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26 fevereiro 2026

"O Caso dos Estrangeiros": cinco histórias, países diferentes e a mesma busca sofrida por uma vida melhor

Longa é baseado em fatos reais sobre a fuga de refugiados de guerras, suas angústias e esperanças
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas


A partir das memórias de uma ex-refugiada, "O Caso dos Estrangeiros" ("I Was a Stranger") consegue contar histórias entrelaçadas de refugiados, suas angústias, sofrimentos e esperanças de uma vida melhor. 

Baseado em fatos reais, o filme é um retrato emocionante de uma situação quase diária que acompanhamos pelos noticiários, contada por quem vive ou viveu este drama.

Uma crítica ao título em português: "O Caso dos Estrangeiros" ficou muito ruim e não condiz com as histórias dos personagens. A tradução mais correta seria "Eu era um estrangeiro” ou “Eu era uma pessoa estranha ou desconhecida”, expressões que se aplicariam melhor às condições e fatos narrados por eles.


A narrativa, com diálogos em inglês, árabe e grego, envolve cinco famílias de quatro países diferentes, cujas histórias vão se entrelaçando após uma tragédia, com cada personagem sendo apresentado em fragmentos que vão formar o quebra-cabeça. Aos poucos, o espectador vai entendendo o drama de cada um, como se conheceram e criaram laços. 

O longa é inspirado no curta-metragem “Refugee” (2020), também do diretor e roteirista Brandt Andersen. Tudo começa em abril de 2023, a partir das lembranças da síria Amira (Yasmine Al Massari) que mora e trabalha em um hospital de Chicago, nos EUA. 


É dela o primeiro caso - A Médica -, ocorrido oito anos antes, quando era uma das responsáveis pelo atendimento às vítimas da guerra em Aleppo, na Síria. Para ela, não importava de qual lado vinha a pessoa ferida: como médica, ela dispensava o mesmo esforço. 

O desgaste diário com o sofrimento diário causado pela guerra só quebrado pelas reuniões alegres, com cantorias, na casa dos pais. Até que o conflito chega ao seu lar e a obriga a fugir com a filha do país de forma ilegal.


Na segunda parte - O Soldado - o personagem é Mustafa Faris (Yahya Mahayni), um militar sírio que sempre foi fiel à causa e ao governo. Mas ele passa a questionar seu trabalho e seus superiores após presenciar atrocidades e desvios de conduta. 

A suposta guerra contra terroristas que haviam lhe contado era, na verdade, uma maneira de eliminar os inimigos do governo, não importando o sexo ou a idade do "acusado".


Omar Sy é O Traficante, terceiro personagem. Ele é Marwan, um homem poderoso que mantém uma rede de tráfico de refugiados de quem ele extrai todas as economias para tirá-los ilegalmente da Turquia. 

Essas pessoas, que vivem em acampamentos vigiados pelo exército, querem deixar o país em busca de uma vida melhor na Grécia. Em troca, o traficante oferece um bote inflável inseguro e superlotado, dividido com outras dezenas de emigrantes.

Ao mesmo tempo em que despreza seus "passageiros", Marwan demonstra um amor carinhoso e verdadeiro por seu filho pequeno. E promete ao garoto, um dia, se mudar com ele para os Estados Unidos, a terra das oportunidades. Omar Sy, como esperado, tem uma ótima atuação, mesmo nos momentos de total silêncio.


Entre os refugiados do acampamento militar está nosso quarto personagem - O Poeta - de nome Fathi, papel vivido por Ziad Bakri. Ele, a esposa e os três filhos tentam fugir do local e procuram Marwan para viabilizar a viagem, mesmo sendo a opção mais insegura e perigosa. 

É no embarque para a "Terra Prometida", que todos esses personagens acabam se conhecendo e vão viver o mesmo perigo da travessia insana pelo Mar Mediterrâneo durante uma forte tempestade. 


O quinto caso - O Capitão - concretiza a trama. Ele é Stravos (Constantine Markoulakis), comandante de um dos navios da Guarda Costeira grega que resgata diariamente milhares de refugiados que chegam ao país em botes. Seu maior drama é não ter conseguido salvar todos. Mesmo assim não desiste, colocando muitas vezes sua família em segundo plano.

O sofrimento, as perdas, as escolhas, o desejo de proteger suas famílias e a fé formam a trama de "O Caso dos Estrangeiros". Apesar de terem vidas diferentes, enfrentam traumas semelhantes que as levam até mesmo questionar sua fé em Deus. 

Um viés que a Angel Studios vem apostando há tempos ao entregar produções de cunho religioso, algumas boas, que não extrapolam na pregação convencional. Uma que recomendo para assistir em família e está em cartaz nos cinemas é a animação "Davi - Nasce um Rei".


Além de Omar Sy, as atuações de Yasmine Al Massari e dos personagens principais das demais etapas são muito boas e sustentam a narrativa. 

Outro destaque do longa é a fotografia em tons frios e muitas vezes escuros, ressaltando o dilema de cada um e o reforçando que o futuro pode ser sombrio e vai exigir confiança, persistência e esperança.

"O Caso dos Estrangeiros" não é apenas um protesto do diretor Brandt Andersen, mas também uma forma de mostrar ao mundo um problema que precisa ter um basta, para que as pessoas parem de sofrer tentando fugir de seus países. Infelizmente, a solução está longe de vir de forma pacífica. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Brandt Andersen
Produção: The Reel Foundation, Philistine Films, SpaceArt Entertainment, Karma Film Productions
Distribuição: Paris Filmes e Angel Studios
Exibição: Cinemark Patio Savassi
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Jordânia, Território Palestino Ocupado e EUA
Gênero: drama

18 fevereiro 2026

“O Frio da Morte”: thriller gelado sobre amor, solidão e sobrevivência

Emma Thompson brilha como a viúva que precisa salvar uma jovem mantida como refém numa cabana
em meio a uma floresta coberta de neve (Fotos: Leonine Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Um thriller de ação tenso e surpreendente, de gelar os ossos - literalmente - e que prende o espectador na cadeira do início ao fim. Este é "O Frio da Morte" ("Dead of Winter"), que estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas, com uma atuação brilhante de Emma Thompson no papel principal.

Ela é Barb, uma mulher que acaba de perder o marido, com quem passou boa parte da vida. Para atender ao último desejo do esposo, parte em sua velha caminhonete em uma viagem solitária até o Lago Hilda, no norte de Minnesota, onde pretende espalhar as cinzas no local em que passaram as primeiras férias juntos. 


Durante o trajeto é surpreendida por uma forte nevasca e se perde nas estradas tomadas pela neve perto do lago. Ao parar para pedir informações em uma cabana isolada na floresta, Barb descobre que uma jovem chamada Leah (Laurel Marsden) está sendo mantida em cativeiro por um casal, interpretado por Judy Greer (Purple Lady) e Marc Menchaca (Camo Jacket). Sem ter a quem recorrer, ela vai fazer de tudo para salvar a refém. 

Desde o início, o filme provoca tensão ao mostrar a protagonista circulando sozinha durante a tempestade, mal conseguindo enxergar o caminho. 


O cenário gélido, o estranho dono da cabana que mal pronuncia dez palavras ao lhe dar informações e a companheira dele, com fúria e angústia nos olhos, reforçam a atmosfera inquietante. 

Durante a tentativa de resgate da jovem ocorrem várias reviravoltas. A violência é latente e em alguns momentos, explícita. Mas o que mais incomoda é a presença constante da morte - tanto nas memórias da viúva, presa aos dias bons e ruins com o marido falecido, quanto na relação desgastada dos sequestradores.


Barb é uma mulher pacífica, mas as circunstâncias a levam a tomar medidas extremas para salvar Leah. Sem querer defender os "bandidos", eles também têm seus motivos pessoais para agir como agem, o que evidentemente, não justifica os crimes cometidos.

Os cenários são uma atração à parte. Filmado na Finlândia, Canadá e Alemanha (mesmo com a história ambientada nos Estados Unidos), "O Frio da Morte" entrega belas imagens de montanhas e florestas cobertas de neve e lagos congelados. Difícil não sentir o vazio e a finitude que emanam do ambiente.


Leah torna-se o ponto em comum entre Barb e os sequestradores. Torce para ser salva pela viúva, mas não sabe se o socorro chegará a tempo de evitar seu seja morta por seus algozes. Mas ficou uma falha no roteiro: como ela conheceu o casal que a sequestrou?

Já Barb sente a morte ainda mais presente após a perda do marido, e a jovem Lhe oferece uma nova razão para viver. Algo semelhante ocorri com Purple Lady e Camo Jacket, que mantêm um relacionamento conturbado marcado por violência doméstica.


O longa permite diversas interpretações - algumas sutis, outras mais evidentes - cabendo a cada personagem revelar por que está ali: memórias que não podem ser esquecidas, saudade, solidão, perdas, relação abusiva, a luta pela sobrevivência. 

O frio da morte pode significar a queda da temperatura do corpo (hipotermia ) que pode matar, a rigidez cadavérica, o desejo de morrer e também o medo de que isso aconteça antes da hora.

"O Frio da Morte" é um filme que eu recomendo. Pena que a reviravolta final não tenha sido a que eu desejava, embora faça sentido dentro da trama. Vale conferir nos cinemas. Um lembrete: não esqueça de levar um casaco - o ar-condicionado parece tornar a experiência ainda mais fria, além da neve Coisa de gelar os ossos. Depois comenta aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Brian Kirk
Roteiro: Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb
Produção: Augenschein Filmproduktion e Stampede Ventures, com a coprodução da Leonine Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h38
Classificação: 14 anos
Países: EUA, Canadá e Alemanha
Gêneros: ação, suspense psicológico

17 novembro 2025

Impactante e necessário, "A Queda do Céu" finalmente entra em circuito no Brasil

Documentário aborda o alerta dos Yanomamis sobre os riscos climáticos que poderão afetar todo o planeta (Fotos: Gullane+)
 
 

Patrícia Cassese
Correspondente em Cannes

 
Em um período longínquo da história da Terra, o céu "caiu". A questão é que o evento pode se repetir - na verdade, para os Yanomamis, não há dúvida quanto a isso. Na primeira vez, os espíritos Xapiri conseguiram sustentar o firmamento. A grande dúvida é se, com a ameaça inclemente aos povos indígenas, e ao planeta como um todo, será possível repetir o feito.

Não por outro motivo, os xamãs Yanomamis alertam: nem aqueles que amealharam fortunas serão capazes de silenciar o vento da tempestade. O cataclisma será um tempo de lamentos. 

Essa profecia ocupa os primeiros minutos de "A Queda do Céu" (108'), documentário que teve première mundial na Quinzena dos Realizadores da edição 2024 do Festival de Cannes - que, aliás, o Cinema no Escurinho teve a oportunidade de acompanhar - e que agora entra em circuito nacional, com distribuição da Gullane+. Na Itália, o lançamento comercial também ocorre este mês.


A trajetória da produção

O longa é baseado no livro homônimo (Companhia das Letras, 768 páginas), escrito pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa e pelo antropólogo francês Bruce Albert, lançado no Brasil em 2015 (na França, em 2010). Na transposição para a telona, a direção é assinada por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. 

Desde Cannes, a produção participou de 80 festivais no Brasil e no mundo, tendo arrebanhado mais de 20 prêmios nacionais e internacionais neste percurso. 

Entre as láureas, estão o Grande Prêmio do Júri da Competição Kaleidoscope do festival DOC NYC (maior festival de documentários dos EUA); o Prêmio Especial do Júri da Competição Internacional no DMZ Docs 2024 (Coreia do Sul); melhor Longa Documentário Internacional no 27º Festival de Guanajuato GIFF 2024  (México); Prêmio Fundação INATEL no DocLisboa 2024 (Portugal) e o Prêmio Principal Fethi Kayaalp no Festival de Documentários Ecológicos de Bozcaada 2025 (Turquia).

Exibição do filme no Festival de Cannes
(Foto: Patrícia Cassese)

No Brasil, levou para casa o prêmio de Som e Direção de Documentário no Festival do Rio e o Prêmio ABC 2025 nas categorias Direção de Fotografia, Montagem e Som, para citar exemplos. No dia 13 de novembro, a “A Queda do Céu” teve uma exibição especial na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, com a presença de Kopenawa e de Eryk Rocha. 

A COP 30, você sabe, é tida como o principal fórum global visando a negociação de medidas de combate ao aquecimento do planeta, e reúne representantes de dezenas de países. A sessão teve lugar no Instituto Ciência de Arte, edifício histórico na Praça da República, por meio da 10ª Mostra de Cinema da Amazônia, em parceria com o Observatório do Clima. 


O ritual Reahu

Apresentações feitas, voltemos ao longa, que acompanha a comunidade de Watorikɨ, uma das aldeias Yanomami no Amazonas. Precisamente, às vésperas da realização do Reahu, ritual que marca a despedida final da alma de um falecido, bem como o encerramento do período de luto da comunidade.
 
No caso específico, a despedida concerne ao sogro de Kopenawa. A narrativa descreve práticas adotadas pelos Yanomami, como o apagamento de vestígios do falecido, o que se dá, por exemplo, com a queima de objetos pessoais (rede, adornos, flecha), bem como com as plantações por ele feitas. 

No desenrolar dos preparativos para o Reahu, como o preparo do mingau de banana, Kopenawa, bem como outros expoentes de Watoriki, compartilham reflexões e as ameaças que recaem sobre os yanomamis, principalmente no que tange ao avanço do garimpo ("que contaminam rios e os deixam turvos") e do interesse predador de madeireiros. 


Em dado momento, por meio do rádio transmissor, Kopenawa é avisado pela comunidade Koroas quanto à aproximação de uma leva de garimpeiros, e aconselha o interlocutar a tentar manter a calma possível, mediante a manifestação da vontade, por parte desse, de flechá-los. Os "estrangeiros", ou "inimigos", são chamados pelos Yanomami de "napës".

Invasão dos garimpeiros

Um parêntesis é feito no filme para falar sobre o início da invasão dos garimpeiros, que se deu com a construção da Perimetral Norte, nos primeiros anos de 1970. Neste período, a floresta e os povos indígenas assistiram, estupefatos, à chegada de tratores, motoserras, explosões com dinamite etc. "Cortaram florestas como se corta carne", aponta uma fala do filme. 

Além do maquinário, os napës trouxeram doenças. "Morreram velhos, adultos, moças, crianças...", enumera o filme. A busca pelo ouro, prata e outros metais, como a cassiterita, contam, culmina com a destruição de rios e do verde. Não bastasse, há, por parte das mulheres, o temor (justificado) do estupro. 


No entanto, no filme, os Yanomamis lembram que piores de que os próprios garimpeiros são aqueles que estão por trás dos "operários" aos quais a ação de destruição propriamente dita é delegada. 

Sonhos e espíritos

A questão dos sonhos é também abordada no documentário. "No sonho, tudo se esclarece", afiançam os Yanomamis. Principalmente quando o sonho se dá pelo poder do pó de yãkoana (ou yakoana), substância alucinógena de origem vegetal extraída da árvore de mesmo nome. Como pontua o longa, quando inalam o yãkoana, "os olhos morrem para enxergar os espíritos xapiri". 

Os espíritos xapiri são os donos da floresta, resistentes como as rochas. No Brasil, estima-se que existam, hoje, cerca de 31 mil Yanomamis. Com os que estão em território venezuelano, 35 mil. São, pois, a última morada dos xapiris.  

Raciocínio lógico dedutivo: como os xapiris são aqueles capazes de segurar o céu, se os Yanomamis desaparecerem, o cataclisma será inevitável. Virão inundações, epidemias... Um estado de caos, que, no filme, é reforçado por imagens em P&B de destruição (*). O homem branco, preveem os yanomamis, vai, então, chorar "como criança".


O alerta Yanomami, transmitido por meio de Davi Kopenawa, se alinha a gritos afins emitidos por outros povos originários, como os Krenak. São avisos que também se coadunam aos de ambientalistas, bem como de cidadãos comuns, preocupados com as mudanças climáticas em curso no planeta. Habitantes originários daquela que é a maior floresta tropical do mundo, os Yanomami têm atávico lugar de fala - e, assim, precisam ser ouvidos.

No entanto, mais que ecoar a advertência sobre a destruição das florestas - e, consequentemente, a ameaça que paira sobre os povos indígenas -, "A Queda do Céu" se destaca por mostrar pormenores de crenças, rituais e pensamentos Yanomamis, principalmente a partir do ritual fúnebre citado, mas não só. Pinturas, adereços, práticas, a culinária... 

Tudo isso faz de "A Queda do Céu" uma experiência riquíssima e impactante. Ao espectador menos enfronhado nas questões do povo Yanomami, aconselha-se apenas uma contextualização prévia quanto aos problemas enfrentados pelo grupo, até para melhor compreensão do que se desenovela na tela grande.


Complete a experiência

O Cinema no Escurinho sugere a leitura do livro homônimo de Kopenawa e Bruce Albert, bem como a de "O Desejo dos Outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami", da antropóloga Hanna Limulja. 

Do mesmo modo, assistir ao documentário Amazônia, a Nova Minamata?" (2022), de Jorge Bodanzky, disponível para compra ou aluguel no YouTube. Há, ainda, outras três iniciativas audiovisuais com Kopenawa:  "A Última Floresta", "Kopenawa: Sonhar a Terra-Floresta" e "Watoriki - Conversa com Davi Kopenawa". 

*Em tempo: "A Queda do Céu" insere trechos de "Os Bandeirantes" (1940), de Humberto Mauro, e de "La Nature" (2020), do documentarista e teórico armeno Artavazd Pelechian. 


Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha
Produção: Aruac Filmes, coprodução Hutukara Associação Yanomami, Stemal Entertainment com Rai Cinema e produção associada francesa de Les Films d'ici
Distribuição: Gullane+
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: Livre
Países: Brasil, Itália e França
Gênero: documentário

12 agosto 2025

"Juntos" até que a morte - ou algo pior - os separe

Terror corporal com Dave Franco e Alison Brie utiliza o sobrenatural para explorar uma relação de codependência (Fotos: Neon) 
 
 

Maristela Bretas

 
Com a proposta de ser um filme de terror corporal, "Juntos" ("Together"), que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas com roteiro e direção de Michael Shanks, mergulha no psicológico a partir de acontecimentos estranhos e sobrenaturais que afetam um casal.

Nos papéis principais estão Dave Franco ("Truque de Mestre: O 2º Ato" - 2016) e Alison Brie ("A Comédia dos Pecados" - 2020), casados na vida real, interpretando Tim, um músico que não consegue alcançar sucesso, e Millie, uma professora de inglês. 

Duas pessoas com objetivos opostos, mas que resolvem construir uma vida a dois em uma pequena cidade do interior dos EUA. 


Enquanto caminham por uma mata próxima à nova casa, eles caem em uma caverna durante uma tempestade e decidem acampar lá dentro durante a noite. 

Tim bebe de uma poça no local e, a partir daí, a vida do casal - e sua união - nunca mais será a mesma.

Mesmo vivendo um momento ruim e desgastado da relação, uma força estranha e dominadora faz com que permaneçam unidos, praticamente colados, ameaçando a sanidade de ambos, especialmente quando perdem o controle sobre seus próprios corpos. 


Na escola, Millie conhece Jamie (Damon Herriman, de "Era Uma Vez em... Hollywood" - 2019), um colega de trabalho, que entra vida do casal e agrava o problema ao explicar que "eles precisam ser um só para serem felizes e se tornarem inteiros". 

"Juntos" é um filme sobre relações e sobre uma dependência que chega a ser doentia entre duas pessoas, mesmo quando ambas desejam seguir caminhos diferentes. A trilha sonora acerta ao incluir a música "2 Become 1", das "Spice Girls", como referência ao enredo.


Terror sem sangue

O longa não aposta em sustos, mas apresenta várias cenas de possessão "incômodas" provocadas pela força sobrenatural que atua sobre o casal. A dos olhos é a mais angustiante. 

O sangue aparece pouco para um filme de terror, e há até alguns momentos de humor protagonizados por Tim, que provocam risos do público. 

O final pode surpreender por seguir uma linha diferente de outros filmes do gênero, mas não espere uma grande produção. Não é um filme indicado para quem pretende se casar ou começar uma vida a dois. Em "Juntos", a frase "Até que a morte os separe" ganha um novo significado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Michael Shanks
Produção: Picture Start, Princesa Pictures, 30West, Tango Entertainment
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 16 anos
Países: EUA/Austrália
Gênero: Terror psicológico

11 agosto 2025

“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” idealiza a "família perfeita" e peca em profundidade

Reboot dirigido por Matt Shakman apresenta a equipe em uma realidade paralela sem fazer referências a produções anteriores (Fotos: Marvel Studios)
 
 

Filipe Matheus
Parceiro do blog Maravilha de Cinema


A Marvel Studios trouxe de volta às telonas o “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” ("The Fantastic Four: First Steps") novo filme em cartaz em todo o Brasil, dirigido por Matt Shakman e baseado nos icônicos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby. 

O longa nos transporta para 1961, acompanhando um grupo de astronautas que, durante um voo experimental, é exposto a uma tempestade de raios cósmicos, resultando em seus superpoderes. Com as novas habilidades, eles se tornam os protetores de Nova York contra grandes vilões.

Este reboot apresenta a equipe em uma realidade paralela dentro do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), coexistindo com clássicos como “Vingadores” e “Guardiões da Galáxia” (2014, 2017 e 2023), sem fazer referências a produções anteriores do “Quarteto Fantástico”.


Elenco estelar

Uma curiosidade que agradou bastante aos fãs é a inclusão da Fundação do Futuro, organização idealizada por Reed Richards nos quadrinhos para usar a ciência em prol da humanidade. Ver essa parte da mitologia ganhando vida na tela grande é um deleite para quem acompanha as HQs, mostrando um cuidado com o material original.

O elenco estelar conta com Pedro Pascal ("Gladiador II" - 2024) como Reed Richards/Senhor Fantástico, Vanessa Kirby ("Missão: Impossível - Efeito Fallout" - 2018) como Sue Storm/Mulher Invisível, Joseph Quinn ("Um Lugar Silencioso: Dia Um" - 2024) como Johnny Storm/Tocha Humana e Ebon Moss-Bachrach ("O Urso" - 2024) como Ben Grimm/O Coisa. Apesar do esforço dos heróis, o filme peca no desenvolvimento dos conflitos, que por vezes carecem de profundidade.


Um dos pontos altos do longa é, sem dúvida, a performance de Joseph Quinn como Tocha Humana. Sua atuação é um show à parte e crucial para o andamento da história, adicionando uma camada de carisma e dinamismo à equipe. Ele consegue criar conflitos com os vilões sem forçar, diferente do Senhor Fantástico de Pedro Pascal, que se perde no papel.

Em contraste, o filme por vezes cai na idealização da “família perfeita” dos Fantásticos, o que soa um tanto superficial. Essa tentativa de retratar uma harmonia impecável acaba tirando um pouco do drama e da profundidade que a equipe poderia ter, deixando um gosto de “pura balela”.


Vilões pouco aproveitados

O icônico vilão Galáctus (Ralph Ineson, de "Resistência" - 2023) tenta chegar com tudo, mas acaba ofuscado pela Surfista Prateada, interpretada por Julia Garner ("A Hora do Mal" - 2025). A personagem, que deveria ter sido mais explorada, parece mais uma coadjuvante do que uma das vilãs centrais, um potencial perdido que poderia ter enriquecido muito mais a trama.

A expectativa para ver o “Quarteto Fantástico” nos próximos filmes dos “Vingadores” que fazem parte da Fase 6 do MCU é alta, mas também gera preocupações. A chance de eles aparecerem em “Vingadores: Doomsday” (que estreia este ano) pode ser um risco, embora faça parte da estratégia da Marvel de inserir seus personagens no multiverso.

No geral, o novo filme do “Quarteto Fantástico” entrega uma experiência mista. Há atuações de destaque e a promessa de uma equipe icônica no MCU, mas acaba pecando em seus personagens. É um reboot que tem seus momentos empolgantes, mas que poderia ter ido além na construção de conflitos e na profundidade dos heróis.


Ficha técnica:
Direção: Matt Shakman
Produção: Marvel Studios e 20th Century Fox
Distribuição: Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h55
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, ficção

11 outubro 2024

"Tempestade Ácida" entrega abordagem superficial sobre crise climática

Uma família tenta se unir para escapar de uma chuva tóxica que está destruindo cidades na França e matando pessoas e animais (Fotos: Laurent Thurin)


Maristela Bretas


O longa francês "Tempestade Ácida" ("Acide"), de 2023, apresenta uma proposta promissora: explorar os impactos devastadores da crise climática em uma família comum. No entanto, a execução deixa a desejar. O enredo, fragmentado e repleto de incoerências, prejudica o envolvimento do espectador com a obra. 

A caracterização dos personagens é superficial, e suas reações diante da catástrofe soam infantis e pouco realistas. Além disso, a abordagem da crise climática é superficial, perdendo a oportunidade de promover uma reflexão mais profunda sobre o tema. 


Dirigido por Just Philippot, o filme começa de forma confusa e, entra, gradualmente na questão ambiental, a partir de uma forte onda de calor que atinge a França e outros países. A primeira a chamar a atenção para o problema é a mimada e rebelde Selma (Patience Muncehnbach), cujos pais estão divorciados. É ela quem tenta alertar a família para os riscos de uma chuva ácida que pode atingir sua cidade e o restante do país.

O pai Michal (Guillaume Canet, de “O Homem Que Elas Amavam Demais” - 2015) e a mãe da jovem, Elise (Laetitia Dosch) só se convencem de que as nuvens, mais escuras que o normal, estão trazendo uma chuva fatal quando esta começa a cair, provocando ferimentos e mortes de pessoas e animais. Inicia-se, então uma fuga da população para se proteger do líquido ácido.


Entre uma chuvarada e outra, "Tempestade Ácida" avança, com alguns efeitos especiais medianos e uma sucessão de decisões erradas da família que chegam a irritar o espectador. A filha dá chiliques e os pais passam a mão na cabeça dela, enquanto as opções de sobrevivência vão ficando cada vez mais escassas. 

Comparado a outros filmes do gênero catástrofe, como "Tempestade: Planeta em Fúria" (2017) ou "No Olho do Tornado" (2014), cujas histórias são clichês mas conseguem entreter, o longa de Just Philippot não apresenta elementos que aumentariam seu impacto e até desviariam a atenção do enredo fraco. 

Faltam grandes efeitos especiais e uma trilha sonora marcante. Até mesmo a questão da ética das pessoas nas tentativas de sobrevivência é mal explorada. Um bom exemplo de uma abordagem mais profunda do tema é o recente "Sobreviventes - Depois do Terremoto" (2024).


A ambientação ocorre principalmente no campo, com imagens mais escuras que reforçam o tempo fechado provocado pelas tempestades. Mais uma incoerência, uma vez que a chuva ácida (que ninguém explica porque se tornou assim) atravessa paredes. 

As pessoas também não podem consumir a água, especialmente a dos rios, que está contaminada, mas fogem para áreas alagadas. Semelhante ao que ocorre em alguns filmes de terror em que as pessoas entram numa casa mal-assombrada com as luzes todas apagadas.

Apesar dos pontos negativos, "Tempestade Ácida" foi produzido com práticas sustentáveis, o que rendeu reconhecimento com o Prix Ecoprod no Festival de Cannes. A equipe reduziu o uso de combustíveis fósseis e implementou soluções ecológicas para mobilidade e consumo de energia. 


Mas mesmo com propostas ecologicamente corretas e a boa intenção do diretor de abordar a destruição gradual do planeta, "Tempestade Ácida" deixa a desejar e entrega uma trama fraca do início ao fim. Nem o esforço do elenco, que conta com nomes de talento, consegue salvar. 

A produção é uma das 400 disponíveis do catálogo do streaming Adrenalina Pura, especializado nos gêneros ação, catástrofe, terror e suspense. Ela pode ser acessada pelos aplicativos Prime Vídeo, Apple TV e Claro TV+. ou no site www.adrenalinapura.com.


Ficha técnica
Direção: Just Philippot
Produção: Pathé Films, France 3 Cinéma, Bonne Pioche Cinéma
Exibição: Disponível no Prime Vídeo, Apple TV e Claro TV+ no site www.adrenalinapura.com
Duração: 1h40
Classificação: 16 anos
País: França
Gênero: drama

14 setembro 2023

“A Noite das Bruxas” traz o sobrenatural para o universo do detetive Hercule Poirot

Filme com clima fantasmagórico refresca obra de Agatha Christie com algumas liberdades artísticas (Fotos: 20th Century Studios)


Eduardo Jr.


As adaptações de livros para as telonas ganharam mais um capítulo. A obra da vez leva a assinatura de uma velha conhecida de muitos leitores - e cinéfilos: Agatha Christie. Estreia nesta quinta-feira nos cinemas, “A Noite das Bruxas” (“A Haunting in Venice”), distribuído pela 20th Century Studios. 

O filme é dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh ("Assassinato no Expresso do Oriente", 2017), e se veste de certas liberdades sobre as páginas da escritora britânica.    


Como não poderia deixar de ser, o longa traz a tradicional pergunta “quem matou?”. Mas esta é uma das poucas características mantidas em relação ao livro “Hallowe’en Party”, lançado em 1969. 

Autorizados por James Prichard, bisneto de Agatha Christie e produtor executivo do longa, Branagh e o roteirista Michael Green deixaram de lado a história original, em que uma garota conhecida por revelar assassinatos é encontrada morta em uma bacia com maçãs durante uma festa de Halloween. 


Em “A Noite das Bruxas”, a direção optou por apresentar essa morte como uma queda do alto de um casarão amaldiçoado. O evento pode ter sido motivado por fantasmas ou por alguém do mundo dos vivos. Outra mudança foi a de levar para a Itália a história que originalmente se passa na Inglaterra. 

Na trama, o detetive Hercule Poirot está aposentado e vive em Veneza, se esquivando dos pedidos dos moradores para solucionar casos complexos. Até que ele é convidado pela amiga e escritora Ariadne Oliver, personagem de Tina Fey (da série do Star+ "Only Murders in the Building", 2022) para uma sessão espírita.


A sessão será conduzida pela famosa médium Joyce Reynolds, vivida por Michelle Yeoh ("Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo", 2022). E o que era uma missão para desmascarar uma médium, se transforma em uma investigação de assassinato com pitadas de thriller fantasmagórico.  

São apenas pitadas porque, embora o título “A Noite das Bruxas” evoque algum terror, o filme apresenta poucas cenas de susto. E o ceticismo do detetive também colabora para desafiar a possibilidade de o sobrenatural interferir no mundo dos vivos. Até que as crenças dele começam a ser desafiadas, mexendo com a cabeça do espectador.  


O longa inicia com uma determinada atmosfera e depois vai se transformando. Isso porque as cenas iniciais são mais solares e o protagonista é apresentado como figura metódica (quase cômica, eu diria) com suas manias e atração por doces. 

A música clássica também traz um clima de suspense, que dura pouco, por causa da encenação infantil preparada para a festa das bruxas. Mas não se engane, embora seja um teatrinho pra crianças, esta é só uma deixa do que está por vir. 


Apesar dessas percepções, este é o longa que melhor apresenta o clima das obras de Agatha Christie e o detetive Hercule Poirot na trilogia feita por Branagh. Explico: esta é a terceira vez que o ator e diretor irlandês adapta uma obra da escritora britânica. 

Além de “Assassinato no Expresso Oriente”, ele também adaptou e dirigiu “Morte no Nilo” em 2022, ambos no catálogo da Star+. Agora, a escolha de filmar em um casarão sombrio durante uma tempestade, com câmeras posicionadas de forma a reforçar que ali as coisas estão fora do normal, tira o público do estado de relaxamento. 


Soma-se a isso o jogo de investigação, a dúvida sobre a ocorrência ou não de eventos sobrenaturais, o questionamento da própria sanidade mental e o incômodo de suspeitar de todas as personagens - eu disse TODAS, sem exceção. 

Pode não ser a melhor adaptação de Agatha Christie, mas a diversão é garantida - e o final guarda surpresas. 


Ficha técnica:
Direção: Kenneth Branagh
Produção: Scott Free Productions, 20th Century Studios
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 12 anos
País: Estados Unidos
Gêneros: suspense, policial, drama

28 julho 2023

Gerard Butler passa quase duas horas numa “Missão de Sobrevivência”, fugindo de terroristas

Filme aborda a perseguição implacável contra o agente da CIA pelos desertos do Oriente Médio (Fotos: Leonine)


Maristela Bretas


Gerard Butler já está acostumado a muita ação, tiro, porrada e bomba. Mas desta vez, ele e seu amigo Navid Negahban são os alvos de terroristas na nova aventura do ator britânico, “Missão de Sobrevivência” (“Kandahar”), que estreou nessa quinta-feira nos cinemas. 

Claro que ele é o mocinho da história, vivendo o papel do agente da CIA Tom Harris, que precisa deixar o Afeganistão junto com seu intérprete, Mohammad ‘Mo’ Doud (papel do iraniano  Negahban, de “Aladdin” - 2019) após explodir uma unidade nuclear no Irã.

O filme tem muita ação e momentos tensos, já que a dupla precisa atravessar 640 quilômetros de deserto, passando por território hostil, para chegar a uma antiga base de resgate em Kandahar, que fica a 640 quilômetros de onde estão. 


Butler segue o mesmo estilo herói norte-americano com cara mal-humorada de outras produções que protagonizou. Como “Invasão a Londres” – 2016, (disponível no HBOMAX), “Tempestade – Planeta em Fúria” – 2017 (Telecine) e “Alerta Máximo” – 2023 (em exibição no Prime Vídeo). 

O “jeitão” do ator funciona e tem um público cativo que deve gostar do novo filme e esteja procurando outras opções nas salas de cinema. O enredo é bem conduzido, Gerard Butler e Navid Negahban entregam boas interpretações. 


Destaque para as cenas gravadas nos desertos - um espetáculo a parte de visual - e as perseguições, de carro, moto e caminhões. Os efeitos especiais também podem agradar quem procurar por um filme com muita ação. 

Vale reforçar que se trata de mais um longa para valorizar a atuação dos norte-americanos nos conflitos do Oriente Médio, especialmente contra o Estado Islâmico, colocando vários países como terroristas e eles como salvadores. 


O elenco é internacional, reunindo nomes como o australiano Travis Fimmel (da série “Vikings”– 2013 a 2016), o indiano Ali Fazal (o excelente “Victória e Abdul” – 2017) e vários outros atores britânicos, alemães, iranianos e sauditas.

Um ponto que pode atrapalhar a estreia de “Missão de Sobrevivência” foi ter acontecido uma semana depois dos fenômenos de bilheteria “Barbie” e “Oppenheimer”, além da disputa também com “Missão: Impossível – Acerto de Contas – Parte 1”. O longa está em cartaz nas salas Cineart Cidade e Del Rey e Cinemark BH Shopping e Pátio Savassi. 


Ficha técnica:
Direção: Ric Roman Waugh
Produção: Open Road
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h59
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação / suspense