24 março 2026

“Peaky Blinders: O Homem Imortal” e o problema de não saber a hora de parar

Cillian Murphy está de volta como Thomas Shelby, personagem que o consagrou na série homônima
(Fotos: BBC Films)
 
 

Jean Piter Miranda

 
O ano é 1940 e a cidade inglesa de Birmingham está sendo atacada pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Thomas Shelby (Cillian Murphy) segue recluso, distante de tudo, convivendo com suas dores. 

Após tantas perdas ao longo da vida, ele deixou pra trás seus dias de gângster. Porém, a ligação de nazistas com seu filho Duke (Barry Keoghan) faz com que o maior de todos os Shelby volte à ativa para uma última batalha. 

Esse é “Peaky Blinders: O Homem Imortal” ("Peaky Blinders: The Immortal Man"), filme disponível na Netflix. O longa chega para encerrar “Peaky Blinders”, série de grande sucesso mundial que teve seis temporadas entre 2013 e 2022. 


Ao longo de 30 capítulos, Tommy Shelby se torna um dos maiores gângsteres da Europa. A trama envolve questões familiares, crimes, amizades, lealdade e traições. São muitas brigas, violência, a entrada do clã no mundo dos negócios e também na política. 

Depois de perder amigos, familiares e amores, Tommy não vê mais sentido na vida. Ele então se retira e vai viver sozinho, no interior do país. O antigo gângster agora passa os dias em uma casa assombrada, remoendo o passado diariamente, como uma espécie de penitência. 


Escreve um livro de memórias como um ritual para esquecer tudo o que viveu. Sua única irmã viva, Ada (Sophie Rundle) vai ao seu encontro para pedir ajuda. Ela relata os problemas que enfrenta, em especial com Duke, filho dele.

Como era de se esperar, Ada não consegue convencê-lo a voltar para Birmingham. Porém, a visita inesperada da cigana Kaulo (Rebecca Ferguson) muda tudo. Com seus poderes místicos, ela faz com Tommy mude de ideia. 


É nesse segundo ato, quando a ação se inicia, que o filme começa a se perder. Se na introdução tudo seguia bem, com um desenvolvimento esperado e satisfatório, a partir da saída de Tommy do exílio tudo fica acelerado. Dessa forma, nada parece ter consistência e nem convence. 

A ligação de Duke com os nazistas é rasa, não inspira segurança para nenhum dos lados, ainda mais se tratando de uma missão secreta de alta prioridade. A revolta de Duke com o pai, que a princípio parece ser a base do filme, não se explica. 


O que indicava uma rivalidade e um antagonismo íntimo entre pai e filho, simplesmente não acontece. Tudo se resolve rápido demais, sem nenhum esforço. 

Duke que ora parece ser um gângster duro e destemido, muda rapidamente. Mostra-se fraco e frágil, sem a imponência e a autoridade de um verdadeiro Shelby. 

Isso destoa muito do que é apresentado no início: um líder anarquista pronto para ajudar os nazistas, e que, de repente, passa a integrar uma missão de vingança que também visa salvar a nação. 


Tommy Shelby parte para o que parece ser sua última batalha, que também dará o desfecho ao filme e à série. São momentos que até emocionam, mas não sem forçar muito a barra. 

O roteiro é pouco consistente e apresenta situações nada críveis, difíceis de engolir. É como se tivessem escrito uma temporada inteira e depois fossem cortando partes e fazendo adaptações para tudo caber em um longa - e claro, não ficou bom. 


A série transformou Tommy Shelby em um ícone pop: um personagem temido, respeitado, admirado e amado. Uma aura que saiu das telas e conquistou uma legião de fãs pelo mundo. 

Mas, assim como outras produções, “Peaky Blinders” também não soube a hora de parar. Se estendeu demais - para dar lucro, é evidente - e acabou comprometendo sua essência. É claro que os fãs mais apegados podem fazer vista grossa a tudo isso, em nome da nostalgia e de uma  despedida satisfatória.


Ficha técnica:
Direção: Tom Harper
Roteiro: Steven Knight
Produção:Tiger Aspect Productions, BBC Films, BBC Studios
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 18 anos
País: Reino Unido
Gêneros: policial, ação, suspense

23 março 2026

“13 Dias, 13 Noites” - a fuga do Afeganistão em obra recheada de tensão

Longa é baseado na biografia de Mohamend Bida, ex-chefe de segurança da embaixada da França no Afeganistão na época da ocupação (Fotos: California Filmes)
  
 

Eduardo Jr.

 
As cenas do Talibã tomando Cabul e retirando direitos das mulheres são de 2021, mas devem estar frescas na memória de muita gente. O que pouco se viu e se fala é sobre a negociação e a retirada de franceses do Afeganistão. 

Este é o mote de “13 Dias, 13 Noites” ("13 Jours, 13 Nuits"), do diretor Martin Bourboulon ("Os Três Mosqueteiros: D'Artagnan" - 2023). Distribuído pela California Filmes, o longa estreia nos cinemas brasileiros no dia 26 de março. 


A obra é baseada no livro autobiográfico do comandante Mohamend Bida, que foi chefe de segurança da embaixada da França em território afegão na época. 

A história mostra franceses e afegãos buscando abrigo e tentando deixar o território. A missão de Bida é levar o grupo de quase 500 pessoas até o aeroporto para escaparem de uma Cabul dominada pelo Talibã.  


Sim, é um filme de guerra. Mas não se engane com as cenas em dias claros ou com a tela preenchida por cores. Por trás disso está a tensão que deixa o espectador na ponta da cadeira. 

As conversas sussurradas, os personagens que surgem e não se sabe se são de confiança… tudo é motivo para esperar o pior. 


O protagonista Bida (vivido Roschdy Zem) canaliza essa tensão, que aparentemente impacta até sua vida pessoal. Não por acaso apresenta um semblante carregado e quase nenhum sorriso. 

Ele é quem se esforça para proteger agentes ameaçados pelo Talibã, que enfrenta o perfil burocrata do embaixador e tenta garantir a sobrevivência do maior número possível de cidadãos.       


Alcançar esse objetivo demanda negociar com colegas militares, dialogar com o inimigo, enfrentar conversas que podem ser encerradas a bala, e superar traições e artifícios que podem deflagrar uma guerra entre países. 

Ação e suspense se unem ao contexto político para criar uma obra muito interessante. O longa foi indicado ao Cesar na categoria de Melhor Montagem. Mais um incentivo para ir aos cinemas e conferir a produção. 


Ficha Técnica:
Direção:
Martin Bourboulon
Roteiro: Martin Bourboulon e Alexandre Smia, com colaboração de Trân-Minh Nam
Produção: Chapter 2 e coprodução de Pathé Films e M6 Films
Distribuição: California Filmes
Duração: 1h52
Países: França e Bélgica
Gêneros: biografia, drama, ação, guerra