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05 março 2026

NÃO É NÃO – "A Noiva" surpreende ao defender os direitos das mulheres em tempos de Frankenstein

Christian Bale e Jessie Buckley entregam ótimas atuações e formam um casal que chega a ser simpático
aos olhos do público (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Maggie Gyllenhaal foi extremamente ousada ao escrever e dirigir "A Noiva" ("The Bride!), apostando forte no feminismo sem levantar bandeiras explícitas, mas deixando bem claro, nos diálogos e nas atitudes revolucionárias da protagonista, a revolta contra o desprezo, a violência e o descaso aplicados às mulheres.

Mostrando realidades que nós, mulheres, vivemos diariamente, a diretora abusa do burlesco sem ser vulgar e da violência crua envolvendo os personagens principais. Como diria o parceiro do blog, Marcos Tadeu, do @jornalistadecinema: “se 'Coringa: Delírio a Dois' (2024) tivesse seguido este caminho, seria arrasador”.


A escolha de Jessie Buckley ("A Filha Perdida" - 2021, também escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal) para interpretar a Noiva de Frankenstein foi outro grande acerto da produção. 

Ao lado dela, Christian Bale entrega uma excelente atuação e a sincronia do casal funciona muito bem. O público chega a torcer por eles, mesmo com toda a loucura da relação.

A atriz está impecável, assim como em "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", forte candidato ao Oscar 2026 de Melhor Filme. Ela também entra na disputa por uma estatueta como Melhor Atriz.


O filme começa em Chicago, na década de 1930, e acompanha a história de origem da Noiva, uma jovem assassinada ressuscitada nos mesmos moldes de Frankenstein.

Cansado da solidão, o famoso monstro procura a Dra. Euphronius (Annette Bening) para criar uma companheira para ele, saída do mundo dos mortos. Juntos, eles trazem a jovem de volta à vida, nascendo assim a criatura batizada de “A Noiva”, uma mulher revolucionária, além do seu tempo.

Numa época marcada pela violência, pela criminalidade e, especialmente, pelo desprezo às mulheres, o estranho casal vive uma paixão além do tempo — selvagem e explosiva — recheada de ação, mortes e fugas alucinantes.


Um Road movie que prende do início ao fim, sem perder a coerência. Com um fator que explica, já nos primeiros minutos de exibição, as mudanças repentinas de humor e comportamento da Noiva.

A diretora reforça sua posição de defensora feminista ao creditar à escritora Mary Shelley — autora de Frankenstein — o motivo de o filme ser protagonizado por uma mulher e reforçar tanto seus direitos. 

A protagonista usa até mesmo a frase, tão atual, “NÃO É NÃO” quando os abusos acontecem, mesmo colocando sua sobrevivência e a de seu parceiro em risco.


Não bastassem os direitos violados da Noiva, outras mulheres vivem a mesma situação, como a detetive Myrna Mallow, interpretada pela ótima Penélope Cruz. Num mundo totalmente dominado pelos homens — o da polícia —, ela precisa conviver com situações constrangedoras. 

Como ser chamada de secretária pelo colega detetive Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e ver suas ordens serem ignoradas por outros policiais, só por ser mulher.

Christian Bale entrega um Frankenstein diferente, que quer alguém para dividir a vida. Apaixonado e romântico, ele também mostra que pode deixar seu lado cruel aflorar se sua amada estiver em perigo.


E quem disse que monstro não pode ser sensível e ter bom gosto? O maior prazer de Frankie é assistir a musicais no cinema de um ator que acompanha há anos — Ronnie Reed, papel de Jake Gyllenhaal —, numa clara referência a Fred Astaire. O filme, inclusive, faz referências a outros dançarinos famosos de Hollywood na época.

“A Noiva” acerta em vários quesitos — direção, roteiro, efeitos visuais, maquiagem e cabelo, elenco excelente e trilha sonora, entregue à compositora premiada Hildur Guðnadóttir. Tem tudo para concorrer a várias premiações este ano e disputar um Oscar em 2027. 

Gostei muito do longa de Maggie Gyllenhaal. A roteirista e diretora deu um olhar diferente e mais ousado para a história da noiva de Frankenstein, já contada em várias outras produções. Vale conferir. 


Ficha técnica:
Direção: Maggie Gyllenhaal
Produção: First Love Films e In The Current Company
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, drama, terror, suspense, romance

03 março 2026

“Kokuho: O Preço da Perfeição”, o longa japonês que evidencia o teatro kabuki e desperta impaciência

Filme dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado
(Fotos: Sato Company)
  
 

Eduardo Jr.

 
O sucesso deve ser reservado apenas a quem tem sangue de artista? Vocação e suor sem sobrenome famoso devem garantir o estrelato? Estas questões certamente vão ressoar na mente do público ao assistir “Kokuho: O Preço da Perfeição” ("Kokuho"), que estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de março.

Dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado, se tornou o longa japonês mais assistido da história do Japão, com mais de 12 milhões de espectadores.


A história começa em 1964, na cidade de Nagasaki, e termina 50 anos depois. No filme, tradições, laços de sangue, arte, ambição e ciúme atravessam as vidas de dois jovens. Kikuo (interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência, e Ryô Yoshizawa na fase adulta) assiste ao pai, líder de uma gangue da Yakuza, ser assassinado. 

Órfão, ele passa a viver na casa de Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), um famoso ator do teatro kabuki. Daí, junto de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho único do ator, ele decide se dedicar a essa forma de arte.


O kabuki é um teatro surgido no século XVII, após o governo japonês proibir a presença de mulheres nos palcos. Com isso, os homens passam a desempenhar papéis femininos. Interpretam aquilo que não são. Uma bela metáfora sobre um dos dilemas vivido pelo protagonista.

A jornada de Kikuo, agora rebatizado de Toichiro, traz os elementos da humilhação e da dor física em busca da excelência. Mas estes não serão os únicos problemas dele. Herdar um sobrenome de peso, enfrentar o ciúme da família, lidar com a opinião pública, abdicar de aspectos da vida em nome da arte, enfrentar a angústia de não se sentir parte daquele mundo... 

Tudo isso vai criando camadas e se colocando como dramas do personagem – e alongando a história.


“Kokuho: O Preço da Perfeição” é inteligente ao mostrar personalidades complexas, desenvolvidas como num livro. Talvez por ser uma adaptação de um romance de mesmo nome, escrito por Shuichi Yoshida. Não há maniqueísmo. 

O adotado apresenta doçura e fúria, talento e medo; enquanto o herdeiro Shunsuke traz as tintas da ingenuidade, da inveja, da amizade e do revanchismo. Ninguém é só bom ou apenas ruim.

Por outro lado, o longa faz jus ao termo que o caracteriza: é longo! É contemplativo e também cansativo. A grande quantidade de marcações de passagem de tempo deixa as quase três horas de filme ainda maiores. Contar a vida de alguém leva tempo, mas não tira do espectador a sensação de cansaço.  


Durante esse tempo, o público vai desfrutar de câmeras bem posicionadas, colocando algumas cenas como pinturas orientais. Destaque para a cena no cemitério, onde as opiniões têm lados definidos, e as apresentações de kabuki nos palcos.

O termo kokuho significa “tesouro nacional”. Se esse título de importância se refere à arte centenária do teatro ou à pessoa que abre mão de diversas coisas em nome do topo da arte, é algo que fica no ar, indefinido. Assim como o filme: morno, no meio do caminho. Vale à pena assistir, mas desperta mais impaciência do que emoção.  


Ficha técnica:
Direção: Lee Sang-il
Distribuição: Sato Company e Imovision
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h54
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gênero: drama

24 fevereiro 2026

Breve leitura dos documentários em curta-metragem do Oscar 2026

 
 

Marcos Tadeu

 
Os indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano mostram uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas cada vez mais próxima dos problemas do mundo real. 

No lugar de histórias "somente para distrair”, os filmes escolhidos falam de situações reais, que estão acontecendo agora na vida de pessoas de verdade. Isso já diz muito sobre o momento que a premiação vive: o Oscar também é um retrato do tempo atual. Confira os concorrentes, três deles já disponíveis em streaming:

"O Diabo Não Tem Descanso" (HBO Max) entra num tema pesado sem enrolação. O curta acompanha a equipe médica que garante a segurança de mulheres que buscam o aborto. São profissionais que vivem esse conflito todos os dias e a produção mostra o cansaço, o medo e a pressão constante. 

Não é um filme para agradar todo mundo e sim para provocar. Ele joga o espectador para dentro da realidade de quem está ali, tentando sobreviver e seguir em frente em meio a decisões difíceis. A obra é a mais cotada da categoria.

Ficha técnica
Direção:
Christalyn Hampton e Geeta Gandbhir
Duração: 31 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: HBO Max
País: EUA



"Quartos Vazios" (Netflix) escolhe falar por meio do silêncio. Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos de crianças e adolescentes que morreram em ataques a escolas. O filme leva o espectador a sentir a falta dessas pessoas, mesmo sem conhecer suas histórias. Não tem choque visual, não tem discurso político direto, tem ausência, e a ausência pesa. É o tipo de obra que faz a dor parecer mais próxima, mais real, mais humana.

Ficha técnica
Direção:
Joshua Seftel
Duração: 33 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: Netflix
País: EUA


"Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud" (HBO Max) lembra que por trás de cada imagem de guerra há alguém correndo risco para contar o que está acontecendo. O  documentário é uma homenagem do diretor ao seu irmão, Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto na Guerra da Ucrânia. Ele aproxima o público da figura deste profissional e faz pensar em como consumimos essas imagens no dia a dia, muitas vezes sem lembrar do custo humano que existe por trás delas.

Ficha técnica:
Direção:
Brent Renaud e Craig Renaud
Duração: 39 minutos
Classificação: 16 anos
Exibição: HBO Max 
País: EUA


"Children No More: Were and Are Gone" retrata um grupo de ativistas israelenses pela paz que realiza vigílias silenciosas semanais em Tel Aviv. Numa resistência silenciosa, eles seguram fotos de crianças palestinas mortas em Gaza. A produção foca nas reações no público às manifestações: indiferença, tristeza, negação e até violência contra as ativistas. Ainda não está disponível em streaming no Brasil.

Ficha técnica
Direção:
Hilla Medalia
Duração: 36 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: a sociedade israelense


"Perfectly a Strangeness" - ambientado no deserto do Atacama, no Chile, o curta mostra a percepção do universo através da visão de três burros que descobrem um observatório astronômico abandonado. O filme explora o visual, mas se arrasta, mesmo com seus 15 minutos de duração. A abordagem é mais filosófica e intelectual, com longos silêncios, o que pode não agradar ao público em geral.

Ficha técnica
Direção e roteiro: Alison McAlpine
Duração: 15 minutos
Classificação: não informada
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: Canadá


Essa seleção mostra que a categoria de documentário de curta-metragem no Oscar se mantém como o espaço onde o cinema encara o mundo sem tanto filtro. São filmes que não querem só entreter: querem fazer sentir, pensar e, em alguns casos, até incomodar. 

A cerimônia do Oscar acontece dia 15 de março, em Los Angeles. Acompanhe com o Cinema no Escurinho.


17 fevereiro 2026

"Uma Batalha Após a Outra" escancara o patriotismo, o delírio e as feridas da imigração na América

Leonardo DiCaprio protagoniza um libertador acidental que tenta reacender a esperança em meio ao
colapso de seu país (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Com 13 indicações ao Oscar 2026, nove indicações ao Globo de Ouro e 14 ao Critics Choice Awards está em exibição na HBO Max um dos lançamentos mais aclamados do ano: "Uma Batalha Após a Outra" ("One Battle After Another"). 

A produção foi lançada na plataforma como parte do selo Do Cine pra HBO Max, responsável por levar as principais estreias do cinema para o streaming.

O novo filme de Paul Thomas Anderson, estrelado por Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Regina Hall, Teyana Taylor, Sean Penn, Alana Haim e Chase Infiniti, é uma mistura explosiva de ação, sátira política e drama social.


Na trama, Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma revolucionária intensa, desaparece logo após dar à luz, deixando o companheiro Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) responsável por criar a filha, Willa (Chase Infiniti). 

Anos depois, o temido Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn) ressurge em busca de vingança e coloca pai e filha na mira.

Os dois são forçados a fugir, enfrentar verdades que sempre evitaram e aprender a confiar um no outro. Com a ajuda do misterioso Sensei Sérgio (Benicio Del Toro), embarcam em uma jornada que mistura adrenalina, conflitos sociais e um país prestes a desabar.


A obra mergulha de cabeça nas contradições dos Estados Unidos, esse lugar que se vende como “terra das oportunidades”, mas onde imigrantes vivem presos entre esperança e medo. 

Anderson transforma isso em narrativa: ali, ser imigrante é lutar duas vezes contra as dificuldades da vida e contra o preconceito de quem acredita que só “o americano de verdade” merece espaço. 

DiCaprio encarna um libertador acidental, alguém que tenta reacender a esperança em meio ao colapso. A ideia de revolução aparece como um grito contido, nascido do cansaço de quem percebe que o país só funciona para poucos.


O elenco brilha, especialmente na química entre DiCaprio e Chase Infiniti, que entregam momentos de pura sintonia. O ator vive um personagem dúbio, que oscila entre lucidez e loucura e é justamente nesse desequilíbrio que o filme encontra força. 

Ele brinca com o absurdo, faz piadas sobre o caos ao redor e, ao mesmo tempo, revela um homem movido por propósito. Teyana Taylor, Chase Infiniti e Regina Hall (Deandra) se destacam igualmente, sustentando a narrativa com intensidade e carisma.


No meio desse circo político, DiCaprio surge como o único que parece entender o tamanho da farsa. Enquanto os poderosos se vestem de generais e transformam o país numa caricatura, ele atravessa o caos com aquele olhar cansado de quem já entendeu que nada faz sentido. 

Seu personagem vira o guia involuntário do espectador, tenta ajudar, organizar, salvar, mas tudo ao redor é tão absurdo que sua lucidez vira quase cômica. Ele representa o americano que vê o sistema desmoronar, consciente demais para acreditar nas mentiras e cansado demais para ainda lutar contra elas.


Sean Penn, como o Coronel Lockjaw, é o retrato vivo do extremismo: um homem que acredita tanto na própria virilidade e patriotismo que não enxerga o vazio por trás disso. É uma mistura perigosa de insegurança, grosseria e ignorância vendida como coragem.  

O personagem expõe a base do preconceito e a incapacidade de lidar com a própria fragilidade. Ele é o símbolo da América que defende seus ideais com unhas e dentes, mesmo que isso signifique destruir tudo em nome deles.


O principal problema está no ritmo: há momentos que disparam e outros que se arrastam, especialmente quando o longa tenta equilibrar ação com discurso político. A crítica aos supremacistas brancos, embora necessária e poderosa, às vezes soa repetitiva e excessivamente explicativa, perdendo a sutileza que Anderson domina tão bem.

Mesmo assim, “Uma Batalha Após a Outra” é um dos filmes mais provocativos de 2025, uma obra para ver e rever, cada vez descobrindo novas camadas. 

Anderson entrega um retrato ácido e hilário da América contemporânea, cheia de contradições, egos e delírios. Um espelho incômodo de um país que insiste em lutar contra os próprios fantasmas.


Ficha técnica:
Direção: Paul Thomas Anderson
Produção: Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: HBO Max
Duração: 2h42
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama, ação

07 fevereiro 2026

"Sonhos de Trem": a fotografia encanta, mas o conflito não chega

Longa dirigido por Clint Bentley se ancora em uma abordagem existencial que privilegia como elementos centrais o silêncio, a contemplação e o tempo (Fotos: Netflix)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
"Sonhos de Trem" ("Train Dreams") é um filme visualmente belo, sensível e cuidadosamente construído, mas que encontra dificuldades em sustentar dramaticamente sua própria proposta. 

Concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Fotografia, esta última assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, o longa dirigido por Clint Bentley e exibido na Netflix, se ancora em uma abordagem existencial que privilegia o silêncio, a contemplação e o tempo como elementos centrais da narrativa.

A famosa frase “ser ou não ser, eis a questão” resume bem os conflitos internos que atravessam o filme. Aqui, a dúvida não se manifesta em grandes diálogos ou decisões explícitas, mas na maneira como o protagonista ocupa o mundo. 


A trama acompanha Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton, um trabalhador ferroviário que, no início do século XX, tenta levar uma vida simples como lenhador em meio às rápidas transformações dos Estados Unidos. 

Ao longo do caminho, Robert vivencia o amor, a perda e a solidão, construindo uma existência marcada pela resistência silenciosa e pelas marcas deixadas pelo tempo. Edgerton sustenta o filme com uma atuação contida e introspectiva, baseada mais em gestos e silêncios do que em palavras.


A fotografia de Adolpho Veloso é o grande destaque do longa. Seu olhar contemplativo transforma paisagens naturais, relações de trabalho, a vida familiar e pequenos acontecimentos cotidianos em imagens de forte carga simbólica. Cada enquadramento convida o espectador à observação e à reflexão, reforçando o caráter introspectivo da obra.

No entanto, é justamente nessa aposta radical na contemplação que o filme encontra seu principal problema. O ritmo extremamente lento, quase hipnótico, como o movimento constante de um trem, pode afastar parte do público. 


O elenco de apoio reforça a atmosfera melancólica, ainda que seja pouco explorado dramaticamente. Felicity Jones, como Gladys Grainier, traz delicadeza e humanidade à relação afetiva do protagonista, enquanto Kerry Condon adiciona nuances emocionais importantes nos encontros que pontuam a jornada de Robert. 

William H. Macy e Clifton Collins Jr. surgem como figuras que ajudam a contextualizar o ambiente de trabalho e as relações sociais da época, mas seus personagens acabam funcionando mais como presença simbólica do que como agentes de transformação narrativa.

Tecnicamente, o filme apresenta qualidades inegáveis. A trilha sonora de Bryce Dessner desempenha papel fundamental ao desenhar o estado emocional do protagonista, alternando entre tons intimistas e momentos mais amplos, quase épicos, sem romper a delicadeza do conjunto. 


A narrativa carece de conflitos mais consistentes e de acontecimentos que provoquem mudanças significativas no protagonista. Há situações específicas que poderiam funcionar como pontos de virada, mas elas não são plenamente desenvolvidas. 

Da mesma forma, os personagens ao redor de Robert Grainier não recebem aprofundamento suficiente para ampliar o impacto emocional da história.

Temas como luto, solidão, reflexão e o aprendizado de viver conduzem a narrativa e conferem ao filme uma melancolia constante. Essa força temática transforma "Sonhos de Trem" em uma experiência sensível e, em muitos momentos, tocante. Ainda assim, ao final, permanece a sensação de que falta algo. 


A conclusão, embora coerente com o tom existencial proposto, soa mais triste do que transformadora, deixando a impressão de uma jornada que observa muito, mas se arrisca pouco dramaticamente.

Em síntese, "Sonhos de Trem" é um drama de época elegante e tecnicamente refinado, que se destaca pela fotografia, pela trilha sonora e pelas atuações contidas de seu elenco, liderado por Joel Edgerton. 

Ao mesmo tempo, tropeça na ausência de conflitos mais claros e em um desenvolvimento narrativo limitado. É um filme que convida à contemplação e à introspecção, mas pode frustrar quem busca maior densidade dramática ou uma evolução mais marcante de seus personagens. 

Bonito, sensível e silencioso, o longa permanece mais como uma experiência estética do que como uma narrativa plenamente envolvente.


Ficha técnica:
Direção: Clint Bentley
Exibição: Netflix
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gênero: drama

22 janeiro 2026

Deu Brasil cinco vezes indicado ao Oscar 2026

(Crédito: CinemaScopio Produções)
 
 

Maristela Bretas


"O Agente Secreto" faz história novamente ao receber quatro indicações ao Oscar 2026. O filme brasileiro vai disputar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura, e Melhor Direção de Elenco. 

Depois de faturar o Globo de Ouro como Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e Melhor Ator, o longa dirigido por Kleber Mendonça Filho se equipara a "Cidade de Deus", que também recebeu este número em 2004.

A quinta indicação de um brasileiro foi para Adolpho Veloso como Melhor Fotografia por seu trabalho em "Sonhos de Trem", produzido pela Netflix. Ele já havia sido premiado como Melhor Diretor de Fotografia na Los Angeles Film Critics Association, em 2025, e no Critics Choice Awards 2026 por esta produção, que é concorrente de "O Agente Secreto" na categoria de Melhor Filme.


Os demais indicados ao Oscar deste ano são "Pecadores", com direção de Ryan Coogler, que recebeu 16 indicações, batendo recorde do Oscar: Melhor Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Fotografia, Efeitos Visuais, Som, Montagem, Direção de Arte, Canção Original, Figurino, Direção de Elenco, Roteiro Original, Trilha Sonora Original e Maquiagem e Cabelo.

Na sequência, o filme dirigido por Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra, teve 13 indicações. "Frankenstein", "Marty Supreme" e "Valor Sentimental" tiveram nove cada, e "Hamnet" - A Vida Antes de Hamlet", indicado em oito categorias.


A cerimônia de entrega da 98ª edição do Oscar será realizada no dia 15 de março, em Los Angeles (EUA).

08 setembro 2025

Sai a lista dos seis filmes brasileiros que vão disputar vaga no Oscar

Fotos: Divulgação
 
 

Agência Brasil

 
A Academia Brasileira de Cinema divulgou nesta segunda-feira (8) a lista dos seis filmes finalistas para a vaga de representante do Brasil ao Oscar 2026. 

A reunião final para a escolha do filme brasileiro que vai tentar uma vaga à categoria de Melhor Filme Internacional da premiação acontece no dia 15 de setembro.

Conheça os finalistas:
- "O Agente Secreto", de Kléber de Mendonça Filho;
- "O Último Azul", de Gabriel Mascaro;
- "Baby", de Marcelo Caetano;
- "Kasa Branca", de Luciano Vidigal;
- "Manas", de Marianna Brennand
- "Oeste Outra Vez", de Erico Rassi.

Os filmes foram escolhidos a partir de uma pré-lista de 16 filmes, que havia sido divulgada pela Academia Brasileira de Cinema há cerca de um mês.

A cerimônia que entregará as estatuetas do Oscar está marcada para o dia 15 de março de 2026, em Los Angeles.