29 outubro 2026

“O Bosque Selvagem”: uma animação mágica que encanta, assusta e emociona

Stop-motion levou cinco anos para ser criado e pode ser um dos favoritos na disputa por um Oscar em 2027 (Fotos: Laika Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare-se para uma produção fora do convencional, inteiramente em stop-motion, que impressiona pelo cuidado com cada detalhe e merece figurar entre as melhores animações dos últimos anos. Não por acaso, o filme alcançou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. 

Estou falando de “O Bosque Selvagem” ("Wildwood"), o projeto mais ambicioso da Laika Studios que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.

A animação surpreende pela criação minuciosa dos personagens, montados e fotografados quadro a quadro, e pelas cenas que encantam o espectador, mas também provocam medo e desconforto pela violência. 

Apesar de muito colorido e de apresentar um roteiro impecável, especialmente para o público adulto, o longa tem uma atmosfera sombria, com cenas envolvendo suicídio, imagens sangrentas e guerra, além de linguagem imprópria. Por isso, é indicado para maiores de 14 anos.


Mas “O Bosque Selvagem” vai muito além da aventura fantástica. É uma história sobre perdas: de um filho, de um irmão, das terras, da dignidade e até do respeito ao coletivo. A trama também encontra espaço para criticar a morosidade da burocracia, que tantas vezes atrasa a vida dos cidadãos sem oferecer soluções para seus problemas. 

A abordagem ganha profundidade ao explorar o luto, o amor materno e os laços familiares, além da luta para proteger a terra deixada pelos ancestrais.

Na cidade de Portland, no estado de Oregon (EUA), os moradores não se arriscam a entrar no misterioso Bosque Impassável, escondido além da ponte que liga a cidade à floresta. Durante um passeio de bicicleta com o irmãozinho Mac, a adolescente Prue McKeel (voz original de Peyton Elizabeth Lee e dublagem brasileira de Giulia Benite) vê o bebê ser levado por uma revoada de corvos comandados por uma feiticeira.


Desesperada para resgatar o irmão, Prue precisa enfrentar um lugar sobre o qual conhece apenas dos avisos do pai, que sempre a proibiu de se aproximar dali. 

Nessa jornada, ela conta com a companhia do amigo Curtis Mehlberg (voz original de Jacob Tremblay e dublagem brasileira de Pedro Burgarelli), um garoto tímido que gosta dela e sonha em se tornar um guerreiro para proteger a si mesmo e a pessoa amada.

Na mata sombria, os dois descobrem um mundo mágico, habitado por animais falantes, bandidos e figuras poderosas e cruéis. Seus habitantes vivem amedrontados, especialmente diante do exército de lobos comandado pela feiticeira Alexandra (Carey Mulligan), conhecida como a “Viúva do Governador”. Consumida pela vingança, ela também carrega a dor de ter perdido o filho.


Prue e Curtis enfrentam inúmeras aventuras e precisam conquistar a confiança dos habitantes da floresta, além de contar com a ajuda de seus anciãos e com os poderes da própria mata. 

A história reúne ainda um elenco de vozes de peso, com nomes como Mahershala Ali, Awkwafina, Angela Bassett, Jake Johnson e Charlie Day, entre outros.

Os números do stop-motion 

Segundo a produtora, o longa levou cinco anos para ser criado, em razão do delicado trabalho artesanal, realizado sem a utilização de inteligência artificial. 

Embora tenha recorrido à computação gráfica (CGI) para o acabamento visual, a animação foi construída a partir da técnica stop-motion, com personagens e cenários físicos fotografados quadro a quadro. 


Os números impressionam: foram mais de 1.155 dias de trabalho, do início à conclusão da produção, que chegou à versão final com 2.804 planos. As gravações aconteceram em 132 cenários práticos, construídos em 117 locações distintas. 

Cada personagem principal recebe um rosto único para cada quadro de animação, o equivalente a 24 rostos por segundo de filme, e cada um deles é preservado no acervo da Laika como uma obra de arte individual.

Os 142.030 rostos substituíveis criados para a animação eram trocados constantemente para transmitir as emoções dos 233 bonecos com o máximo de expressividade e naturalidade.

Para entender a escala de "O Bosque Selvagem":
  • Recorde no stop-motion: uma única cena exigiu 1.124 rostos substituíveis, 555 para Prue e 569 para Curtis. Segundo a Laika, é o maior número já usado em um único plano na história da técnica;
  • Lágrimas: 67 planos mostram lágrimas visíveis, mais de dez vezes o recorde anterior do estúdio, que pertencia a Os Boxtrolls, com apenas seis;

Galeria da preparação do filme

O Bosque Selvagem
  • Do minúsculo ao gigante: o menor boneco, a Mini Septima, tem apenas 4,1 cm de altura. O maior, a General, mede 86 cm do bico à cauda e tem 1,63 m de envergadura, a altura de um adulto;
  • Pena por pena: cada boneco da General carrega 3.794 penas colocadas individualmente;
  • Uma floresta feita à mão: 728 árvores artesanais representam dez espécies do noroeste do Pacífico. A armação mais alta chega a 5,72 m, quase a altura de um sobrado;
  • Do tamanho de dois campos de futebol: as filmagens ocuparam 112 palcos, em uma área de mais de 14.400 m²;
  • De São Paulo a Brasília em arame: a produção usou cerca de 1.151 km de arame de latão, mais que a distância rodoviária entre as duas cidades. Todo o material foi reciclado ao fim das filmagens.

“O Bosque Selvagem” é baseado no livro homônimo escrito por Colin Meloy (vocalista da banda The Decemberists), com ilustrações de sua companheira, Carson Ellis. A obra se tornou um best-seller do The New York Times em 2014. Foi nessa época que o diretor do filme conheceu o casal e se encantou com a história.

A adaptação para o cinema só começou a ganhar forma em 2021, com a participação de Chris Butler no roteiro. Ele também dirigiu “Link Perdido”, produção da Laika Studios vencedora do Globo de Ouro de 2019, disponível no Disney+.


O estúdio é responsável ainda por excelentes animações como “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) e “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), esta última também dirigida por Travis Knight. Ambos estão disponíveis nas plataformas Amazon Prime Video, YouTube, Apple TV e Google Play Filmes.

Entre os animadores do stop-motion está o mineiro Thiago Calçado, de Uberaba, que já havia trabalhado com Travis Knight em “Kubo e as Cordas Mágicas” e também foi animador sênior de "Pinóquio", de Guillermo del Toro (2022), vencedor do Oscar de Melhor Animação, e Marcelo Amp, especialista em moldagem e fundição de silicone.

Saiba Mais

Uma obra para sentir

“O Bosque Selvagem” é lindo, mágico e arrebatador. Encanta e choca, provoca espanto e arranca lágrimas. É uma obra em que todos os envolvidos na criação conseguiram transformar bonecos, cenários e movimentos minuciosamente planejados em sentimentos humanos verdadeiros, tratados com força e sensibilidade.

Saí da sessão encantada com a beleza e a criatividade da animação, mas também profundamente tocada pelas dores, pelos afetos e pelas perdas que ela retrata. É impressionante como uma história fantástica, construída quadro a quadro, consegue falar de sentimentos tão reais e universais.

Uma das melhores produções do ano e uma das melhores que assisti nos últimos tempos. O filme foge dos padrões, emociona sem subestimar o espectador e permanece na memória depois que as luzes da sala se acendem. Merece, sem dúvida, disputar — e ganhar — o Oscar de Melhor Animação em 2027.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler
Produção: Estúdios Laika
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: animação, drama, aventura
Nota: 5 (0 a 5)

28 outubro 2026

“Naza" espanta o público com o ódio e a tecnologia usados para mortes em massa em Gaza

Longa é um retrato dos sistemas de extermínio utilizados por Israel nos ataques a palestinos e israelenses (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Na abertura, a mensagem de que rostos e vozes foram alterados para a segurança das fontes ouvidas. É com clima de tensão que o documentário “Naza” se apresenta ao público e pode ser conferido no Cine Belas Artes. 

A aura de produção de risco tem razão de ser: filmado secretamente, durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o trabalho esmiúça os sistemas e tecnologias utilizados por Israel para realizar ataques em massa em Gaza.  

Vencedor do Prêmio Especial do Júri e aplaudido por 24 minutos pelo público no 83º Festival de Veneza, o documentário é uma produção do jornal britânico The Guardian e de James Wilson, com direção dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor. 

A dupla é responsável por “Zona de Interesse”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. Aqui no Brasil, a distribuição de "Naza" fica a cargo da Vitrine Filmes.  

Yuval Abraham e Rachel Szor

O documentário aborda a ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel e o massacre promovido pelo Hamas em 2023. É quando a Inteligência Artificial assume o papel de identificar alvos. 

A partir dos depoimentos de 24 ex-integrantes do Serviço de Inteligência Israelense, o longa expõe como uma estrutura de vigilância transforma dados pessoais e celulares em instrumentos de guerra, borrando a fronteira moral do que é um combatente e o que é um civil, destruindo casas ocupadas por crianças e esfacelando a possibilidade de ajuda humanitária. 


O nome “Naza” designa os danos colaterais, o número de civis que morrerão em um ataque. Em vez de contabilizar vidas e pessoas, contabilizam-se números, transformando mortes em estatísticas. Essa lógica, somada ao uso da tecnologia e aos rostos ocultos dos entrevistados, acaba por contribuir para tornar impessoal o ato de matar. 

Como se a responsabilidade pela destruição de famílias inteiras pudesse ser dissolvida no argumento de que é um sistema, apenas um procedimento. 

Sem ver os rostos de quem relata ou de quem sofre as consequências, corre-se o risco de perder a dimensão humana desses assassinatos. Ainda assim, os depoimentos chocam. 


Espantam justamente por revelar como a morte de inocentes pode ser tratada com frieza, mesmo quando as vítimas são pessoas que apenas convivem ou se relacionam com os alvos escolhidos. 

Na noite de Tel Aviv, as conversas nos telhados são emolduradas pelas vidraças dos prédios vizinhos, que parecem separar quem observa e quem é observado. Vidas e rotinas como a de qualquer pessoas que, em segundos podem não estar mais ali. O espectador chega a pressentir um ataque ao ouvir o soar de uma sirene de bombardeio aéreo.  

O documentário acerta na tentativa de colocar o espectador mais próximo daquele drama. Principalmente quando as imagens saem do alto dos prédios e cedem lugar a cenas reais de sobreviventes procurando familiares sob os escombros, entre gritos e corpos soterrados, inertes, estampados na tela sem refresco para quem assiste. 


Afinal, o choque talvez possa resgatar a humanidade que estamos perdendo dia após dia. Aí está a dimensão humana de decisões tomadas por militares mergulhados em ódio e algoritmos. Mais do que denunciar o emprego da tecnologia na guerra, “Naza” questiona a ética de um sistema no qual a eficiência operacional está acima da vida. Provoca ao colocar a morte de civis como dano calculável. 

Talvez o efeito mais perturbador da obra esteja em mostrar que a atrocidade não depende apenas do ódio explícito, mas também de procedimentos transformados em atos burocráticos, códigos, telas que tornam a violência aparentemente impessoal. 

Diante de uma destruição que persiste, o filme convoca o público para, em 80 minutos, reconhecer as vítimas para além das estatísticas. A questionar a normalização de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. 


Ficha técnica:
Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor
Produção: Jornal The Guardian, JW Films (Jim Wilson) e mk2 Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Idiomas: hebraico e inglês
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: documentário

27 outubro 2026

“As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” emociona ao falar de amizade, luto e recomeços

 Giulia Be e Any Gabrielly entregam interpretações emocionantes e demonstram sintonia na trama
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare os lencinhos, porque “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” faz muito marmanjo enxugar as lágrimas. O filme conta a história de duas amigas inseparáveis, Gabriela (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be), e aposta na emoção para conquistar o público. A premissa não é exatamente original, mas a química entre as duas atrizes funciona muito bem e dá força à narrativa.

A produção aborda temas delicados, como luto, depressão, relações familiares, redescobertas e, principalmente, a força da amizade, que pode permanecer mesmo depois da morte. Com sensibilidade, o longa acompanha as dificuldades de uma adolescente para lidar com a perda e encontrar coragem para mudar a própria vida.


Dirigido por Diego Freitas e baseado no livro "As Dez-vantagens de Morrer Depois de Você", de Fernanda De Castro Lima, o filme apresenta Gabriela e Julia, amigas desde a infância, mas com personalidades bastante diferentes. Gabi é reservada, tímida e tem medo de sair da própria zona de conforto. Julia, por outro lado, é extrovertida, carismática e aproveita a vida intensamente.

Tudo muda quando Julia sofre um acidente de carro. Antes de morrer, ela escreve dez cartas para a amiga, cada uma com um desafio destinado a ajudá-la a enfrentar seus medos e superar a timidez. As mensagens também levam Gabi a refletir sobre situações que poderia ter enfrentado de outra maneira se tivesse tido coragem de arriscar.


É nesse processo que surge Lorena (Pamela Germano), uma nova colega de escola que se aproxima de Gabi e a ajuda a cumprir as missões deixadas por Julia. Aos poucos, a protagonista começa a se reconectar consigo mesma, a compreender melhor o luto e a importância do perdão, além de descobrir que seguir em frente não significa esquecer quem se foi.

Música e emoção em cena

As duas entregam interpretações emocionantes, monstrando sintonia nos momentos mais delicados da trama. E a música tem papel importante na história e aproxima ainda mais as protagonistas. 


Giulia Be, conhecida também por sua atuação em “Depois do Universo” (2022) e do documentário “Toquinho Maravilhoso” (2024), divide a tela com Any Gabrielly, que faz sua estreia no cinema como atriz. 

Além de cantora e compositora, Any Gabrielly é conhecida por dar voz à personagem Moana em "Moana 2" (2024), da Disney, e por ter integrado o grupo internacional Now United, do qual foi representante brasileira até 2022.

A canção é um ponto comum entre as protagonistas. As duas interpretam canções originais que contribuem para a atmosfera emotiva do filme. Entre elas está “Te Olhando Daqui”, na voz de Giulia Be, uma das músicas que mais intensificam a carga emocional da narrativa e podem levar o público às lágrimas.


Já “Ecoar”, escrita e interpretada por Any Gabrielly em inglês, reforça a presença da música como elemento de conexão entre as personagens. A trilha sonora é assinada por Fábio Góes.

O elenco conta ainda com Sheron Menezzes e Paulo Lessa, que interpretam Márcia e André, pais de Gabi; Regiane Alves, no papel de Lili, mãe de Julia; e Léo Jaime, como Toninho, um senhor divertidíssimo que se torna amigo de Gabi durante um dos desafios. 

Michel Joelsas (Nico) e Daniel Rangel (Lucas) também participam da trama como interesses amorosos da protagonista, entre outros nomes.


Os clichês típicos dos dramas adolescentes estão presentes, mas não chegam a comprometer a narrativa. O filme consegue alternar tristeza e humor, sem perder de vista os conflitos de sua protagonista. 

Ao acompanhar a transformação de Gabi, a história convida o espectador a refletir sobre a importância de valorizar a vida, enfrentar os próprios medos e cuidar das pessoas que fazem parte dela.

Mais do que uma história sobre a perda, “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” fala sobre aprender a continuar vivendo. E lembra que, mesmo quando alguém parte, o afeto, as lembranças e tudo o que essa pessoa nos ensinou permanecem conosco.


Ficha técnica:
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Diego Freitas e Rod Azevedo
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama

25 outubro 2026

"Street Fighter": quando o videogame abraça a galhofa

Versão cinematográfica dirigida por Kitao Sakurai aposta nos personagens mais conhecidos da franquia
(Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
As adaptações de videogames vêm conquistando cada vez mais espaço nas telas do cinema como demonstram produções inspiradas em franquias como "Super Mario Bros.", "Minecraft", "Tomb Raider" e "Resident Evil". 

Em 2026, "Street Fighter," dirigido por Kitao Sakurai, ganha uma nova versão cinematográfica live-action que aposta nos personagens mais conhecidos da franquia, especialmente Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo). 

Ambientado em 1993, o longa combina torneios de luta, conspirações e conflitos do passado para transportar o universo dos jogos para as telas. Diferentemente da adaptação de 1994, protagonizada por Jean-Claude Van Damme no papel de Guile, a nova versão concentra boa parte de sua narrativa na relação entre Ryu e Ken. 


Sakurai abraça a galhofa que marcou o antecessor e transforma o exagero em parte fundamental da experiência. Entretanto, por trás das lutas e situações absurdas, existe espaço para explorar os conflitos pessoais dos protagonistas.

Ryu apresenta uma dimensão dramática mais intensa, marcada pela morte de seu mestre e pelo afastamento das competições. Seu conflito envolve não apenas o retorno às lutas, mas também a compreensão do Hadou, uma força que exige domínio físico, mental e espiritual. 

Essa abordagem oferece ao personagem uma jornada de autoconhecimento que contrasta com o tom irreverente de boa parte da produção.


Ken, por sua vez, é praticamente o oposto do antigo parceiro. Vaidoso, interessado na fama e acostumado a uma vida confortável, ele transforma até os próprios escândalos em espetáculo. Sua personalidade exagerada rende momentos cômicos e ajuda a estabelecer o contraste com a introspecção de Ryu. 

O filme também aposta em referências diretas aos jogos, incluindo situações reconhecíveis pelos fãs, como a destruição de carros, reforçando o fan service e a conexão com o material de origem.

Essa proposta aparece ainda na caracterização dos demais lutadores. Jason Momoa interpreta Blanka, personagem de aparência monstruosa, pele verde e capacidade de liberar descargas elétricas. Os efeitos visuais assumem uma estética artificial que parece dialogar com o absurdo dos games. 


Em vez de buscar realismo a todo custo, o longa abraça o aspecto cartunesco de seus personagens e poderes, fazendo do exagero uma escolha estética e cômica.

As participações de personagens como Honda e Balrog (50 Cent) ajudam a ampliar o universo da franquia, mas também evidenciam uma das limitações do filme. Embora "Street Fighter" apresente um elenco numeroso, nem todos recebem espaço suficiente para desenvolver suas histórias. 

Honda, Balrog, Dhalsim e Vega poderiam ter conflitos mais bem explorados, em vez de aparecerem principalmente para compor os confrontos e alimentar o reconhecimento dos fãs. O núcleo de antagonistas, em particular, acaba funcionando mais como uma reunião de lutadores do que como um conjunto de personagens com motivações próprias.


A narrativa converge para o confronto com Bison (David Dastmalchian), que deseja ampliar seu poder ao absorver a energia de Ryu. Esse objetivo conecta a ameaça externa à jornada do protagonista, enquanto Ken oferece um contraponto mais leve e irreverente. 

Ainda assim, a concentração da história nos dois personagens reduz as possibilidades de aprofundar os demais integrantes desse universo. É nesse ponto que o longa, embora divertido, também revela seus limites: reconhecer um personagem é satisfatório, mas conhecer melhor suas motivações poderia tornar sua presença mais significativa.

Também é importante reconhecer que "Street Fighter" possui uma identidade própria, construída em torno de golpes especiais, rivalidades e personagens que atravessaram gerações de jogadores. 


Embora seja possível estabelecer comparações com "Mortal Kombat", as franquias apresentam estilos distintos. Aqui, a experiência não depende apenas da reprodução das lutas, mas da capacidade de preservar o espírito exagerado, colorido e irreverente que tornou os jogos tão populares.

No fim, "Street Fighter" entende que nem toda adaptação precisa levar seu universo a sério o tempo inteiro. Ao abraçar a galhofa, o filme encontra espaço para combinar ação, humor, drama e nostalgia, ainda que deixe alguns personagens pelo caminho. Para os fãs, é um prato cheio de referências, golpes conhecidos e situações absurdas. 

Mais do que tentar transformar o videogame em um drama convencional, o filme reconhece que parte de sua força está justamente naquilo que parece exagerado demais para ser levado a sério. Afinal, quando o assunto é "Street Fighter", a diversão também faz parte da luta.


Ficha técnica:
Direção: Kitao Sakurai
Produção: Legendary Pictures, Capcom e Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, artes marciais

22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

21 outubro 2026

“Cara-de-Barro” transforma vilão da DC em um pesadelo de horror corporal

Saído dos quadrinhos, este é o primeiro terror do estúdio no cinema e apresenta o monstro de lama com superpoderes reais de metamorfose (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Com cenas violentas e brutais que chocam o público, “Cara-de-Barro” (“Clayface”), em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quarta-feira, é o primeiro filme de terror da DC Studios, baseado em um dos grandes inimigos de Batman nos quadrinhos.

O maior destaque da produção são os excelentes e assustadores efeitos visuais, que deixam muitos longas atuais do gênero no chinelo. A maquiagem e a transformação gradativa do personagem em monstro chegam a causar desconforto, em uma atmosfera sombria, semelhante à dos filmes recentes de Batman.


James Gunn, desde que assumiu como co-CEO da DC Studios, vem dando uma nova direção às produções do estúdio, apostando no terror e apresentando histórias diferentes das tradicionais aventuras de super-heróis e seus vilões.

Também merece elogios a ótima atuação de Tom Rhys Harries (“O Retorno” – 2024), no papel do ator Matt Hagen, que se transforma em um monstro metamorfo e cruel, sem piedade de seus inimigos.

A direção de James Watkins (“Não Fale o Mal” – 2024 e o roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini permitem que até o espectador que não acompanha as HQs conheça o personagem e entenda sua trajetória. A narrativa é didática, às vezes até demais, estendendo a trama além do necessário antes de colocar o monstro em cena.


Leia mais:
Na versão para o cinema, Matt Hagen é um jovem de Gotham City que se torna um dos grandes astros de Hollywood, mas tem a carreira interrompida ao ser atacado pela quadrilha de um chefão da máfia local, que o deixa totalmente desfigurado.

Traído por todos ao seu redor e desesperado, ele procura um tratamento experimental à base de uma substância biotecnológica, desenvolvido pela Dra. Caitlyn Corr, muito bem interpretada por Naomi Ackie (“Pisque Duas Vezes” – 2024 e “Mickey 17” – 2025). O procedimento promete restaurar sua aparência original.


Apesar de funcionar bem inicialmente, o tratamento começa a provocar reações inesperadas e bizarras, que afetam não apenas a aparência de Matt, mas também sua percepção da realidade. 

Ele se transforma no Cara-de-Barro, um monstro de argila vingativo e assassino, capaz de alterar a própria forma. Fazem parte também do elenco Max Minghella, Eddie Marsan e David Dencik.

Assim como “A Substância” (2024), “Cara-de-Barro” é um thriller de horror corporal (body horror) que explora a perda de identidade, a obsessão pela aparência e o desejo de vingança contra aqueles que traíram seus protagonistas.


Matt Hagen e Elisabeth Sparkle, personagem muito bem interpretada por Demi Moore em “A Substância”, não aceitam a própria aparência: ele foi desfigurado em um ataque; ela, uma apresentadora de TV, é descartada por ter envelhecido. 

Ambos recorrem a experimentos na tentativa de recuperar ou preservar a beleza e a juventude, mas acabam enfrentando consequências aterrorizantes.

O vilão das HQs

O primeiro Cara-de-Barro (Clayface) dos quadrinhos foi Basil Karlo, criado por Bill Finger e Bob Kane e fez sua primeira aparição na 40ª edição da revista Detective Comics, publicada em 1940. Ele era um ator de filmes de terror, sem superpoderes, que começou a cometer assassinatos usando as fantasias dos vilões que interpretava.


Matt Hagen foi o segundo personagem a assumir a identidade do vilão e, nas HQs da DC Comics, era um caçador de tesouros. Em “Batman: A Série Animada”, ele foi reimaginado como um astro de Hollywood que vê a carreira desmoronar após ser desfigurado em um acidente e acaba se transformando em uma criatura de lama. 

Também foi o primeiro Cara-de-Barro a ter poderes reais de metamorfose, com a capacidade de moldar o próprio corpo, assumir a forma de qualquer pessoa e transformar as mãos em armas.


“Cara-de-Barro” é um longa que surpreende  pelos efeitos gráficos — tão fortes que levam o espectador a desviar o olhar — e pela atuação excelente de Tom Rhys Harries, que incorpora com competência o ator narcisista transformado em um monstro de lama assassino. 

Drama e terror macabro se complementam nesta produção, mas o espectador deve estar preparado para cenas violentas e angustiantes, especialmente as que mostram procedimentos com agulhas e o uso de lâminas.

Um dos melhores filmes da DC Studios dos últimos tempos, sem um vilão que faz piadinhas ou acaba ficando bonzinho no final.


Ficha técnica:
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, ação, drama

18 outubro 2026

“Outra Mamãe”: terror psicológico surpreende com reviravolta e efeitos visuais

Jessica Chastain se transforma em criatura demoníaca para perseguir uma família (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Baseado no romance Incidents Around the House, de Josh Malerman, o longa “Outra Mamãe” (“Other Mommy”), em cartaz nos cinemas, é um terror psicológico e sobrenatural que conquista o espectador com bons efeitos visuais e uma reviravolta surpreendente. 

Convidado pelos parceiros @nerdeza e @canalfrednunes, o blog Cinema no Escurinho assistiu a uma sessão no @cineart_oficial do Shopping Boulevard e recomenda.

Na história, Bela (Arabella Olivia Clark), de 8 anos, vive com os pais, que enfrentam problemas conjugais. Apesar de receber bastante atenção do pai, Russ (Jay Duplass), a menina sofre com a ausência da mãe, Úrsula (Jessica Chastain), que passa pouco tempo em casa, e com os conflitos entre os dois.


É nesse cenário que Bela começa a interagir com uma entidade sinistra e manipuladora, que sai do armário e assume a aparência perfeita de sua mãe. O que os pais consideram apenas fruto da imaginação infantil se transforma em um pesadelo à medida que a criatura tenta tomar o lugar da mãe verdadeira e ameaça toda a família.

O filme explora os conflitos familiares, seus reflexos no comportamento das crianças e como essas fragilidades podem abrir espaço para a atuação de entidades sobrenaturais. O tema já foi explorado em diversas produções, como “Annabelle” (2014) e “M3GAN” (2022), ambas da Blumhouse, a mesma produtora de “Outra Mamãe”. Também vale lembrar “Mama” (2013), “Amizade Maldita” (2019) e “Imaginário: Brinquedo Diabólico” (2024), entre outros títulos do gênero.


Confira também:
Jessica Chastain entrega uma ótima interpretação da criatura que tenta tomar o corpo da criança. Mas o grande destaque fica para Arabella Clark. O olhar e as expressões da jovem atriz transmitem com clareza o medo da personagem, assim como a confiança que ela adquire ao lidar com os traumas familiares.

O elenco conta ainda com a veterana Karen Allen (Ruth, avó de Bela), Dichen Lachman (Lois Anthony) e Arian Moayed (Frank), entre outros. James Wan, diretor de “Invocação do Mal” e “Invocação do Mal 2”, assina a produção do longa.


Além das atuações de Chastain e Clark, “Outra Mamãe” se destaca pela maquiagem e pelos efeitos visuais, especialmente nas transformações da atriz na chamada Outra Mamãe. As cenas de suspense e terror também merecem atenção e seguem o estilo já conhecido das produções do gênero.

Em entrevista de divulgação do filme, Chastain contou que trabalhou as próprias expressões faciais para tornar sua personagem assustadora aos olhos da criança.


O título do filme também difere do livro e foi escolhido a partir da perspectiva infantil: a criatura assume a imagem da mãe que Bela gostaria de ter. Na obra literária, por outro lado, a entidade é descrita como um monstro gigante e peludo, bem diferente da figura apresentada na adaptação.

Apesar de recorrer a alguns clichês de produções semelhantes, o filme é bem conduzido pelo diretor Rob Savage e surpreende no desfecho. Uma dica: não se prenda ao trailer oficial, pois algumas cenas foram alteradas ou suprimidas na versão final.


Ficha técnica:
Direção: Rob Savage
Produção: Atomic Monster e Blumhouse Productions
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h33
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, suspense