O filme - e isso não é um spoiler - termina em aberto, mostrando que, tal como no mundo real, principalmente quando se é jovem (mas não só), a possibilidade de recalcular rotas se faz presente, ainda que o acerto ou desacerto estejam no espectro das possibilidades. 


Há que se dizer que o "Enzo" é um filme intimista, centrado, como já dissemos, no torvelinho que habita esse jovem. Portanto, que ninguém espere um filme centrado em ações - ainda que, claro, elas estejam na narrativa. 

Por último, mas não menos importante, Cantet é o nome por trás de um filme que fez história ao mostrar a realidade de jovens da periferia de Paris por meio de "Entre os Muros da Escola" (2008), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes naquele ano. O longa é simplesmente imperdível, e pode ser assistido pelos assinantes do Prime. 

Outro dos filmes dele exibidos nos cinemas do Brasil e atualmente disponível no Google Play é "Em Direção ao Sul" (2005), estrelado por ninguém menos que Charlotte Rampling, e que aborda o turismo de teor sexual - no caso, tendo o Haiti como cenário.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Robin Campillo e Laurent Cantet
Distribuição: Mares Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h42
Classificação: 16 anos
Países: França, Itália, Bélgica
Gênero: drama

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