| Série da produtora mineira Filmes de Plástico traz uma família com nuances às quais diversos espectadores vão se identificar (Fotos: Denise dos Santos) |
Patrícia Cassese
Para o bem ou para o mal, a tradição de juntar família e agregados em torno de uma mesa farta é o momento mais simbólico da comemoração do Natal no Brasil.
Impreterivelmente, o ritual é acompanhado de uma oração - afinal, trata-se de uma data de cunho religioso -, feita preferencialmente com anfitriões e convidados de mãos dadas.
O encontro também prevê a entrega de presentes (cujo destinatário foi definido em sorteio prévio, o célebre "amigo oculto"), precedida por uma breve descrição do sujeito, de modo a mobilizar os entes a tentar adivinhar quem vai abrir o pacote. A foto para eternizar a celebração entra em cena como o arremate perfeito.
No hemisfério adulto, porém, é notório que nem todos os que comparecem a tais eventos estão, de fato, se sentindo à vontade para estar no mesmo ambiente com um ou outro parente.
Sim, atire a primeira pedra aqueles que não têm, no seio de suas famílias, conflitos (velados ou explicitados) que fazem com que os sorrisos e abraços dados na noite que marca o nascimento de Jesus na tradição cristão não sejam por vezes contaminados por um mal-estar.
Em "O Natal dos Silva" não é diferente. É a primeira série da festejada (e com toda razão) produtora Filmes de Plástico (sim, você sabe, de Contagem, responsável por "Marte Um" - 2022), cujo primeiro capítulo já está disponível no Canal Brasil (Globoplay, plano Premium).
A produção traz uma família com nuances às quais diversos espectadores vão se identificar, independentemente da realidade ao entorno de cada um.
A direção dos episódios - cinco, ao todo - é assinada por Gabriel Martins, Maurilio Martins e André Novais Oliveira, que também assina o roteiro ao lado de Gabriel. A ação se desenovela em um Natal atípico na família Silva.
Isso porque é a primeira comemoração da data sem a presença da matriarca Zelina, esteio principal daquele agrupamento de pessoas reunido na casa onde ela morava com a filha, Bel, interpretada magistralmente (zero surpresa) por Rejane Faria.
Integrante do QuatrolosCinco, Rejane esteve em filmes como "Marte Um", em séries como "Segunda Chamada" e em novelas como "Vale Tudo", além de compor o elenco de "Três Graças". Vale dizer que, de pronto, a personagem Bel impacta pelo palavreado cru, sem filtros e sem freios.
No decorrer da trama, o espectador entende tratar-se de uma armadura que ela ergueu em torno de si para se proteger das agruras da vida, que, a essa altura, já lhe deixaram marcas profundas.
Mas é mesmo em tom hostil que, logo no inicinho, Bel recebe o filho, Luciano (Robert Frank, simplesmente perfeito, em tom mais que acertado) que chega para o festejo com a nova namorada, Lin (Aisha Brunno, do necessário "Tudo O Que Você Podia Ser"), uma mulher trans - atenção: essa especificação se faz necessária neste texto apenas por ser motivo de impacto para alguns dos membros da família Silva.
Pouco a pouco, outros membros também batem a campainha e, com a chegada deles, a temperatura começa a subir de modo irrefreável. Não tarda para que mágoas e rusgas perfurem a epiderme da cordialidade num fluxo crescente e violento, envolvendo notadamente os filhos de Dona Zelina - tanto os de sangue quanto Jezinho (Ítalo Laureano), que foi para os Estados Unidos atrás do sonho de ser ator.
Da mesma forma, dois dos netos - justamente os filhos de Bel, ou seja, o já citado Luciano e Banda Larga (Leonardo de Jesus), além de Lucimara (Raquel Pedras, ótima), viúva de Pedro, filho de Zelina morto em um acidente cujo responsável é um dos irmãos.
No curso dos capítulos, percebe-se que as feridas do passado estão longe de ter cicatrizado, e as discussões se sucedem, provocadas desde por motivos de pouca monta - como o fato de Bel estar, naquela noite, trajando um vestido que era da mãe, o que irrita sobremaneira a irmã, Lúcia (Carlandréia Ribeiro, magnífica, também sem nenhuma surpresa), até aquele que é grande ponto nevrálgico da série, o tal X da questão: a eventual venda da casa.
A alternativa, pontue-se, é pleiteada pela maioria dos presentes, que vê, nesse expediente, a grande (e talvez única) oportunidade de passar a régua nos problemas financeiros do momento e, a partir daquele ponto, respirar aliviada e seguir em frente.
Ocorre que a mera possibilidade de se desfazer da casa em que morava com a mãe faz com que Bel ative todos os seus ferrões, posto que enxerga a hipótese como um ato de extrema traição à memória da família.
Assim como passa a aventar o destino de tudo o que ali, naquele endereço, marcou a narrativa do clã, caso do pé de manga no quintal, que, no curso dos anos, serviu inclusive de árvore de Natal dos Silva.
Evidentemente (pelo preconceito vigente no país), a espiral da raiva suga, para seu epicentro, a figura de Lin, que, com espantoso equilíbrio, encara o veneno destilado em piadas ou mesmo de modo explícito, ferino - ainda que, claro, seu emocional não passe ileso.
Com todas essas iscas, impossível não ficar preso ao enredo. E que bom. Porque, neste percurso, os espectadores são brindados com tanto, mas tanto, que fica até difícil salientar um aspecto em particular.
Obviamente, não dá para não falar do elenco ma-ra-vi-lho-so. Além dos elogios já distribuídos no curso desse texto (a Rejane Farias, Robert Frank, Carlandreia Ribeiro, Raquel Pedras e Aisha Brunno, que sem dúvida deram seu suor e capricharam na construção dos respectivos personagens, todos cheios de camadas, portanto, de composição perceptivelmente árdua).
Extensivos aos outros também citados (Leonardo de Jesus e Ítalo Laureano) há que se falar do talento absurdo e da presença magnética de Carlos Francisco. O ator atualmente também pode ser visto em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, como o sogro do personagem vivido por Wagner Moura.
E tem ainda Renato Novaes e Roberto Novais Oliveira, presenças que enriquecem as produções da Filmes de Plástico. Não daria também para não citar o encantamento provocado pela presença da atriz mirim Azula Santana, que mostra a que veio em uma fala fofa da sua personagem, Lara.
Ponto também para a abertura, em tom retrô, pontuada de itens icônicos do período natalino (luzinhas, cartões, presentes etc), bem como para a presença, nos episódios, de nomes queridos da cena belo-horizontina, como Adilson Marcelino.
Ah, sim! Claro, a narrativa traz alguns "alívios cômicos", mas muito bem equilibrados na trama que, vamos frisar, se afilia de modo precípuo ao gênero drama.
Ficha técnica:
Criador: Gabriel MartinsDireção: Gabriel Martins, Maurilio Martins e André Novais Oliveira
Produção: Filmes de Plástico e Canal Brasil
Distribuição: Canal Brasil
Duração: média de 40 minutos
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, família, série
Exibição: Canal Brasil - episódios novos as quintas, às 21h30, no Canal Brasil
Reprises: sextas, 22h30; sábados, 23h; domingos, 19h; e quartas, 20h30
Maratona especial no dia 25 de dezembro, a partir das 19h (com os quatro primeiros episódios e a estreia do quinto)
Dia 27/12 - às 20h30
Dia 28/12 - às 16h30
Dia 02/01/2026 - às 23h
Exibição de um episódio por semana no Globoplay Plano Premium