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28 julho 2026

Uma cinebiografia à altura para celebrar Sarah Bernhardt

Diva do cinema francês das décadas de 1910 e 1920 recebeu uma atuação sensível e vibrante da atriz
Sandrine Kiberlain (Fotos: Imovision)
 
 

Patrícia Cassese

 
Uma das maiores divas da arte da interpretação francesa ganhou, recentemente, uma cinebiografia à sua altura dirigida por Guillaume Nicloux, “A Divina Sarah Bernhardt” ("Sarah Bernhardt, La Divine") que traz Sandrine Kiberlain nas vestes da atriz falecida em março de 1923, aos 78 anos. 

Com cenas que perpassam três períodos importantes da vida da estrela, o longa centra-se principalmente em sua intempestiva paixão pelo colega de profissão Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. 

Uma observação: tanto ele quanto Sandrine são figuras conhecidas pelo público brasileiro que acompanha com atenção a cinematografia francesa contemporânea. 

Lafitte, por exemplo, está em “A Mulher Mais Rica do Mundo”, exibido recentemente, enquanto Kiberlain, em “Vizinhos Bárbaros”, de Julie Delpy, que acaba de aportar no catálogo da Netflix – e, conselho, vale muito a pena assistir.


Mas voltemos a “A Divina Sarah Bernhardt”. No curso da história, o espectador acessa os momentos de fragilidade da retratada (como a dependência doentia do amor de Julien), seu sofrimento psicológico (que a leva por várias vezes a praticar a autolesão), seu temperamento avant-garde (Sarah se relaciona com homens e mulheres e não se furta a enumerar as dezenas de amantes), seu viés feminista (aboliu o corselete e fala da ausência de mulheres dramaturgas) e, principalmente, sua sagacidade e seu fino humor. A extravagância se reflete até na escolha dos animais que habitam sua casa, casa de um lêmure ou de uma cobra.


No início, a narrativa flagra a atriz às vésperas de se submeter à amputação de uma perna. Cônscia dos ricos da cirurgia, e com todo temor advindo dessa constatação, ela se mantém afiada, fazendo piadas sobre mais uma parte do corpo perdida (já teve extraídos um rim e um pulmão).

Logo depois ao retroceder no tempo, a história trata de explicar o pedido de perdão feito a Lucien também nas cenas iniciais, assim como mostra aspectos como o modo inconsequente o qual o único filho arruína o patrimônio por ela conquistado, bem como a relação muito particular com Sacha, filho de Lucien. Detalhe: só mais adiante o público vai entender por que, na época da amputação, os dois não se falavam mais.


Com estética caprichada e interpretações convincentes, em particular, de Sandrine, “A Divina Sarah Bernhardt” comove o público, tendo também como mérito o fato de narrar pormenores da vida deste ícone francês, que, aliás, chegou a se apresentar no Brasil três vezes. (NR. - Aliás, foi em apresentação de “La Tosca”, no Rio de Janeiro, em 1905, que a atriz sofreu a queda que lesionou seu joelho de modo a anos mais tarde ser necessária a citada amputação da perna). 

Em cena, abundam referências aos ícones com os quais Sarah Bernhardt conviveu em seu tempo, caso de Émile Zola, Victor Hugo (que a presenteou com um crânio humano) e Alexandre Dumas, de quem encenou “A Dama das Camélias”.


Todas as observações levantadas até aqui já sustentam e incentivam a ida ao cinema. Para os que já conhecem a história da diva, vale ver a representação ajustada ao quilate da homenageada, enquanto para os que pouco sabem, ou mesmo os que sequer ouviram falar, uma excelente oportunidade para travar contato com essa que é conhecida como a primeira celebridade global da história, em tempos em que o mundo nem sonhava em um dia estar assim, tão conectado.

Para além do talento inato, Sarah Bernhardt é o clássico exemplo de uma mulher avant la lettre. Motivos mais que suficientes para fazê-la merecer biografias, cinebiografias e tudo o que mais houver para celebrar sua persona e contribuir para a memória da vida de pessoas tão fora da curva.


Ficha técnica:
Direção: Guillaume Nicloux
Distribuição: Imovision
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
País: França
Gêneros: drama, romance, cinebiografia

03 março 2026

“Kokuho: O Preço da Perfeição”, o longa japonês que evidencia o teatro kabuki e desperta impaciência

Filme dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado
(Fotos: Sato Company)
  
 

Eduardo Jr.

 
O sucesso deve ser reservado apenas a quem tem sangue de artista? Vocação e suor sem sobrenome famoso devem garantir o estrelato? Estas questões certamente vão ressoar na mente do público ao assistir “Kokuho: O Preço da Perfeição” ("Kokuho"), que estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de março.

Dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado, se tornou o longa japonês mais assistido da história do Japão, com mais de 12 milhões de espectadores.


A história começa em 1964, na cidade de Nagasaki, e termina 50 anos depois. No filme, tradições, laços de sangue, arte, ambição e ciúme atravessam as vidas de dois jovens. Kikuo (interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência, e Ryô Yoshizawa na fase adulta) assiste ao pai, líder de uma gangue da Yakuza, ser assassinado. 

Órfão, ele passa a viver na casa de Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), um famoso ator do teatro kabuki. Daí, junto de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho único do ator, ele decide se dedicar a essa forma de arte.


O kabuki é um teatro surgido no século XVII, após o governo japonês proibir a presença de mulheres nos palcos. Com isso, os homens passam a desempenhar papéis femininos. Interpretam aquilo que não são. Uma bela metáfora sobre um dos dilemas vivido pelo protagonista.

A jornada de Kikuo, agora rebatizado de Toichiro, traz os elementos da humilhação e da dor física em busca da excelência. Mas estes não serão os únicos problemas dele. Herdar um sobrenome de peso, enfrentar o ciúme da família, lidar com a opinião pública, abdicar de aspectos da vida em nome da arte, enfrentar a angústia de não se sentir parte daquele mundo... 

Tudo isso vai criando camadas e se colocando como dramas do personagem – e alongando a história.


“Kokuho: O Preço da Perfeição” é inteligente ao mostrar personalidades complexas, desenvolvidas como num livro. Talvez por ser uma adaptação de um romance de mesmo nome, escrito por Shuichi Yoshida. Não há maniqueísmo. 

O adotado apresenta doçura e fúria, talento e medo; enquanto o herdeiro Shunsuke traz as tintas da ingenuidade, da inveja, da amizade e do revanchismo. Ninguém é só bom ou apenas ruim.

Por outro lado, o longa faz jus ao termo que o caracteriza: é longo! É contemplativo e também cansativo. A grande quantidade de marcações de passagem de tempo deixa as quase três horas de filme ainda maiores. Contar a vida de alguém leva tempo, mas não tira do espectador a sensação de cansaço.  


Durante esse tempo, o público vai desfrutar de câmeras bem posicionadas, colocando algumas cenas como pinturas orientais. Destaque para a cena no cemitério, onde as opiniões têm lados definidos, e as apresentações de kabuki nos palcos.

O termo kokuho significa “tesouro nacional”. Se esse título de importância se refere à arte centenária do teatro ou à pessoa que abre mão de diversas coisas em nome do topo da arte, é algo que fica no ar, indefinido. Assim como o filme: morno, no meio do caminho. Vale à pena assistir, mas desperta mais impaciência do que emoção.  


Ficha técnica:
Direção: Lee Sang-il
Distribuição: Sato Company e Imovision
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h54
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gênero: drama

06 julho 2023

Comédia “O Crime é Meu” faz rir do absurdo das situações

Filme marca retorno do cineasta François Ozon ao humor (Fotos: Carole Bethuel)


Eduardo Jr.


Uma atriz sem talento e uma advogada se unem para assumir um crime e conduzir uma farsa que vai tirá-las da pobreza em que se encontram, na França dos anos 1930. 

Este pode ser um breve resumo de “O Crime é Meu” ("Mon Crime"), novo filme do cineasta francês François Ozon que estreia nesta quinta-feira (6), distribuído pela Imovision. Em BH, ele poderá ser conferido no Cineart Ponteio e no UNA Cine Belas Artes.


Mas o longa é mais do que isso. É uma comédia inteligente, que diverte e impressiona pela teatralidade na tela. Também é uma homenagem à sétima arte, com referências ao cinema mudo e situações non sense impagáveis, típicas das comédias das décadas de 1930 e 1940. E ainda se posiciona como um retorno do cineasta ao gênero do humor. 



No filme, Madeleine (Nadia Tereszkiewicz) é uma atriz à beira da miséria acusada de ter assassinado um famoso produtor de cinema. Para defendê-la em uma sociedade machista, ela conta com a amiga Pauline (Rebecca Marder), uma advogada mal-sucedida.

Prestes a serem despejadas, elas enxergam que alegar inocência é menos lucrativo, já que testemunhas recebem dinheiro para falar o que sabem. Assumir o crime pode fazer com que elas tenham os holofotes da mídia, permitindo surfar uma onda de fama. 


Qualquer semelhança com a sociedade atual, seria mera coincidência? O julgamento no tribunal se torna um espetáculo, um palco para Madeleine mostrar que pode atuar. 

E também Pauline, a advogada que aproveita seu primeiro grande caso para se posicionar como militante feminista frente a um júri composto apenas por homens. Começa ali a vida de celebridade, com uma confissão de assassinato.  


O filme é metaliguístico porque fala do próprio cinema. Além da homenagem a nomes como Billy Wilder, coloca na tela cenas com estética de cinema mudo para ilustrar o crime, trazendo a encenação pra dentro da encenação. Diálogos rápidos e absurdos fazem lembrar comédias antigas. 

Um dos melhores exemplos disso está na entrada em cena da atriz Isabelle Huppert. Ela vive Odette Chaumette, uma atriz esquecida que quer assumir o assassinato do produtor - não por uma questão de justiça, mas para ter a fama que Madeleine conquistou se dizendo assassina. 


Assim como Madeleine e Odette, outras personagens na trama são exemplos de que a verdade não importa tanto quanto as convenções, o dinheiro e o status. Neste cenário criado e mantido por homens, a predominância de um elenco feminino é outro destaque no filme. 

Ozon dá espaço às mulheres para que ampliem sua voz. Mas não se aprofunda muito em apresentar a história dessas personagens. Vide a curva da personagem Pauline, que passa pela figura da mulher que não é desejada, flerta com a homossexualidade e rapidamente é uma advogada segura e midiática. 


Mas isso é algo que pode passar despercebido, pois o filme é teatral, tem bom ritmo, mal dá tempo pra analisar esse ponto. Os diálogos preenchem os espaços, se emendam ágeis e engraçados. 

O filme, uma adaptação livre da peça francesa de 1934, "Mon Crime", de Georges Berr e Louis Verneuil, é uma comédia capaz de figurar entre as melhores do ano, mesmo que em alguns momentos pareça um deboche da espetacularização que fazemos com tudo.  


Ficha técnica:
Direção e roteiro: François Ozon
Produção: France 2 Cinéma, Playtime, Scope Pictures, Mandarin Cinéma, Foz, Gaumont
Distribuição: Imovision
Exibição: Cineart Ponteio e UNA Cine Belas Artes
Duração: 1h55
Classificação: 14 anos
País: França
Gênero: comédia dramática

28 setembro 2018

"Sem data, sem assinatura", instigante filme iraniano sobre o peso das escolhas

Produção é vencedora de dois prêmios no Festival de Veneza - seção Horizontes: Melhor Diretor e Melhor Ator para Navid Mohammadzadeh (Fotos: Damned Distribuction)

Mirtes Helena Scalioni


Parece haver um tema comum e recorrente em filmes iranianos: a ideia de que um gesto, por menor e menos insignificante que pareça, pode mudar definitivamente a vida de alguém. O peso e a responsabilidade das escolhas são reflexões predominantes também no longa "Sem data, sem assinatura" ("Bedoune Tarikh, Bedoune Emza"), do diretor e roteirista Vahid Jalivand, vencedor de dois prêmios no Festival de Veneza - seção Horizontes: Melhor Diretor e Melhor Ator para Navid Mohammadzadeh. O longa é o representante do Irã para concorrer como Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2019.

O roteiro é primoroso e a história é levada com maestria pelo diretor, que a cada virada, por menor que seja, pode estar mudando o desfecho e o destino dos personagens. O médico Kaveh Nariman (Amir Aghaei) atropela acidentalmente o motociclista Moosa (Navid Mohammadzadeh) que está com a mulher Leila (Zakieh Behbani) e dois filhos na moto, todos sem capacete. 

Kaveh desce do carro, acalma a família, conta que é médico e presta ali mesmo os primeiros socorros: examina as crianças e os adultos, pergunta por sintomas, procura fraturas e faz tudo para levar todos para um hospital próximo. O pai se recusa, mas aceita dinheiro do atropelador e promete ir ao hospital. Mas, para surpresa de Kaveh, sobe com a família na moto e toma direto o rumo de casa.

O espectador, que até aí não sabe nada sobre o trabalho do médico, só descobre algumas sequências depois que ele é um profissional do Judiciário e trabalha com autópsias, legistas, atestados, perícias. No dia seguinte, um dos corpos que chegam ao instituto é exatamente o do menino atropelado na noite anterior. Feitos os exames, fica atestado que a criança morrera por uma intoxicação alimentar, vítima de botulismo. E tudo estaria encerrado se o próprio Kaveh não duvidasse do resultado e saísse em busca da verdade, por mais que ela pudesse ser contra ele.

Eis aí a grande pegada de "Sem data, sem assinatura", que aos poucos vai deixando inquieto e até confuso o espectador, que também tem a oportunidade de conhecer mais sobre a família de Moosa e acompanhar a dor de todos pela perda do menino. O comportamento do médico, suas discussões e embates com sua colega de trabalho Sayen (Hediyeh Tehtani), e a inevitável estranheza que o mundo oriental ainda causa nos ocidentais vão embalando o público até o final - também surpreendente. Por tudo isso e muito mais, vale muito a pena ver.
Duração: 1h44
Classificação: 12 anos
Distribuição: Imovision


Tags: #SemDataSemAssinatura, #filmeiraniano, #VahidJalilvand, #drama, #FestivaldeVeneza, #NavidMohammadzadeh, #Imovision, #CinemanoEscurinho

05 setembro 2018

"As Herdeiras" aborda a agonia da elite e o amor entre duas mulheres maduras

Sem discursos, filme paraguaio é uma história sobre a decadência (Fotos: Imovision/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Que ninguém espere ação ou estímulo em "As Herdeiras", filme paraguaio do diretor estreante Marcelo Martinessi. Lento e escuro, pode-se até dizer que o longa é discreto ao contar a vida de duas mulheres maduras, que estão juntas há décadas e que, devido à crise financeira, são obrigadas a vender pratarias, cristais, obras de arte e até móveis para sobreviver. Enfim, uma história sobre a decadência.

Chiquita e Chela vivem num casarão tão antigo quanto decaído e, de cara, o espectador descobre que o casal é formado por duas mulheres completamente diferentes uma da outra. Chiquita, interpretada por Margarida Irún, é atirada, alegre, extrovertida, gosta de festas e de encontros com as amigas. 

Chela é tímida, pacata, silenciosa, observadora, papel que caiu como uma luva para Ana Brun, pelo qual já recebeu pelo menos dois troféus: O Urso de Prata, em Berlim, e o Kikito, em Gramado, ambos como Melhor Atriz. Na verdade, o público enxerga pelos olhos de Chela, que vive se esgueirando, fala pouco, não se altera, olha por meio de frestas. Nada a abala, nem mesmo a prisão de Chiquita, que vai para a cadeia por causa de dívidas com o fisco.

Dizem que a maturidade está na moda. Se isso for verdade, Martinessi começou bem. Ao falar sobre a ruína da classe média alta de Assunção e abordar o relacionamento homoafetivo entre duas mulheres que beiram os 60, o diretor, em nenhum momento, é explícito. Pelo contrário. É com muita delicadeza, sutileza, sombras e olhares que o afeto - e até a sexualidade - são apenas sugeridos. Em certo momento, quando Chela conhece a exuberante Angy (Ana Ivanova), a sedução é sombreada, cheia de subterfúgios. 

Marcelo Martinessi tem falado, em entrevistas, que seu longa é uma metáfora da agonia da elite do Paraguai, em crise como quase todos os demais países da América Latina. Essa decadência - sem perder a elegância - fica clara em algumas cenas que mostram como as moradoras do casarão estão falidas, mas fazem questão de manter a empregada e o requinte da bandeja do café da manhã com os utensílios sofisticadamente arrumados. 

Mas não há nenhum discurso ou menção à desigualdade social. "As Herdeiras" é também uma história fundamentalmente feminina. Os homens são raros e secundários e apenas as mulheres têm alguma relevância. Mas, em momento algum, o tema feminismo é tocado. Tudo, absolutamente tudo no filme é delicadamente insinuado.
Classificação: 16 anos
Duração: 1h38



Tags: #AsHerdeiras, #LasHerederas, #AnaBrun, #MargaridaIrun, #MarceloMartinessi, #drama, #Imovision, #espacoZ, #cinemas.cineart, #CinemanoEscurinho

21 julho 2018

“Uma casa à beira-mar” parte do quintal para falar do universal

Reflexões sobre família e morte fazem deste um filme melancólico e rico (Fotos: Diaphana Distribution // Agat Films & Cie/France 3 Cinema)

Mirtes Helena Scalioni


Intimista - porque trata de questões familiares - e ao mesmo tempo eloquente - porque essas questões se alargam para o conflito de gerações e, posteriormente, para o humanitário. Assim é "Uma casa à beira-mar", mais um filme francês que tem emocionado plateias mundo afora ao esbarrar no universal contando uma história de pequenos quintais. 

Originalmente, o nome do longa é "La Villa", o que resume bem a ideia do que aborda o diretor Robert Guédiguian que, sutilmente à esquerda, continua falando de utopias. Já tem gente considerando esse como - por enquanto - o filme do ano.

Maurice (Fred Ulysse) vive numa pequena e paradisíaca vila à beira-mar próxima a Marseille, onde mantém um restaurante simples e popular. Junto com ele vive o filho Armand (Gerard Meylan), que gosta da vida bucólica e parece integrado ao ambiente e à singeleza do lugar. Quando Maurice sofre um colapso e passa a ter uma vida vegetativa, juntam-se a eles Joseph (Jean-Pierre Darroussin) e Angèle (Ariane Ascaride), os irmãos que faltavam para completar a família.

Afinal, diante da situação que pode durar dias ou anos, é preciso decidir o que fazer da casa, do restaurante, da vida. É preciso dizer ainda que Joseph é um escritor angustiado em fim de carreira, que leva com ele uma namoradinha muitos anos mais jovem, Bérangére (Anais Demoustier), antenada no moderno e no contemporâneo. E Angéle, uma atriz de teatro em plena atividade, leva com ela a tragédia particular de ter perdido a filha Blanche ali mesmo na vila.

É de se supor que, juntos, os irmãos Armand, Joseph e Angèle vão reviver episódios da infância, lavar roupa suja, ajustar contas. Nesse sentido, "Uma casa à beira-mar" é saudosista e deliciosamente melancólico. Mas ainda entram na história os pequenos e sutis conflitos de gerações e de ideologias e pelo menos mais três tramas paralelas: do casal de velhos vizinhos aos cuidados do jovem e bem-sucedido filho médico, Yvan (Yann Tregouët), do pescador Benjamin (Robinson Stévenin), também jovem, que nutre desde sempre uma paixão platônica por Angèle e sua arte de representar. E, por fim, a dos militares que, de vez em quando, passam pelas casas alertando para o perigo da possível chegada de refugiados - tema mais do que atual, principalmente em se tratando da Europa.

O que alguns podem considerar como lento e arrastado no filme, pode também ser visto como metáfora. "Uma casa à beira-mar" é um filme autoral e maduro e fala do que é essencial: a convivência humana. De quebra, faz uma pequena homenagem ao teatro, lembrando trechos de Brecht e fazendo referências ao texto de "A alma boa de Setsuan" que, segundo consta, foi efetivamente encenado pela atriz Ariane Ascaride, que faz Angèle e, na vida real, é mulher do diretor Guédiguian.

Outra curiosidade: os três "irmãos" - Gerard Meylan, Jean-Pierre Darroussin e Ariane -  já trabalharam juntos antes com esse diretor em "O Fio de Ariane" (2016), "As Neves do Kilimanjaro" (2012) e "Lady Jane" (2008), o que possibilita, a certa altura, cenas deles ainda jovens ilustrando as lembranças de um deles.

Além do final - fantástico e surpreendente - há cenas antológicas em "Uma casa à beira-mar", quando, aos poucos, num momento particularmente dramático, praticamente todos os personagens vão se juntando numa varanda da casa fumando e olhando para o mar como se buscassem uma resposta, em silêncio, um sentido para a vida. Mas será que há?
Classificação: 12 anos
Duração: 1h47


Tags: #UmaCasaABeiraMar,  #LaVilla, #Imovision, #GerardMeylan, #Jean-PierreDarroussin, #ArianeAscaride, #RobertGuediguian, #drama, #CinemanoEscurinho