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06 setembro 2026

"O Convite": comédia sim, mas com jeito de lição de autoajuda

Filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em uma grande confusão (Fotos: O2 Play)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Difícil resistir a uma comédia rica e instigante como "O Convite" ("The Invite"), em cartaz no Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes. Com elenco perfeito e roteiro ágil e inteligente, o filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em confusões, revelações e constrangimentos. 

Com roteiro de Rashida Jones e Will McCormack e direção de Olivia Wilde ("Não Se Preocupe Querida" - 2022), o longa começa provocando altas gargalhadas antes de se transformar numa conversa séria quase incômoda para o público.


Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem uma rotina insuportável e facilmente identificada pelo espectador desde as primeiras cenas do filme. Ele é professor de música numa pequena escola, anda de bicicleta e tem sérios problemas de coluna. 

Ela é a típica dona de casa, cujas funções se limitam a limpar, lavar e preparar as refeições. Os diálogos entre os dois são ríspidos, limitam-se a temas práticos, pequenas brigas e não há nenhum carinho. Descobre-se logo que eles têm uma filha, mas ela não aparece ao longo da trama.


Tudo muda quando Angela, numa tentativa de quebrar a rotina, convida um casal vizinho que está há pouco tempo morando no prédio. Por trás do convite, está algo mais além da simples cortesia. 

Ela e Joe estão curiosos para saber mais sobre as transas ruidosas dos dois que só conhecem de cumprimentos e gentilezas no elevador. Há, no ar, uma nítida inveja dos gemidos, sussurros e gritos ouvidos do apartamento ao lado.

A entrada em cena de Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) ilumina o filme. Ele, quase discreto, e ela, loiríssima, esbanjando sensualidade, transformam o apartamento de Angela e Joe. O elenco, aliás, é a grande sacada de "O Convite".  


A exuberante Piña deixa claro, desde o início, que é moderna e ousada. É sexóloga e faz questão de relatar as experiências de sexo grupal que ela e o marido costumam ter, para delírio dos anfitriões. 

E a diretora Olivia Wilde, como Angela, brilha como a mulher carente, desiludida e curiosa. Também carente, mas mais afoito, o personagem Joe, feito por Seth Rogen, é o grande responsável pelas gargalhadas do público.

Outra sacada que faz toda a diferença é, sem dúvida, o cenário. Tudo se passa, praticamente, em apenas dois cômodos da casa: a sala e o pequeno escritório de Joe, como se fosse o palco de um teatro. 


Sem nenhuma cena de nudez e com raros beijos e abraços, o longa deixa transparecer o tesão que começa a brotar entre eles, enquanto os vizinhos relatam suas histórias mirabolantes. São os momentos mais engraçados do filme.

Classificado como comédia dramática, "O Convite" peca pelo final, discursivo e com cara de autoajuda. O fechamento não chega a comprometer o filme, mas uma solução mais sutil talvez levasse o longa a um outro patamar. 

Afinal, há outras formas menos explícitas que podem levar o espectador à reflexão sem fazê-lo parar de rir, como se, depois da piada, o convocasse à seriedade. Merecia um final mais criativo.


Ficha técnica:
Direção: Olivia Wilde
Produção: Annapurna Pictures
Distribuição: O2 Play
Exibição: Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama

13 agosto 2025

"No Céu da Pátria Nesse Instante" mostra a tensão provocada pela polarização das eleições de 2022

Documentário dirigido por Sandra Kogut traz um retrato histórico necessário do Brasil contemporâneo
(Fotos: O2Play)
 
 

Jean Piter Miranda

 
Os atentados de 8 de janeiro de 2023 marcaram profundamente a história recente do Brasil. Uma história que ainda ecoa pelo país, seja pela polarização, que ainda persiste, seja pela luta por anistia aos que atacaram a democracia. 

Mas como foi que chegamos a esse ponto? A resposta está em “No Céu da Pátria Nesse Instante”, documentário da diretora Sandra Kogut, que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas. 

A produção leva para as telas pessoas comuns que militavam em favor de Lula e de Bolsonaro. Cada uma contando sobre suas expectativas nos dias que antecederam as votações em primeiro e segundo turnos das eleições de 2022. 

Diretora Sandra Kogut

Marcelo Freixo, então candidato a governador do Rio, e sua esposa, a roteirista Antônia Pellegrino são acompanhados em atos de campanha. Assim como uma família bolsonarista também participa do documentário. Kogut equilibra bem o tempo de tela de cada lado, sem favorecer nenhum deles. 

Outros personagens são inseridos ao longo do documentário. Além dos militantes, também aparecem servidores da Justiça Eleitoral. O treinamento de mesários, a preparação das urnas e os desafios para realizar as eleições em todos os municípios, em especial os do Norte do país. 


Tensão no ar

Tudo vai sendo apresentado de forma leve, embora seja perceptível um clima de tensão no ar. É como se todo mundo soubesse o que estava por vir. Os atos de campanha dos dois lados. O medo de sair com camisa de candidato, o clima tenso de ir às ruas fazer campanha. Bolsonaristas confiantes na vitória. Lulistas temerosos com o futuro. 

Caminhoneiros organizados, pastor pedindo voto, a bomba no aeroporto de Brasília, denúncia de boca de urna e as blitze ilegais no dia das eleições. Tem muita coisa nessa complexa história que se apresenta em ordem cronológica, sem narrador. 

A tensão que vai aumentando durante a apuração. Uma história que a gente viu e viveu, mas que, ao ser revista, traz de volta um turbilhão de emoções, independente de que lado você esteja. 


Vem o resultado, vem a posse e a explosão do 8 de janeiro. Apoiadores do governo derrotado inconformados com o resultado das eleições e a vitória de Luis Inácio Lula da Silva invadem o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF). Violência, quebradeira, vandalismo, pedido de intervenção militar. Um dia que entrou para história e que ainda não acabou. 

O documentário reconta essa história sem adjetivar ninguém. Não faz juízo de valor, não debocha, não ironiza, nem comemora. É uma produção honesta e muito bem feita que merece ser vista para que tudo o que ocorreu não caia no esquecimento.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Sandra Kogut
Produção: Ocean Films em coprodução com Marola Filmes, Kiwi Filmes, GloboNews, Globo Filmes e Canal Brasil
Distribuição: O2 Play e Lira Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

05 janeiro 2024

Aclamado pela crítica, "Folhas de Outono" impressiona pela sensibilidade

Novo longa de Aki Kaurismäki está na shortlist do Oscar 2024 e foi nomeado ao Globo de Ouro (Fotos: Pandora Film/Sputnik Oy)

Carolina Cassese


Comédias românticas geralmente apresentam uma estrutura similar: o par se conhece aleatoriamente, passa por uma série de desencontros e luta para finalmente ter uma chance de testar o tal do “felizes para sempre”. 

Apesar de dialogar com essa tradição, “Folhas de Outono” ("Kuolleet Lehdet"), o mais novo filme de Aki Kaurismäki, está longe de ser apenas mais um filme do gênero. O longa, que integra a shortlist do Oscar e foi indicado a diversas premiações da temporada, impressiona por tratar de temas densos e variados com uma sutileza ímpar.


Atualmente em cartaz no UNA Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas (e, em breve, disponível na plataforma de streaming Mubi), a produção é centrada nos personagens Ansa (Alma Pöysti) e Holappa (Jussi Vatanen), dois moradores de Helsinque. 

Eles se conhecem num karaokê e, a partir desse encontro, começam a se esbarrar em diferentes pontos da cidade. Ao longo da narrativa, nos deparamos com diversos quadros que exibem um esquema de cores impressionante e, ainda, cenas que referenciam clássicos como “Rocco e Seus Irmãos” - 1960 (Luchino Visconti) e “Pierrot, Le Fou” (“O Demônio das Onze Horas”) - 2002 (Jean-Luc Godard).


Kaurismãki é conhecido por tratar de temas sociais e, mais especificamente, assuntos relacionados ao mundo do trabalho. “Folhas de Outono” não é uma exceção: os protagonistas do filme vivem e trabalham em condições bastante precárias. 

Os acenos da narrativa a Charles Chaplin também podem ser entendidos como uma possível alusão a "Tempos Modernos" (1936), já que, em pleno século XXI, os personagens realizam tarefas bastante repetitivas em seus empregos e são frequentemente desrespeitados pelos patrões.

Em determinado momento, a personagem principal é humilhada na fábrica por comer um sanduíche que seria jogado fora; “Isso deveria estar no lixo”, diz o chefe. Ansa responde: “Pelo visto, eu também”.


Quando a protagonista liga o rádio para buscar alguma distração de seu duro cotidiano, acaba se deparando com os horrores da guerra entre Rússia e Ucrânia. Em diferentes momentos, Ansa demonstra incômodo e muda a estação para poder ouvir música. 

Ao ler críticas de “Folhas de Outono” em sites de notícias, é extremamente significativo o fato de logo nos deparamos com notificações das abas “Guerra Israel-Hamas”, “Explosões no Irã” e “Acidente de avião no Japão”. A guerra entre Rússia e Ucrânia agora fica sem destaque não por ter acabado, mas por infelizmente ter se tornado um acontecimento “banal” em meio a tantas outras tragédias. 


Nesse sentido, a perspectiva da personagem Ansa se torna ainda mais evidente: tentamos nos distrair com a arte, mas a dureza da realidade por vezes se impõe. Como escapar desse sentimento de impotência diante de sucessivos horrores?

Claro, o filme de Kaurismäki não está interessado em fornecer respostas prontas. Mas, ao longo da narrativa, os dois personagens conseguem encontrar bonitos momentos de respiro em meio aos problemas sociais e questões particulares, como a depressão e a dependência alcoólica.

Em comparação a longas-metragens de grande orçamento e com inúmeros efeitos especiais, “Folhas de Outono” pode parecer um filme pequeno - inclusive por durar “apenas” 81 min. No entanto, como pontuou a crítica Stephanie Zacharek na revista Time, “às vezes pequenos milagres aparecem em forma de filmes”. Ao considerarmos todos os méritos do longa e o quanto ele consegue nos tocar, essa fábula do cotidiano se torna grandiosa.



Ficha técnica
Direção e roteiro:
Aki Kaurismäki
Produção: Sputnik Films e Pandora Film Produktion
Distribuição: O2 Play
Exibição: sala 3 do UNA Cine Belas Artes (sessão 14 horas) e sala 2 do Centro Cultural Unimed-BH Minas (sessão 21 horas)
Classificação: 14 anos
Duração: 1h21
País: Finlândia
Gêneros: comédia, drama, romance