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16 abril 2026

"O Estrangeiro": Ozon coloca seu talento a serviço de um cânone da literatura

Benjamin Voisin interpreta o francês Meursault, um jovem que não demonstra sentimentos nem com a
morte da mãe (Fotos: California Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Publicado em 1942, “O Estrangeiro” ("L'Étranger), do franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960), não tardou a entrar para o panteão dos clássicos, conquistando mais e mais leitores no curso do tempo, mundo afora. 

Previsivelmente, não tardou a ser adaptado para o teatro e para o cinema – no último caso, por Luchino Visconti, em 1967, com Marcello Mastroianni como protagonista. 

A mais recente versão para a sétima arte desta obra, desta vez, dirigida pelo francês François Ozon, está em cartaz no Una Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Lembrando  que, ano passado, o título foi exibido em algumas sessões em BH dentro do Festival de Cinema Francês (antigo Varilux). 


Agora, Meursault é vivido pelo ótimo Benjamin Voisin, de “Ilusões Perdidas”. O jovem ator, vamos lembrar, teve seu primeiro papel de destaque no cinema pelas mãos do mesmo Ozon, no tocante “Verão de 85”. 

Logo no início da trama de “O Estrangeiro”, o personagem central, funcionário de um escritório em Argel (então ainda colônia da França), recebe a notícia do falecimento da mãe, que vivia em um asilo em Marengo, a 80 quilômetros da capital. 

Ao contrário do comportamento esperado pela sociedade em situações afins, Meursault não deixa transparecer laivos de inconformismo diante do anúncio. Sequer uma vaga tristeza. Ao contrário, mantém a fleuma e a apatia características de sua personalidade, declinando inclusive da oferta de que o caixão fosse aberto, para que pudesse ver, pela última vez, a genitora.


Em uma sociedade na qual a dor de perder um ente querido é majoritariamente validada por rituais que incluem lágrimas, soluços e manifestações vívidas de inconformismo, a impassibilidade de Meursault chama a atenção dos companheiros de moradia da falecida. 

Mais tarde, a indiferença do único filho da sexagenária volta à baila quando Meursault já está no banco dos réus, após assassinar um rapaz árabe a cinco tiros, sendo quatro disparados quando a vítima já estava sem vida.

O episódio que muda irreversivelmente a vida de Meursault, como quem leu o livro bem se recorda, se dá num dia de muito calor em que, a convite de um vizinho, o comerciante Raymond (Pierre Lottin), o protagonista vai à praia com a namorada, Marie (Rebecca Marder). 

O rapaz árabe, por sua vez, é irmão da amante de Raymond, uma moça a quem ele recentemente espancara. Portanto, aparece no balneário, junto a amigos, em tom de intimidação e possível vingança ao agressor. 


No momento que precede o crime, porém, os rapazes já tinham inclusive se distanciado do ponto da praia onde Raymond, Meursault e companhia estavam. Ocorre que, subitamente, sem um propósito explicitado, Meursault deixa o grupo para, sozinho, dar uma nova caminhada. É quando, metros adiante, ainda na praia, volta a encontrar o hercúleo rapaz, desta vez já sozinho. É quando, sob o brilho do sol inclemente, o crime acontece.

Com sua agudeza particular, François Ozon não deixa de explorar o racismo contra os árabes, em falas como a do advogado de Meursault (diga-se, escolhido à revelia do personagem, já que, por ele, nem teria defesa), que cita o fato de que vários franceses foram anteriormente absolvidos por matar locais, comprovando, assim, uma dinâmica de povos subjugados. 

O julgamento do personagem central - que mantém a letargia característica em seu curso, quase como se fosse um espectador do processo, e não o homem sentado no banco dos réus - assume, claro, a metade final da narrativa.


Cumpre dizer que, nesta transposição, Ozon mantém-se bem fiel à obra de Camus, ainda que insira uma licença poética que não vai passar despercebida aos que trazem frescos na memória detalhes da icônica obra. 

Trata-se de um momento fugaz em que Meursault lança um olhar fixo ao corpo delineado do rapaz árabe, em particular, à axila do mesmo, o que sutilmente sugere que houve outro motivo para que descarregasse o cartucho no garoto.

Com apenas 29 anos, Benjamin Voisin já mostrou várias vezes a que veio, com um talento que lhe permite dar corpo a personagens densos, de vieses distintos, mas que muito exigem da interpretação. Aqui, surge perfeito como Meursault, um atento e interessado observador do comportamento humano, mas que, apático até a medula, não busca interferir no rumo dos acontecimentos, limitando-se a aceitar o fluxo da vida com resignação e mesmo certo abatimento. 


A opção pelo preto & branco mostra-se perfeitamente acertada, gerando imagens em que os contrastes de luz e sombra criam quadros belíssimos. Talvez um pequeno reparo possa ser feito em relação à percepção de que o calor descrito com tanto detalhamento e intensidade no livro de Camus (como nas frases “havia já duas horas que o dia deitara sua âncora neste oceano de metal fervente “ou “a ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se nas minhas sobrancelhas”) não apareça na tela de modo mais demarcado, o que poderia ser alcançado, por exemplo, com o efeito de roupas empapadas ou suor escorrendo pelo rosto dos personagens.

Nada, porém, que interfira no deleite de ver um clássico de volta ao cinema com a condução de um expoente como Ozon, e com elenco tão empenhado. Portanto, vá ao cinema – e, se possível, aproveite para ler ou reler o livro.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro: François Ozon
Distribuição: California Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 2h02
Classificação: 16 anos
Países: França, Bélgica e Marrocos
Gêneros: drama, crime

16 janeiro 2018

Jackie Chan deixa o lado cômico para viver um pai em busca de justiça em "O Estrangeiro"

Intrigas, suspense e muita ação nesta produção chino-britânica ambientada em Londres e na Irlanda do Norte (Fotos: Universum Film GmbH/Divulgação)

Maristela Bretas


Um Jackie Chan de poucas palavras e muita ação, sem o lado cômico que marcou boa parte de sua carreira em Hollywood, inclusive nas dublagens de animações. Nem por isso perdeu o pique e ainda protagoniza as cenas de luta, não tão brutais e cheias de malabarismos como de alguns de seus antigos filmes. Até pela idade do ator, 63 anos. 

Em "O Estrangeiro" ("The Foreigner"), que também ajudou a produzir, Chan não dispensa uma boa quebradeira por onde passa, usando o que tiver na frente contra o inimigo - mesas, cadeiras, abajures e pedaços de pau. Desta vez, talvez para cansar menos, contou até com a "ajuda" de uma metralhadora e nitroglicerina para dar um clima diferente, mais explosivo.


Ele divide a atenção do público com o sempre charmoso ex-James Bond, Pierce Brosnan ("Horas de Desespero" - 2015), este sim, falando muito mais que a estrela principal e sem perder a pose de espião britânico. "O Estrangeiro", não foge dos clichês, reforça velhas diferenças entre o Exército Republicano Irlandês (IRA) e o governo britânico e tem poucas mas boas locações, principalmente em Londres e Belfast. No elenco se destacam também Orla Brady Charlie Murphy e Katie Leung.

Dirigido por Martin Campbell (o mesmo de "Cassino Royale"), o longa-metragem fica no meio termo - é um filme de ação, mas se perde no suspense, uma vez que muitas cenas são bem previsíveis. Jackie Chan faz um personagem sem expressão facial, até mesmo quando conversa com a filha no carro. E este lado sombrio (e justificável pela própria história) é mantido durante todo o filme, variando momentos de ódio, violência e dor. Nem parece o ator simpático de comédias como "A Hora do Rush", Mostrou que também é capaz de interpretar papéis sérios e entregar um trabalho bom.

"O Estrangeiro" é baseado no livro "The Chinaman", de Stephen Leather, com roteiro escrito por David Marconi, o mesmo de "Duro de Matar 4.0". Conta a história de Quan (Chan), dono de um restaurante chinês em Londres que cria sozinho a única filha. Um atentado a bomba tira a vida da jovem e o pai vai atrás das autoridades para cobrar que prendam os responsáveis. 

Como as investigações dependem de negociações políticas por ser um atentado terrorista, Quan resolve fazer sua própria caçada, indo atrás inclusive do vice-primeiro-ministro irlandês Liam Hennessy (Brosnan) para obter informações. E mostra a seus inimigos que ele é mais que um simples comerciante.

Como sessão da tarde passa e mostra que Jackie Chan ainda tem muito fôlego, mesmo lutando menos. Ele e Brosnan fazem uma boa dupla em lados opostos, o que ajuda a manter o ritmo do filme. Vale conferir para quem gosta de ação.



Ficha técnica:
Direção: Martin Campbell
Produção:  STX Films / H. Brothers /Wanda Pictures
Distribuição: Diamond Films
Duração: 1h54
Gêneros: Ação / Suspense
Países: Reino Unido / China
Classificação: 14 anos
Nota: 3 (0 a 5)

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