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26 setembro 2026

"Virtuosas": quando o controle aprende a falar de liberdade

Longa leva para as telonas um retiro VIP que promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor
versão (Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema 

 
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. 

Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras. 

O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação. 


A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.

É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.


A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes. 

A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?

O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.


As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.

É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.


O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos. 

Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.

A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador. 


Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.

Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.

E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.


O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.

O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.


Ficha técnica:
Direção:
Cíntia Domit Bittar
Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h26
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: Suspense, ficção, terror

25 fevereiro 2026

"A Miss" lança um olhar atual sobre o universo dos concursos de beleza

Dois gêmeos, dois desejos diferentes e uma mãe controladora que vive em função da imagem
(Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
"A Miss", primeiro longa-metragem da carreira do também dramaturgo e roteirista fluminense (nascido em São Gonçalo) Daniel Porto, cita, em seu título, um tema cuja abordagem serve de gancho para tratar assuntos na ordem do dia, como as questões de gênero. 

Passado no bairro carioca do Grajaú, o filme flagra uma família formada por Iêda (Helga Nemetik), uma mãe solo, endurecida pela vida, e seus dois filhos gêmeos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), então com 17 anos. 


Na juventude, Iêda (o nome certamente é uma alusão a Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o Miss Universo, em 1963, e falecida ano passado) participou, por influência da mãe, de concursos de beleza, o que, conscientemente ou não, a fez desejar que a filha (cujo nome faz referência a ícones como Martha Vasconcellos e Martha Rocha) siga o mesmo caminho. 

Ocorre que a adolescente não quer menos que maior distância possível desse mundo no qual a individualidade é solapada por ditames anacrônicos aos tempos atuais, como a magreza excessiva. Quem não se lembra da lenda das célebres duas polegadas a mais de Martha Rocha, que por anos pautou o imaginário do país? 


E é aí que entra em cena a solução inesperada para o impasse: em "A Miss", enquanto Martha tem repúdio por um mundo no qual a alimentação tem que ser regrada e a postura, perfeita, lapidada por caminhadas com livros sobre a cabeça; o personagem de Alan passa a externar seu fascínio por tudo o que cerca o universo do glamour feminino. 

E, assim, com o apoio de Athena (Alexandre Lino), que divide com Iêda a condução de um salão de beleza de bairro, Alan parte para encarar a etapa que vai escolher a representante do Grajaú rumo ao momento seguinte - a eleição da miss Rio de Janeiro. Uma artimanha que, diga-se de passagem, até dado momento, se desenrola sem conhecimento da mãe.


Apresentado, no material de divulgação enviado à imprensa, como uma "dramédia contemporânea que propõe um olhar sensível e bem-humorado sobre as relações familiares e a liberdade de ser quem se é", "A Miss" traz boas surpresas, como a voz (e a participação) da cantora Ellen de Lima, defendendo "A Canção das Misses", assim como um elenco visivelmente comprometido. 

No entanto, ao fim, fica a impressão de que a questão da identidade de Alan poderia ter sido mais trabalhada dentro da trama, dada a atualidade do tema. 

Outro ponto é que alguns momentos de intenção cômica não são efetivamente tão engraçados assim, portanto, poderiam ter sido limados na edição final, sem prejuízo da proposta como um todo - caso da ingestão de remédios para controlar a ansiedade ou da cena da ponta acesa de um cigarro.


Festivais

Em tempo: o material de apresentação do filme informa, ainda, que, antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, "A Miss" foi exibido no Actrum International Film Festival (Espanha) e no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ (Itália). 

Também integra a programação do 39º Queergestreift Film Festival Konstanz (Alemanha). O roteiro de "A Miss" foi desenvolvido no laboratório francês do Festival Varilux de Cinema Francês. A distribuição é da Olhar Filmes.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Porto
Distribuição: Olhar Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, comédia