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08 dezembro 2021

12ª edição do Festival Varilux apresenta excelentes nomes do cinema contemporâneo

 (Crédito: Festival Varilux de Cinema/Divulgação)


Carolina Cassese
Correspondente no Festival

A produção cinematográfica francesa sempre teve um lugar cativo no coração do cinéfilo brasileiro, motivo pelo qual movimentos como a Nouvelle Vague angariaram fãs também por aqui. Assim como atores, atrizes e diretores (deste e de outros movimentos) se tornaram conhecidos, a ponto de virarem referências também em outros campos, como a moda. 

E é justamente por essa razão que o Festival Varilux de Cinema vem se firmando como boa oportunidade para ficar em dia com títulos que costumam estar disponíveis apenas em poucos cinemas. Ou nas plataformas de streaming, também dedicadas a obras mais independentes, como o Mubi. No ano passado, o Festival Varilux, como várias outras iniciativas, foi impactado pelo advento do novo coronavírus. 


Com as salas fechadas, a alternativa para não deixar órfãos os fãs dessa investida foi fazer uma edição online, gratuita. É agora, neste final de segundo semestre, que o público está podendo acompanhar as atrações totalmente na tela grande. 

Em cartaz desde o último dia 25 de novembro, o Festival Varilux se encerra nesta quarta-feira (8) em algumas salas de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Portanto, quem ainda não se programou, vale correr logo ao site e escolher o filme que melhor atender a seu gosto. 

"Nosso Planeta, Nosso Legado"

Em alguns espaços, como o Cine Theatro Vallourec, os longas ficarão até dia 19 de dezembro em cartaz. São nada menos que 18 filmes inéditos, incluindo o clássico "As Coisas da Vida" (Claude Sautet), o documentário "Nosso Planeta, Nosso Legado" (Yann Arthus-Bertrand) e a animação "A Travessia" (Florence Miaikhe). No Rio e em São Paulo, o evento também abarca uma homenagem a Jean-Paul Belmondo, falecido em setembro deste ano, aos 88 anos. 

Em Belo Horizonte, onde tem o apoio da Aliança Francesa, o evento pode ser conferido em três salas de exibição: no Una Belas Artes, no Cine Theatro Brasil Vallourec e no Cinemark Pátio Savassi. Os horários e valores são de acordo com cada cinema.



A reportagem do Cinema no Escurinho esteve no Rio de Janeiro, nos dias 25 e 26 de novembro, quando, a convite do evento, participou de encontros com a delegação francesa. Neste ano, a novidade foi a vinda de dois jovens atores - Sami Outalbali (muito conhecido, no Brasil, pela série britânica "Sex Education", da Netflix) e Benjamin Voisin -, além do veterano diretor Phillippe Le Guay (nome por trás de ótimas produções, como "As Mulheres do Sexto Andar") e do ator Olivier Rabourdin.

Sami Outalbali veio para apresentar o filme “Um Conto de Amor e Desejo”, segundo longa-metragem de Leyla Bouzid. Nele, interpreta Ahmed, um jovem tímido que, ao ingressar em um curso sobre literatura erótica árabe, acaba se aproximando de Farah, uma colega de classe que, por sua vez, acaba de chegar da Tunísia. 


No dia da entrevista, Sami contou que se enveredou pela carreira de ator ainda bem novo, por volta dos seis anos de idade - e com o apoio da família. Fez algumas produções para a TV francesa, até o citado papel, que o deixou conhecido mundo afora, na série da Netflix.

Também bastante jovem, Benjamin Voisin, por seu turno, veio apresentar a transposição para o cinema de um clássico da literatura francesa, "Ilusões Perdidas", do diretor canadense Xavier Dolan, baseado na obra literária de Honoré de Balzac. 

No filme, ele é Lucien Chardon, ou Lucien de Rubempré, um jovem pobre de Angoulême que mantém um caso de amor com Louise de Bargeton, uma mulher rica, mais velha e casada, interpretada por Cécile de France. 


Ele, embora trabalhe numa tipografia, tem pretensões literárias. Ela, enxergando nele um real talento na poesia, batalha para que seja publicado. Na iminência de um escândalo na pequena cidade, os dois vão para Paris, onde o talento é percebido por um jornalista, que o integra à redação de seu periódico, de viés liberal.

Acontece que Lucien joga para os dois times. Embora se identifique com os colegas de redação, e vá pouco a pouco construindo seu nome, ele ao mesmo tempo anseia por pertencer à elite. E, sem perceber, vai perigosamente se enredando. 

O filme é soberbo, com um elenco de primeira (além de Cécile de France, nomes como Gerard Depardieu e Jeanne Balibar), em meio ao qual Voisin (que já trabalhou com grandes diretores, como François Ozon) se sai maravilhosamente bem. Um nome que certamente ainda vai ser muito citado mundo afora.


Olivier Rabourdin não aparece tanto no filme que veio apresentar, "Caixa Preta", mas seu papel é decisivo. O título já dá um indicativo do tema, remetendo o espectador a um avião que, claro, vai sofrer um acidente. Mas não se trata de uma fita de tragédia, e, sim de uma investigação no qual um jovem especialista em acidentes aéreos vai logo se dar conta de que é mais intrincada do que ele inicialmente julgava (quando achou se tratar de um ato terrorista). 

Rabourdin é um veterano ator francês, já participou de dezenas de filmes. Na entrevista, como os demais colegas, esbanjou simpatia e senso crítico ao falar sobre as questões que são ali tratadas. Ao fim, um longa que vai deixar o espectador com os olhos pregados na tela.

"Um Intruso no Porão"

O último (mas não menos importante) membro da delegação foi o simpático diretor Philippe Le Guay, que conversou com a imprensa sobre "Um Intruso no Porão". Ele revelou que custou a cair a ficha de que o papel do vilão poderia ser interpretado por seu amigo, François Cluzet, um ator que geralmente coloca seu talento a serviço de outros tipos de personagem. Deu supercerto. 

Aqui, temos um casal que abriga um senhor, a princípio aparentemente simpático, no porão. Com o tempo, os dois percebem que se trata de um homem negacionista e, pior, antissemita. Ocorre que, a partir do momento em que já está instalado, tirá-lo dali não vai ser tarefa das mais fáceis. Um filme tenso e brilhante, acima de tudo necessário, numa época em que a ciência e acontecimentos históricos (como o próprio holocausto) são, inacreditavelmente, contestados.

"Enquanto Vivo"

Outro tema bastante abordado nas obras do festival é o fim da vida. Em “Enquanto Vivo”, que conta com a icônica Catherine Deneuve no elenco, acompanhamos um homem que foi diagnosticado com uma doença terminal e tem data marcada para morrer. A personagem principal de outro dos filmes da mostra, “Adeus, Idiotas”, atravessa a mesma questão. 

Mas é interessante notar que, apesar da premissa semelhante, essa produção é completamente diferente da primeira. Apesar de também ser denso, o longa protagonizado por Virginie Efira é uma ótima comédia - enquanto o de Deneuve, igualmente excelente, é bem mais dramático.

"Mentes Extraordinárias"

Em “Mentes Extraordinárias”, um de nossos protagonistas é agente funerário. Evidentemente, o tema da morte também marca presença nesse filme, que acompanha justamente a viagem de dois homens (unidos pelo acaso) em um carro funerário. A obra dirigida, escrita e protagonizada por Bernard Campan é sem dúvidas uma das mais sensíveis e emocionantes deste ano. Mais do que sobre a morte, é sobre o genuíno nascimento de uma amizade, sobre o acaso e caminhos que se cruzam.

São, portanto, longas que abordam temáticas bastante humanas e atemporais, ao mesmo tempo em que não deixam de ecoar questões contemporâneas. São obras que, sim, nos fazem pausar e refletir, mas também podem garantir excelentes risadas e, claro, um "quentinho" no coração.

Serviço:
12ª edição do Festival Varilux de Cinema

Locais de exibição:
- Una Belas Artes e Pátio Savassi - até esta quarta-feira (8)
- Teatro de Câmara do Cine Theatro Brasil Vallourec - até 19 de dezembro
Acesse a programação dos filmes pelo site: https://bit.ly/3pxkySr
Exibições: 18 filmes inéditos
Gêneros: drama, romance, comédia, suspense, filmes históricos, animações e documentários.

19 junho 2022

Além do clássico: "O Próximo Passo" é muito mais do que uma típica tragédia de dançarina

Sucesso de bilheteria, filme é destaque do Festival Varilux 2022 e foi o terceiro mais visto nos cinemas franceses em abril. 



Carolina Cassese - correspondente em Paris
Blog Carolina Cassese 


O terceiro filme mais visto na França na sua semana de estreia, somando mais de um milhão de espectadores. É dessa maneira que "O Próximo Passo" ("En Corps", no original), mais recente longa de Cédric Klapisch, é anunciado como um dos destaques da nova edição do Festival Varilux de Cinema Francês, que tem início em todo o Brasil a partir desta terça-feira (21). 

A produção de fato se destacou nos cinemas franceses. O público definitivamente se encantou com a história de Elise, uma jovem bailarina que se machuca em uma de suas apresentações e é obrigada a rever os rumos de sua vida por conta do acidente.


O longa de Klapisch reúne uma série de elementos que são realmente muito gratificantes para o espectador: uma abordagem bastante sensível acerca de temas universais, personagens construídos com complexidade, momentos de humor muito bem dosados, excelentes diálogos e ainda ótimos atores. O fato de a protagonista ser interpretada por Marion Barbeau, que também é dançarina, provavelmente auxilia bastante no quão crível é a paixão da personagem pela dança. 

Podemos perceber que essa manifestação artística é seu universo, seu eixo, absolutamente essencial para a existência de Elise. Acompanhamos com angústia a recuperação da protagonista, torcendo para que ela volte o mais rápido possível para os palcos.


Se engana, porém, quem acredita que a produção se restringe ao universo da dança. Essencialmente, O próximo passo é sobre frustrações e recomeços, além de proporcionar reflexões acerca de temas como o luto e relações entre pais e filhos. Ao longo de todo o filme, o diretor inteligentemente constrói um paralelo dos tipos de dança com as próprias formas de viver a vida. Forma clássica ou contemporânea? Quem sabe as duas ao mesmo tempo, a depender do contexto.

Durante uma sessão de fotos, Elise e sua amiga reagem a um pedido sexista do fotógrafo, que pede para uma menina menor de idade se ajoelhar diante de um cara mais velho, numa posição de submissão. "Essa pose é um clássico!", argumenta o fotógrafo. "O fato de ser um clássico não é razão para continuar fazendo", rebate Elise.


Em seu processo de recuperação, a personagem principal muitas vezes se sente desmotivada e fraca. Uma de suas principais chateações diz respeito ao fato de que célebres histórias sobre dançarinas geralmente acabam em tragédia. "É isso, é um clichê, eu virei uma heroína do balé clássico", diz, em uma das excelentes cenas com Yann, seu fisioterapeuta. 

Em outro momento, Hofesh Shechter, um conhecido coreógrafo (inclusive na vida real), argumenta: "A fraqueza é a chave. A fraqueza é o novo superpoder". Ele busca incentivar Elise a dar uma chance para a dança contemporânea e a participar de sua companhia. "Eu não estou dançando tão bem, não é perfeito", diz a dançarina. Sem nenhum tipo de grosseria, Shechter responde: "Quem disse que era perfeito antes?".


Em dois momentos do filme, aparece a metáfora do corpo como um carro. Na primeira vez, o argumento é de que não devemos deixar nosso corpo parado por muito tempo, sem funcionar. Na segunda, o pressuposto é de que precisamos ter cautela. Elise se divide entre o cuidado e a urgência de se movimentar, de voltar a respirar como antes.

Num mundo onde estamos habituados a exigir performances e resultados rápidos, olhar para o nosso corpo muitas vezes é uma aula de paciência. Ver um espetáculo de dança, idem. Em "O Próximo Passo", não há resposta exata e nem imediata: é primordialmente sobre o processo.


Ficha técnica:
Direção: Cédric Klapisch
Produção: Studio Canal
Distribuição: Bonfilm
Duração: 1h57
Classificação: 14 anos
País: França
Gênero: Drama

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2022
Data: De 21/06 a 01/07/2022
A 13ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês oferece uma programação composta por 17 longas-metragens inéditos e dois filmes clássicos
Exibição: nos cinemas Cineart Ponteio, UNA Cine Belas Artes, Centro Cultural Unimed BH Minas e Cinemark Pátio Savassi.
Programação: https://variluxcinefrances.com/2022/

10 janeiro 2022

Os favoritos do Cinema no Escurinho de 2021 no cinema e plataformas de streaming

"Mare of Easttown", minissérie policial dramática com Kate Winslet (Crédito: HBO Max)


Maristela Bretas

Seguindo a tradição de anos passados, o blog Cinema no Escurinho pediu novamente a seus colaboradores que indicassem filmes e séries lançados em 2021, no cinema ou plataforma de streaming.

Na telona, o destaque ficou em dezembro com o tão esperado "Homem Aranha: Sem Volta Para Casa", produzido em parceria pela Sony Pictures e Marvel Studios. O filme ainda está em exibição em várias salas do país.

Já o drama policial "Mare of Easttown", produzido pela HBO, foi o mais indicado pelo blog entre as séries exibidas em canais de streaming.

"Homem Aranha: Sem Volta Para Casa" (Crédito: Marvel Studios/Divulgação)

Aqui vão as dicas destas produções, algumas com links para as críticas feitas por essa turma que curte a sétima arte. E se quiser enviar alguma sugestão de filme ou série que não conste nesta relação (e são muitos), mande até o dia 16 de janeiro para o blog..

Vamos fazer uma seleção dos 20 favoritos indicados por nossos seguidores para uma nova postagem. O e-mail é cinemanoescurinho@gmail.com. Basta colocar o nome e onde a produção pode ser conferida - no cinema ou plataforma de streaming.

"Mentes Extraordinárias" (Crédito: Festival Varilux)

Carol Cassese
FILMES
A Mão de Deus (Netflix)
Mentes Extraordinárias (Cinema - assistido no Festival Varilux)
A Crônica Francesa (Aguardando entrar na plataforma de streaming)
Mães Paralelas (Aguardando entrar na plataforma de streaming)
Duna (HBO Max)

SÉRIES
Mare of Easttown (HBO Max)
White Lotus (HBO Max)
Hacks (HBO Max)
Missa da Meia-Noite (Netflix)
Maid (Netflix)

"Duna" (Crédito: HBO Max)

Jean Piter Miranda

SÉRIES
Mare of Easttown (HBO Max)
WandaVision (Disney+)
Arcane (Netflix)
Falcão e Soldado Invernal (Disney+)
Gavião Arqueiro (Disney+)

"Não Olhe para Cima" (Crédito: Netflix)

Marcos Tadeu
FILMES
Noite Passada em Soho (Cinema)
Duna (HBO Max)
Marighella (Globoplay)
Maligno (HBO Max)

SÉRIES
WandaVision (Disney+)
Solos (Amazon Prime Video)
Clickbait (Netflix)
Lupin (Netflix)
Round 6 (Netflix)

"WandaVision" (Crédito: Disney+)

Maristela Bretas
FILMES
Marighella (Globoplay)
Ghostbusters - Mais Além (My Family Cinema)
Cruella (Disney+)
Luca (Disney+)

SÉRIES
WandaVision (Disney+)
O Homem das Castanhas (Netflix)
Lupin (Netflix)
Gavião Arqueiro (Disney+)

"Marighella" (Crédito: Factoria Comunicação)

Mirtes Helena Scalioni

FILMES

Ataque dos Cães (Netflix)
O Festival do Amor (Cinema)
A Filha Perdida (Netflix)
Veneza (Star+)
Druk: Mais Uma Rodada (Telecine)

SÉRIES
A Caminho do Céu (Netflix)
Manhãs de Setembro (Amazon Prime Video)
Maid (Netflix)
O Paraíso e a Serpente (Netflix)
Round 6 (Netflix)


09 maio 2026

“Era Uma Vez Minha Mãe”, um filme sobre esse amor desmesurado

Longa dirigido por Ken Scott foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema Francês no ano
passado  (Fotos: California Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Certamente, foi de caso pensado. Em meio ao fluxo de filmes que marcaram presença no Festival de Cinema Francês (antigo Varilux) ano passado, mas que só agora efetivamente entram em cartaz, “Era Uma Vez Minha Mãe” ("Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan"), roteiro e direção de Ken Scott, estreia às vésperas do Dia das Mães, com potencial para deixar olhos marejados nas sessões. 

Claro, filmes sentimentais costumam desagradar parte do público, mas mesmo esse pode – e deve – abrir exceção para fruir sem preconceitos uma história baseada em uma história real (publicada em livro). Deixando mais claro, de uma mãe que luta com todas as forças para que o filho caçula, nascido com uma malformação em um dos pés, possa ter direito a uma vida normal – incluindo a capacidade de andar.


A narrativa tem início em 1963, com o nascimento de Roland Perez (interpretado por mais de um ator, sendo, na fase adulta, por Jonathan Cohen). Nos momentos que precedem o parto, o espectador é apresentado a Esther (Leïla Bekhti), mulher de origem marroquina. 

Um exemplo de mãe coragem que, antes de ir para a maternidade, mesmo já com as contrações em curso, deixa tudo arrumado para os filhos mais velhos (são cinco!) e parte sozinha, já que não vê a presença do marido como necessária, em transporte coletivo. 

No bloco cirúrgico, ela já percebe que algo não vai bem, pelo olhar dos profissionais presentes. Logo, é informada que o garoto nasceu com um resquício de pé. Uma “deformidade”, palavra que a mãe refuta veementemente. Especialistas dizem que o menino só conseguiria andar com uma órtose – o que ela também descarta.


Esther passa a procurar todos os médicos possíveis, numa via Crúcis insana. Do mesmo modo, alguns charlatões. Ao mesmo tempo, espera por um milagre a cada nascer do sol, montando inclusive um pequeno altar. Neste ínterim, o menino, já uma criança (vivido pelo tão fofo quanto expressivo Naim Naji), vai se arrastando pelo chão da casa na qual vive a família. 

Como não sai à rua, Roland não frequenta a escola – assim, não demora uma assistente social (Madame Fleury) bater à porta cobrando a alfabetização do caçula, como previsto em lei. Esther vai driblando a oficial, mas a situação vai se tornando insustentável.

É nesse momento do longa que um acontecimento prosaico altera para sempre a vida de Roland e de todos do entorno. Graças à irmã e às amigas dela, fãs da cantora Sylvie Vartan, o menino trava contato com essa que é um grande nome da música francesa. 


E por ela se encanta, a ponto de emular, com uma canetinha, o espaço que a diva tem como marca entre os dentes da frente. As canções de Vartan embalam a vida familiar até que, um belo dia, Esther recebe, do Marrocos, um cartão-postal do irmão, sugerindo um profissional que poderia definitivamente ajudar o filho a andar.

Com a esperança reabastecida, Esther pede mais um prazo a Madame Fleury, mas uma nova surpresa a aguarda. O senhor Verchepoche, que, na verdade, não era um médico - antes, um curandeiro -, faleceu um mês antes de mãe e filho baterem à sua casa, onde, diga-se, são atendidos pela viúva. No entanto uma luz no fim do túnel se acende – e, por meio dela, a música de Sylvie Vartan continua a ecoar.

Para o público mais jovem, vale a pena situar que, nos anos 60, 70 e mesmo 80, a música francesa e a italiana marcavam forte presença nas rádios e nas trilhas de novelas brasileiras. Sylvie Vartan, hoje com 81 anos, é uma das cantoras cujas músicas – particularmente, “Irrésistiblement” fizeram sucesso no Brasil. 


Mas sim, nos dias atuais, a intérprete é mais conhecida pelos que viveram aqueles tempos e pelos amantes/estudiosos do idioma. Provavelmente por conta disso, a distribuição do filme, no Brasil, optou por alterar o título original – “Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan” (ou seja, Minha Mãe, Deus e Sylvie Vartan) – por “Era Uma Vez Minha Mãe”. 

No entanto, para o público francês, o nome de Vartan está irrevogavelmente atrelado à história de Roland. Reza a prudência não destrinchar muito a importância dessa influência nesse processo, sob a pena de estragar o prazer do público em acompanhar essa história tão incrível, na qual o destino parece ter selado parceria com a mãe daquele menino que, ao nascer, parecia condenado a viver se arrastando. 


Roland, registre-se, chegou longe. Virou um advogado de renome. E, para tal, o empenho da mãe foi primordial. Na representação de sua história no cinema, impossível não se apaixonar por Esther, interpretada magistralmente pela já citada Leïla Bekhti.

A todo tempo ela repete para o filho a palavra michkpara, que, na tradução apresentada na tela, significa “eu te dou minha vida”. Nada não habitual para uma mãe, mas é surpreendente a ênfase com a qual Esther assume esse mantra. 

Por outro lado, o amor desmedido, desmesurado, também tem seu lado negativo. E, com o passar do tempo, o fato de a vida de mãe e filho ter se amalgamado com tanta intensidade revela o seu ônus.     


No frigir dos ovos, além das boas atuações, e da curiosidade de o filme ter se inspirado em uma história real, outros pontos positivos sustentam a experiência de assisti-lo, caso da paleta cromática que marca os enquadramentos, da reconstituição de época, da trilha sonora (com o predomínio da cantora homenageada, óbvio), a maquiagem (que marca o passar do tempo nos personagens) e o fato de a própria Sylvie Vartan interpretar a si própria (no caso, nas cenas em que aparece mais jovem, com a ajuda da tecnologia).

Registre-se, ainda, a presença de Joséphine Japy, uma graça de atriz, conhecida do público francófono local pelo fofo “Amor à Segunda Vista”. Jonathan Cohen, por seu turno, além de já ter tido vários de seus filmes exibidos por aqui, também participou da série “Negócio de Família”, disponível na Netflix. 

Outra curiosidade é que a música “Irrésistiblement”, de Sylvie Vartan, também foi recuperada recentemente por outro filme, “Inverno em Paris”, também exibido na capital mineira.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Ken Scott
Distribuição: California Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 14 anos
Países: França, Canadá
Gêneros: drama, comédia

16 abril 2026

"O Estrangeiro": Ozon coloca seu talento a serviço de um cânone da literatura

Benjamin Voisin interpreta o francês Meursault, um jovem que não demonstra sentimentos nem com a
morte da mãe (Fotos: California Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Publicado em 1942, “O Estrangeiro” ("L'Étranger), do franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960), não tardou a entrar para o panteão dos clássicos, conquistando mais e mais leitores no curso do tempo, mundo afora. 

Previsivelmente, não tardou a ser adaptado para o teatro e para o cinema – no último caso, por Luchino Visconti, em 1967, com Marcello Mastroianni como protagonista. 

A mais recente versão para a sétima arte desta obra, desta vez, dirigida pelo francês François Ozon, está em cartaz no Una Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Lembrando  que, ano passado, o título foi exibido em algumas sessões em BH dentro do Festival de Cinema Francês (antigo Varilux). 


Agora, Meursault é vivido pelo ótimo Benjamin Voisin, de “Ilusões Perdidas”. O jovem ator, vamos lembrar, teve seu primeiro papel de destaque no cinema pelas mãos do mesmo Ozon, no tocante “Verão de 85”. 

Logo no início da trama de “O Estrangeiro”, o personagem central, funcionário de um escritório em Argel (então ainda colônia da França), recebe a notícia do falecimento da mãe, que vivia em um asilo em Marengo, a 80 quilômetros da capital. 

Ao contrário do comportamento esperado pela sociedade em situações afins, Meursault não deixa transparecer laivos de inconformismo diante do anúncio. Sequer uma vaga tristeza. Ao contrário, mantém a fleuma e a apatia características de sua personalidade, declinando inclusive da oferta de que o caixão fosse aberto, para que pudesse ver, pela última vez, a genitora.


Em uma sociedade na qual a dor de perder um ente querido é majoritariamente validada por rituais que incluem lágrimas, soluços e manifestações vívidas de inconformismo, a impassibilidade de Meursault chama a atenção dos companheiros de moradia da falecida. 

Mais tarde, a indiferença do único filho da sexagenária volta à baila quando Meursault já está no banco dos réus, após assassinar um rapaz árabe a cinco tiros, sendo quatro disparados quando a vítima já estava sem vida.

O episódio que muda irreversivelmente a vida de Meursault, como quem leu o livro bem se recorda, se dá num dia de muito calor em que, a convite de um vizinho, o comerciante Raymond (Pierre Lottin), o protagonista vai à praia com a namorada, Marie (Rebecca Marder). 

O rapaz árabe, por sua vez, é irmão da amante de Raymond, uma moça a quem ele recentemente espancara. Portanto, aparece no balneário, junto a amigos, em tom de intimidação e possível vingança ao agressor. 


No momento que precede o crime, porém, os rapazes já tinham inclusive se distanciado do ponto da praia onde Raymond, Meursault e companhia estavam. Ocorre que, subitamente, sem um propósito explicitado, Meursault deixa o grupo para, sozinho, dar uma nova caminhada. É quando, metros adiante, ainda na praia, volta a encontrar o hercúleo rapaz, desta vez já sozinho. É quando, sob o brilho do sol inclemente, o crime acontece.

Com sua agudeza particular, François Ozon não deixa de explorar o racismo contra os árabes, em falas como a do advogado de Meursault (diga-se, escolhido à revelia do personagem, já que, por ele, nem teria defesa), que cita o fato de que vários franceses foram anteriormente absolvidos por matar locais, comprovando, assim, uma dinâmica de povos subjugados. 

O julgamento do personagem central - que mantém a letargia característica em seu curso, quase como se fosse um espectador do processo, e não o homem sentado no banco dos réus - assume, claro, a metade final da narrativa.


Cumpre dizer que, nesta transposição, Ozon mantém-se bem fiel à obra de Camus, ainda que insira uma licença poética que não vai passar despercebida aos que trazem frescos na memória detalhes da icônica obra. 

Trata-se de um momento fugaz em que Meursault lança um olhar fixo ao corpo delineado do rapaz árabe, em particular, à axila do mesmo, o que sutilmente sugere que houve outro motivo para que descarregasse o cartucho no garoto.

Com apenas 29 anos, Benjamin Voisin já mostrou várias vezes a que veio, com um talento que lhe permite dar corpo a personagens densos, de vieses distintos, mas que muito exigem da interpretação. Aqui, surge perfeito como Meursault, um atento e interessado observador do comportamento humano, mas que, apático até a medula, não busca interferir no rumo dos acontecimentos, limitando-se a aceitar o fluxo da vida com resignação e mesmo certo abatimento. 


A opção pelo preto & branco mostra-se perfeitamente acertada, gerando imagens em que os contrastes de luz e sombra criam quadros belíssimos. Talvez um pequeno reparo possa ser feito em relação à percepção de que o calor descrito com tanto detalhamento e intensidade no livro de Camus (como nas frases “havia já duas horas que o dia deitara sua âncora neste oceano de metal fervente “ou “a ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se nas minhas sobrancelhas”) não apareça na tela de modo mais demarcado, o que poderia ser alcançado, por exemplo, com o efeito de roupas empapadas ou suor escorrendo pelo rosto dos personagens.

Nada, porém, que interfira no deleite de ver um clássico de volta ao cinema com a condução de um expoente como Ozon, e com elenco tão empenhado. Portanto, vá ao cinema – e, se possível, aproveite para ler ou reler o livro.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro: François Ozon
Distribuição: California Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 2h02
Classificação: 16 anos
Países: França, Bélgica e Marrocos
Gêneros: drama, crime

25 fevereiro 2026

"A Miss" lança um olhar atual sobre o universo dos concursos de beleza

Dois gêmeos, dois desejos diferentes e uma mãe controladora que vive em função da imagem
(Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
"A Miss", primeiro longa-metragem da carreira do também dramaturgo e roteirista fluminense (nascido em São Gonçalo) Daniel Porto, cita, em seu título, um tema cuja abordagem serve de gancho para tratar assuntos na ordem do dia, como as questões de gênero. 

Passado no bairro carioca do Grajaú, o filme flagra uma família formada por Iêda (Helga Nemetik), uma mãe solo, endurecida pela vida, e seus dois filhos gêmeos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), então com 17 anos. 


Na juventude, Iêda (o nome certamente é uma alusão a Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o Miss Universo, em 1963, e falecida ano passado) participou, por influência da mãe, de concursos de beleza, o que, conscientemente ou não, a fez desejar que a filha (cujo nome faz referência a ícones como Martha Vasconcellos e Martha Rocha) siga o mesmo caminho. 

Ocorre que a adolescente não quer menos que maior distância possível desse mundo no qual a individualidade é solapada por ditames anacrônicos aos tempos atuais, como a magreza excessiva. Quem não se lembra da lenda das célebres duas polegadas a mais de Martha Rocha, que por anos pautou o imaginário do país? 


E é aí que entra em cena a solução inesperada para o impasse: em "A Miss", enquanto Martha tem repúdio por um mundo no qual a alimentação tem que ser regrada e a postura, perfeita, lapidada por caminhadas com livros sobre a cabeça; o personagem de Alan passa a externar seu fascínio por tudo o que cerca o universo do glamour feminino. 

E, assim, com o apoio de Athena (Alexandre Lino), que divide com Iêda a condução de um salão de beleza de bairro, Alan parte para encarar a etapa que vai escolher a representante do Grajaú rumo ao momento seguinte - a eleição da miss Rio de Janeiro. Uma artimanha que, diga-se de passagem, até dado momento, se desenrola sem conhecimento da mãe.


Apresentado, no material de divulgação enviado à imprensa, como uma "dramédia contemporânea que propõe um olhar sensível e bem-humorado sobre as relações familiares e a liberdade de ser quem se é", "A Miss" traz boas surpresas, como a voz (e a participação) da cantora Ellen de Lima, defendendo "A Canção das Misses", assim como um elenco visivelmente comprometido. 

No entanto, ao fim, fica a impressão de que a questão da identidade de Alan poderia ter sido mais trabalhada dentro da trama, dada a atualidade do tema. 

Outro ponto é que alguns momentos de intenção cômica não são efetivamente tão engraçados assim, portanto, poderiam ter sido limados na edição final, sem prejuízo da proposta como um todo - caso da ingestão de remédios para controlar a ansiedade ou da cena da ponta acesa de um cigarro.


Festivais

Em tempo: o material de apresentação do filme informa, ainda, que, antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, "A Miss" foi exibido no Actrum International Film Festival (Espanha) e no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ (Itália). 

Também integra a programação do 39º Queergestreift Film Festival Konstanz (Alemanha). O roteiro de "A Miss" foi desenvolvido no laboratório francês do Festival Varilux de Cinema Francês. A distribuição é da Olhar Filmes.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Porto
Distribuição: Olhar Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, comédia