06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 1: “Hamnet” e “Valor Sentimental"



Carol Cassese


A temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam pelo menos quatro filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional, articulando experiências familiares a processos de reconstrução subjetiva. 

O assunto será abordado em duas postagens. Enquanto este post será centrado em "Hamnet" e "Valor Sentimental", o segundo traz breves análises dos longas "Vida Privada" e "Miroirs No. 3".

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", que estreou nos cinemas estadunidenses em 5 de dezembro e chega às salas brasileiras em 15 de janeiro, é um exemplo notável do tema. 


Dirigido por Chloé Zhao (“Nomadland” - 2021) e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, a produção reflete sobre como a ficcionalização pode ser um mecanismo de enfrentamento ao luto. 

O filme dialoga diretamente com a vida de William Shakespeare e com o modo como sua experiência de perda teria ressoado na criação de Hamlet (sabe-se que Hamnet Shakespeare, filho do dramaturgo, faleceu aos 11 anos).

"Hamnet" estreou no Telluride Film Festival, em agosto de 2025. Posteriormente, a produção foi exibida no Toronto International Film Festival, onde venceu o People’s Choice Award, um dos principais prêmios de público da temporada. 


Em dezembro, o filme integrou a programação de eventos especiais do Main Cinema, em Minneapolis (Estados Unidos), onde tive a oportunidade de acompanhar um debate após a sessão com Katherine Scheil, autora de "Imagining Shakespeare’s Wife: The Afterlife of Anne Hathaway" (vale ressaltar que a sala de cinema estava lotada, em uma manhã de sábado com temperatura de –10 °C). 

A discussão abordou o apagamento histórico de figuras femininas ao longo dos séculos e também evocou a curiosa coincidência em torno do nome Anne Hathaway, esposa de William Shakespeare e homônima da conhecida atriz hollywoodiana. 

Vale notar que, no século XVI, os nomes Hamnet e Hamlet eram usados de maneira intercambiável, o que reforça a proximidade simbólica entre a experiência biográfica do dramaturgo e sua criação literária.


Além da forte recepção no circuito de festivais, a produção protagonizada por Jessie Buckley e Paul Mescal já aparece entre os títulos mais comentados do circuito de premiações, sendo frequentemente mencionado em projeções para grandes disputas. 

A atuação de Buckley, que recentemente levou o prêmio de Melhor Atriz no Critics Choice Awards, e o trabalho de Zhao vêm sendo apontados como destaques relevantes da temporada. 

Ao se inscrever no campo da ficção histórica, a adaptação do livro de O'Farrell propõe uma reflexão sobre a recriação do passado e a mescla entre fatos, imaginação e elaboração estética. 

Dessa maneira, Hamnet se alinha a uma tendência crescente no cinema e na literatura contemporânea, em que narrativas históricas são revisitadas a partir de perspectivas criativas.


VALOR SENTIMENTAL

Também em destaque na temporada de premiações, "Valor Sentimental" (ainda em circulação nos cinemas brasileiros), obra do diretor norueguês Joachim Trier, é centrada no retorno de um pai, cuja presença reabre feridas ligadas à memória familiar. 

Assim como ocorre em "Hamnet", o filme propõe reflexões sobre o retrato ficcional de acontecimentos trágicos, mostrando como a recriação de experiências difíceis pode, de maneira complexa e não linear, auxiliar na elaboração de traumas.


Como mencionamos na introdução, o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que assinou produções como "Oslo, 31 de Agosto" (2011) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), é centrado nos efeitos conturbados de um reencontro familiar. 

Mais especificamente, a narrativa acompanha um cineasta, interpretado por Stellan Skarsgård, e suas duas filhas, vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, em meio a tensões ligadas à memória e a feridas que permanecem abertas. 


Nesse contexto, o filme introduz ainda a personagem de Elle Fanning, uma atriz americana convidada a interpretar ficcionalmente episódios dolorosos da história da família – gesto que desloca a experiência do trauma para o campo da representação. 

Aqui, é interessante pensar como a presença da personagem de Fanning opera também como uma alusão a um processo enfrentado por muitos diretores da cena independente: a passagem por um crivo hollywoodiano, seja em termos de reconhecimento crítico ou validação dentro de um mercado desigual. 

Bastante aclamado pela crítica, o longa estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Grand Prix (Grande Prêmio do Júri). 


03 janeiro 2026

"Anaconda" - Selton Mello rouba a cena nesta comédia em plena selva amazônica

Jack Black, Paul Rudd e seus amigos tentam fazer o remake de um sucesso do passado sobre uma
cobra gigante que ataca uma equipe de filmagem (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Em cartaz nos cinemas, "Anaconda" surge como uma comédia escancaradamente absurda que entende perfeitamente o próprio ridículo — e faz disso sua maior virtude. Protagonizado por Jack Black, Paul Rudd e Selton Mello, o filme aposta na paródia, no humor e em referências pop para garantir boas risadas do início ao fim.

O grande destaque, sem dúvida, é Selton Mello. No papel do domador de cobras Carlos Santiago, o ator brasileiro rouba a cena sempre que aparece. Seu personagem carrega um jeitão que remete ao Chicó de "O Auto da Compadecida" (2000 e 2024), mas sem o medo crônico que marcou aquele papel. 


Aqui, Selton entrega falas e expressões tipicamente brasileiras, com um timing cômico afiadíssimo, sem dever nada a Jack Black ou Paul Rudd. A química entre os três funciona de forma surpreendentemente natural e é um dos pilares do filme.

Há momentos tão ridículos que ultrapassam o limite do bom senso — e é justamente aí que o humor acerta. As piadas são atuais, repletas de comentários metalinguísticos bem sacados, e não têm receio de zombar do próprio cinema, da indústria e até da produtora e distribuidora Sony Pictures. 

O diretor assume o tom de paródia do início ao fim, transformando o filme em uma sátira consciente do original.


Este remake também reserva surpresas para quem conhece ou, como eu, gosta de produções trashs absurdas com animais perigosos, como o "Anaconda" de 1997, que foi muito criticada à época, mas que diverte justamente pelo exagero e tem público cativo. 

Na época, o elenco contava com Jennifer Lopez, Ice Cube, Jon Voight, Eric Stoltz, Jonathan Hyde e Owen Wilson, e a trama também se passava na Amazônia, envolvendo uma equipe de documentaristas perseguida por uma cobra gigante. 

Classificado como terror, o filme sempre flertou com o lado cômico por conta de seu absurdo — algo que o novo "Anaconda" assume sem vergonha alguma.


Na versão atual, acompanhamos Griff (Paul Rudd), um ator de meia-idade em crise e desempregado, e Doug (Jack Black), um cineasta frustrado por ter sua carreira resumida a vídeos de casamento. 

Amigos de infância, eles decidem realizar um antigo sonho: viajar até a selva amazônica para produzir um reboot independente de seu filme favorito, "Anaconda".

Para a empreitada, contam com a ajuda de Carlos Santiago e Heitor, sua cobra “domesticada” (parece piada pronta), além da atriz Claire Simons (Thandiwe Newton), recém-saída de um divórcio, e do cinegrafista Kenny Trent (Steve Zahn), que não dispensa “umas biritas” turbinadas. 

Tudo corre bem até que uma anaconda gigante resolve entrar em cena, ao mesmo tempo em que o grupo acaba envolvido em uma perseguição policial a garimpeiros ilegais de ouro.


Curiosamente, apesar do título, a cobra aparece pouco. O protagonismo fica mesmo com o elenco humano, enquanto a anaconda funciona quase como um elemento catalisador do caos. 

O filme também se diverte citando com cenas que remetem a clássicos do cinema de aventura e ação, como a franquia "Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros" (1993), quando a cobra gigante persegue o grupo e é acompanhada pelo retrovisor do carro.

Ou "Tubarão" (1975), quando ela circunda o barco da equipe no rio. Até mesmo a cena de Jack Black engolido por uma cobra gigante em "Jumanji - Próxima Fase" (2019) é lembrada. 


"Anaconda" é, acima de tudo, uma produção leve e despretensiosa, que entende seu lugar como entretenimento. Jack Black e Paul Rudd sustentam bem o humor, mas é Selton Mello quem dá um charme especial à narrativa, funcionando como uma âncora cômica e cultural. 

Não é um filme para ser levado a sério — e nem quer ser. Vale a pena justamente por isso: uma diversão honesta, autoconsciente e eficaz para quem busca boas risadas no cinema.


Ficha técnica:
Direção:
Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican e Kevin Etten
Produção e Distribuição: Sony Pictures
Duração: 1h40
Exibição: nos cinemas
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, ação, aventura