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06 julho 2026

"Mestres do Universo" - "Pelos poderes de Grayskull... Eu tenho a força!"

He-Man devolve a infância aos fãs, mas também prova que nostalgia sozinha não sustenta um reino,
ainda mais Eternia (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Robhson Abreu
Parceiro do Jornal de Belô e Revista PQN

 
Muito antes de os super-heróis dominarem as plataformas de streaming e as bilheterias do cinema, um guerreiro de cabelos loiros, espada em punho e força sobre-humana já mobilizava milhões de crianças brasileiras diante da televisão. 

Exibido diariamente no "Xou da Xuxa", na segunda metade da década de 1980, He-Man e os Mestres do Universo transformou-se em um dos maiores fenômenos de audiência da programação infantil brasileira. 

O sucesso foi tão avassalador que ultrapassou as telas, impulsionou a venda de brinquedos, álbuns de figurinhas e inspirou uma canção gravada pelo grupo infantil Trem da Alegria que, até hoje, permanece viva na memória afetiva de quem cresceu naquela época.

He-Man, o guardião musculoso e bronzeado de Eternia, já ocupava um lugar privilegiado no imaginário de uma geração que transformou o príncipe Adam, o Castelo de Grayskull, Mentor, Teela, a Feiticeira e o temido Esqueleto e sua gangue em personagens inesquecíveis. 

He-Man, série animada de TV (Reprodução)

Quase quatro décadas depois, essa mesma geração, hoje formada por homens e mulheres acima dos 50 anos, volta a encontrar seus heróis nas telonas com o aguardado live-action de "Mestres do Universo" ("Masters of the Universe"), em cartaz nos cinemas da rede Cineart.

Reviver um clássico da cultura pop nunca é tarefa simples. A memória afetiva costuma ser implacável com qualquer adaptação. O diretor Travis Knight ("Bumblebee", 2018) demonstra desde a primeira sequência que conhece o peso dessa responsabilidade. 

Em vez de apostar apenas no apelo nostálgico, constrói uma aventura que respeita o legado da animação e, ao mesmo tempo, entrega um espetáculo visual compatível com as grandes produções contemporâneas. 

Eternia finalmente ganha a grandiosidade que os fãs imaginaram durante décadas, com cenários monumentais, figurinos ricos em detalhes e efeitos especiais que valorizam o universo criado pela Mattel.


O roteiro, assinado por Chris Butler ("Link Perdido", 2019), em parceria com David Callaham ("Homem-Aranha no Aranhaverso", 2018), além dos irmãos Aaron e Adam Nee ("A Cidade Perdida", 2022), preserva a essência dos personagens enquanto atualiza a narrativa para um público mais amplo. 

Algumas passagens poderiam ser mais desenvolvidas e certos conflitos se resolvem com rapidez excessiva, mas a história encontra um bom equilíbrio entre ação, emoção e fidelidade ao material original.

Boas atuações

Nicholas Galitzine ("Uma Ideia de Você", 2024), dublado em português por Garcia Júnior (voz original do herói na TV) entrega um Príncipe Adam convincente e um He-Man fisicamente imponente, transmitindo a evolução do jovem herdeiro até assumir plenamente o papel de defensor de Eternia. 


Mas quem domina boa parte da narrativa é Jared Leto ("Casa Gucci", 2021). Seu Esqueleto está ótimo, reunindo sarcasmo, inteligência e uma presença ameaçadora que transforma cada aparição em um dos grandes momentos do filme. 

O vilão acaba roubando a cena em diversos momentos, confirmando que grandes aventuras também dependem de antagonistas memoráveis.

O elenco de apoio também merece destaque. Idris Elba ("O Esquadrão Suicida", 2021) imprime autoridade, experiência e carisma ao Mentor de Armas, tornando Duncan um dos personagens mais sólidos da produção. 

Sua interpretação transmite a confiança de quem conhece cada batalha travada em Eternia e entende o peso de preparar o verdadeiro campeão de Grayskull, o tímido príncipe Adam.


Outro nome que chama a atenção do público brasileiro é Camila Mendes ("Música", 2024). Filha de pais brasileiros, a atriz assume o papel de Teela com personalidade, coragem e protagonismo. Sua personagem está longe de ocupar uma posição secundária. 

Ela participa das principais sequências de ação, demonstra independência e estabelece uma relação convincente com Adam, tornando-se uma das figuras mais importantes da narrativa.

Morena Baccarin ("Deadpool & Wolverine", 2024) empresta elegância e serenidade à Feiticeira de Grayskull, enquanto Alison Brie ("Bela Vingança", 2020) constrói uma Maligna fria, calculista, lora e ambiciosa, ampliando o clima de tensão que envolve a disputa pelo destino de Eternia.


Em busca da espada do poder

O rei Randor, interpretado por James Purefoy (série "Pennyworth", 2019–2022), e a rainha Marlena, vivida pela atriz Charlotte Riley (minissérie "Peaky Blinders", 2014), enviam Adam aos 10 anos para a Terra, a fim de protegê-lo da invasão liderada por Esqueleto. 

Em um portal mágico aberto pela Feiticeira, o jovem príncipe viaja em uma dimensão e acaba caindo em Oklahoma City, nos Estados Unidos. Durante a travessia, a Espada do Poder se separa dele, e esse é o acontecimento que desencadeia toda a história. 

Quinze anos depois e já com 25 anos de idade, Adam usa o nome Glenn. Ele trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa e divide um apartamento com o desconfiado Hussein interpretado por Christian Vunipola ("Nascida Para Cantar", 2024). 

Diariamente ele procura na internet o rumo da Espada do Poder para voltar a Eternia, até encontrá-la e se meter em confusões. 


Ao voltar para casa, Glenn/Adam é perseguido pelo Homem-Fera, interpretado pelo ator Gary Martin ("Minions", 2015). Fiel escudeiro de Esqueleto, ele persegue o príncipe pelas ruas da cidade é uma das principais sequências de ação da primeira parte do filme. E é justamente nesse momento que a bela Teela reaparece para salvar Adam e ajudá-lo a retornar a Eternia.

Esse é um dos principais diferenciais do filme em relação ao desenho do Xou da Xuxa. Na animação, Adam sempre viveu em Eternia e já era o príncipe do reino. No live-action, os roteiristas optaram por construir uma história de origem, mostrando o herói crescendo longe de seu planeta natal antes de assumir definitivamente a força de He-Man. 

Os fãs mais antigos certamente perceberão a ausência de alguns personagens fundamentais na animação original. O tigre Pacato aparece pouco durante o filme até sua aguardada transformação em Gato Guerreiro. 

Embora a escolha prepare o terreno para os próximos capítulos da franquia, fica a sensação de que um dos personagens mais carismáticos de Mestres do Universo merecia maior participação. 


Outro que aparece somente no final do longa é o atrapalhado Gorpo. O pequeno mago, inseparável companheiro de He-Man em praticamente toda a série animada dos anos 1980, sequer integra a aventura principal. 

Para quem acompanhou o desenho desde a infância, sua ausência provoca estranhamento e deixa evidente que a produção preferiu guardar personagens importantes como estratégia para uma futura continuação. Com certeza ele daria maior leveza à história com suas confusões.

Boa trilha sonora

Outro acerto importante em Mestres do Universo está na trilha sonora composta por Daniel Pemberton ("Enola Holmes", 2020, e "Ferrari", 2023). Em vez de viver apenas das lembranças da série animada, o compositor cria uma identidade própria para o filme, alternando momentos épicos e passagens mais emocionais que ampliam a força dramática da história. 

O principal destaque é "Eternia", composta por Pemberton em parceria com o guitarrista Brian May. A faixa abre o filme e ganha uma versão estendida nos créditos finais. O solo de guitarra de May dá à música uma identidade que remete ao rock épico dos anos 1980, uma escolha inspirada na trilha de Flash Gordon (1980), também marcada pela participação do Queen.


Ainda assim, fica a sensação de uma oportunidade perdida. Para o público brasileiro, especialmente aquele que hoje integra a geração 50+, uma discreta homenagem à música composta por Michael Sulivan e Paulo Massadas e gravada pelo Trem da Alegria teria sido um presente inesquecível. A canção ajudou a popularizar He-Man no Brasil e permanece viva na memória afetiva de milhões de fãs. 

Bastaria uma breve referência instrumental, talvez durante os créditos finais, para estabelecer uma conexão emocional ainda mais forte com quem descobriu os heróis de Eternia nas manhãs da eterna rainha dos baixinhos. Nas redes sociais, a Amazon MGM Studios soltou um trailer com a música He-Man, o que levou muito marmanjo aos cinemas.

A produtora fez uma aposta ambiciosa ao investir em uma franquia que marcou profundamente a infância de milhões de pessoas. O resultado demonstra que ainda existe espaço para grandes clássicos quando recebem planejamento, respeito ao material original e qualidade técnica. 

O estúdio deixa claro que pretende transformar "Mestres do Universo" em uma nova franquia cinematográfica.


Vale a pena permanecer na sala até o encerramento completo dos créditos. A cena extra não está ali apenas para cumprir uma tradição de Hollywood. Ela abre caminho para uma continuação e apresenta um importante gancho envolvendo Adora, a irmã gêmea de Adam, a She-Ra, que luta pela honra de Grayskull. 

Isso ampliará o universo da franquia, além de deixar evidente que novas aventuras já fazem parte dos planos da Amazon MGM Studios, embora a confirmação oficial dependa muito do desempenho nas bilheterias e do streaming.

"Mestres do Universo" está longe de ser apenas um exercício de nostalgia. O filme emociona quem cresceu repetindo o juramento diante da Espada do Poder, mas também apresenta esse universo para uma nova geração que só conhece a música do Trem da Alegria. 

Talvez essa seja sua maior qualidade. Mostrar que alguns heróis envelhecem muito bem e que certas lembranças continuam tão poderosas quanto no primeiro dia em que entraram na nossa vida.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: salas da rede Cineart: Boulevard, Cidade e Del Rey
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

28 maio 2024

Com Anne Hathaway, “Uma Ideia de Você” aborda temas que ainda são tabus nos dias de hoje

Comédia romântica é um entretenimento leve, ideal para ser assistido numa sessão da tarde e debatido
numa boa conversa de bar (Fotos: Prime Video)


Jean Piter Miranda


Solene (Anne Hathaway) é uma mulher que acaba de completar 40 anos. Recém-divorciada e com uma filha adolescente, ela não viveu outro romance desde que se separou do marido. Entretanto, a vida pacata dela muda completamente e de forma inesperada. 

Por um acaso, ela conhece Hayes Campbell (Nicholas Galitzine), um astro da música pop de apenas 24 anos. Os dois se apaixonam e, aí, pagam para ver no que vai dar. Esse é “Uma Ideia de Você” ("The Idea Of You"), novo filme do diretor Michael Showalter (“Os Olhos de Tammy Faye”, 2021 e “Doentes de Amor”, 2017), disponível no Prime Vídeo. 


A história começa quando Izzy (Ella Rubin), filha de Solene, está se preparando para ir ao famoso festival de Coachella com os amigos adolescentes. Eles estão indo conhecer a banda August Moon, a mais famosa boyband do momento. Desses grupos, compostos por jovens que cantam e dançam, como o Backstreet Boys e o 'N Sync foram para outras gerações. 

Daniel (Reid Scott), o ex-marido de Solene, era quem levaria a filha ao festival. Mas, de última hora, ele fica impedido de ir. Sobra então para ela a missão de acompanhar os adolescentes. Eles compraram pacotes especiais para o festival, com direito a participar de uma sessão de autógrafos com os integrantes da August Moon. É nesse momento que o casal do filme se conhece. 


Como em toda comédia romântica, Solene e Hayes passam por momentos um tanto constrangedores. Situações que são engraçadas e vão aproximando o casal. Aquele jogo de um fazer charme para o outro. Quando os dois querem, mas um quer mais que o outro. É o que vai gerando a química para o casal. E, neste caso, funciona. 

É claro que os dois ficam juntos e iniciam uma “lua de mel”. Isso é bem previsível. A diferença de idade é o grande problema entre eles. Mais dos que isso, é um dilema. Se podem ou não, se devem ou não, como as outras pessoas vão enxergar esse relacionamento e como o casal vai reagir a tudo isso. Se ficam juntos em segredo ou se assumem publicamente o romance. 


O cinema sempre teve o poder de promover debater. De levar determinados temas para a telona que depois podem repercutir em outros meios. Em tempos de redes sociais, isso é uma certeza. É quase instantâneo. Todos os filmes são comentados e até pautam reportagens, podcasts e programas de TV. Há casos que ecoam muito mais quando influencers e celebridades opinam sobre os temas abordados no filme. 

“Uma Ideia de Você” traz vários temas à tona sem se aprofundar em nenhum deles. A mulher mais velha pode namorar um rapaz mais jovem? Isso pode durar? É empoderamento feminino? É etarismo achar que esse tipo de relacionamento é errado? Temos que nos preocupar com a forma com que os outros vão enxergar tudo isso? Dá pra refletir sobre muita coisa. 

Ao longo da trama, como não podia ser diferente, o romance chega aos sites de notícias de celebridades. Com as manchetes mais sensacionalistas possíveis. Muitas são cruéis, preconceituosas e apelativas. É a era do clickbate, de monetizar a audiência, do vale tudo por mais um clique ou um like. Algo bem comum de vermos no mundo real. No filme, isso é turbulento para o casal. 


Solene tem então que lidar com as reações de pessoas conhecidas e de estranhos. Isso afeta as relações com os amigos, com a filha e até mesmo com o ex-marido. São problemas bem críveis, que certamente poderiam ocorrer em uma situação dessas, onde um jovem astro namora uma mulher mais velha. 

Em uma leitura mais profunda, dá para analisar outras situações do filme. Se em décadas passadas os adolescentes seguiam com fãs de determinadas bandas até o início da fase adulta, agora essa transição é muito mais rápida. Uma menina de 16 anos pode já não mais gostar dos ídolos que ela tinha aos 14 ou 15 anos. É um reflexo do nosso tempo. 


Comentários cruéis em redes sociais que podem levar pessoas à depressão ou a coisas piores, também são um reflexo dos dias atuais. Dá pra ver um pouco disso no filme, mesmo não sendo este o foco. E dá pra refletir depois sobre os temas. 

Em outras comédias românticas, dentre as mais conhecidas, muito casais foram formados por um homem mais velho e uma mulher mais jovem. E isso nunca foi problema. O cara rico e/ou famoso com a menina pobre. Agora, uma mulher mais velha com um rapaz mais novo nunca foi visto como algo natural. E, em pleno 2024, ainda não é.  

Um jovem rico e famoso se apaixonar por uma mulher mais velha é o que essa história tem de diferente. Com Anne Hathaway como protagonista, o incomum seria o rapar não se apaixonar. Ela está linda (sempre foi) e nem de longe aparenta 41 anos que tem na vida real. 


A história se desenrola sem grandes reviravoltas. As situações cômicas são bem comedidas. Anne Hathaway e Nicholas Galitzine cumprem bem seus papeis, com boas interpretações. Formam um casal bonito e carismático, com boa química na tela que faz com que a gente torça por eles. 

O ator confirmou que estudou muito as características e o jeito de falar do cantor Harry Styles, que inspirou o personagem, para incorporar Hayes Campbell.

“Uma Ideia de Você” está longe de ser uma obra que vai participar das principais premiações do cinema. E nem será daquelas comédias românticas que marcam época. É um filme bom, bem feito, que cumpre o que propõe. 

Pode ser assistido como um passatempo, uma “sessão da tarde”. Mas também pode ser um ponto de partida para boas reflexões e boas conversas de bares. E o principal: tem Anne Hathaway. Pra quem é fã, sempre vale a pena. 


Ficha técnica:
Direção: Michael Showalter
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Prime Video
Exibição: Prime Video
Duração: 1h55
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: romance, comédia