22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

21 outubro 2026

“Cara-de-Barro” transforma vilão da DC em um pesadelo de horror corporal

Saído dos quadrinhos, este é o primeiro terror do estúdio no cinema e apresenta o monstro de lama com superpoderes reais de metamorfose (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Com cenas violentas e brutais que chocam o público, “Cara-de-Barro” (“Clayface”), em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quarta-feira, é o primeiro filme de terror da DC Studios, baseado em um dos grandes inimigos de Batman nos quadrinhos.

O maior destaque da produção são os excelentes e assustadores efeitos visuais, que deixam muitos longas atuais do gênero no chinelo. A maquiagem e a transformação gradativa do personagem em monstro chegam a causar desconforto, em uma atmosfera sombria, semelhante à dos filmes recentes de Batman.


James Gunn, desde que assumiu como co-CEO da DC Studios, vem dando uma nova direção às produções do estúdio, apostando no terror e apresentando histórias diferentes das tradicionais aventuras de super-heróis e seus vilões.

Também merece elogios a ótima atuação de Tom Rhys Harries (“O Retorno” – 2024), no papel do ator Matt Hagen, que se transforma em um monstro metamorfo e cruel, sem piedade de seus inimigos.

A direção de James Watkins (“Não Fale o Mal” – 2024 e o roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini permitem que até o espectador que não acompanha as HQs conheça o personagem e entenda sua trajetória. A narrativa é didática, às vezes até demais, estendendo a trama além do necessário antes de colocar o monstro em cena.


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Na versão para o cinema, Matt Hagen é um jovem de Gotham City que se torna um dos grandes astros de Hollywood, mas tem a carreira interrompida ao ser atacado pela quadrilha de um chefão da máfia local, que o deixa totalmente desfigurado.

Traído por todos ao seu redor e desesperado, ele procura um tratamento experimental à base de uma substância biotecnológica, desenvolvido pela Dra. Caitlyn Corr, muito bem interpretada por Naomi Ackie (“Pisque Duas Vezes” – 2024 e “Mickey 17” – 2025). O procedimento promete restaurar sua aparência original.


Apesar de funcionar bem inicialmente, o tratamento começa a provocar reações inesperadas e bizarras, que afetam não apenas a aparência de Matt, mas também sua percepção da realidade. 

Ele se transforma no Cara-de-Barro, um monstro de argila vingativo e assassino, capaz de alterar a própria forma. Fazem parte também do elenco Max Minghella, Eddie Marsan e David Dencik.

Assim como “A Substância” (2024), “Cara-de-Barro” é um thriller de horror corporal (body horror) que explora a perda de identidade, a obsessão pela aparência e o desejo de vingança contra aqueles que traíram seus protagonistas.


Matt Hagen e Elisabeth Sparkle, personagem muito bem interpretada por Demi Moore em “A Substância”, não aceitam a própria aparência: ele foi desfigurado em um ataque; ela, uma apresentadora de TV, é descartada por ter envelhecido. 

Ambos recorrem a experimentos na tentativa de recuperar ou preservar a beleza e a juventude, mas acabam enfrentando consequências aterrorizantes.

O vilão das HQs

O primeiro Cara-de-Barro (Clayface) dos quadrinhos foi Basil Karlo, criado por Bill Finger e Bob Kane e fez sua primeira aparição na 40ª edição da revista Detective Comics, publicada em 1940. Ele era um ator de filmes de terror, sem superpoderes, que começou a cometer assassinatos usando as fantasias dos vilões que interpretava.


Matt Hagen foi o segundo personagem a assumir a identidade do vilão e, nas HQs da DC Comics, era um caçador de tesouros. Em “Batman: A Série Animada”, ele foi reimaginado como um astro de Hollywood que vê a carreira desmoronar após ser desfigurado em um acidente e acaba se transformando em uma criatura de lama. 

Também foi o primeiro Cara-de-Barro a ter poderes reais de metamorfose, com a capacidade de moldar o próprio corpo, assumir a forma de qualquer pessoa e transformar as mãos em armas.


“Cara-de-Barro” é um longa que surpreende  pelos efeitos gráficos — tão fortes que levam o espectador a desviar o olhar — e pela atuação excelente de Tom Rhys Harries, que incorpora com competência o ator narcisista transformado em um monstro de lama assassino. 

Drama e terror macabro se complementam nesta produção, mas o espectador deve estar preparado para cenas violentas e angustiantes, especialmente as que mostram procedimentos com agulhas e o uso de lâminas.

Um dos melhores filmes da DC Studios dos últimos tempos, sem um vilão que faz piadinhas ou acaba ficando bonzinho no final.


Ficha técnica:
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, ação, drama

18 outubro 2026

“Outra Mamãe”: terror psicológico surpreende com reviravolta e efeitos visuais

Jessica Chastain se transforma em criatura demoníaca para perseguir uma família (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Baseado no romance Incidents Around the House, de Josh Malerman, o longa “Outra Mamãe” (“Other Mommy”), em cartaz nos cinemas, é um terror psicológico e sobrenatural que conquista o espectador com bons efeitos visuais e uma reviravolta surpreendente. 

Convidado pelos parceiros @nerdeza e @canalfrednunes, o blog Cinema no Escurinho assistiu a uma sessão no @cineart_oficial do Shopping Boulevard e recomenda.

Na história, Bela (Arabella Olivia Clark), de 8 anos, vive com os pais, que enfrentam problemas conjugais. Apesar de receber bastante atenção do pai, Russ (Jay Duplass), a menina sofre com a ausência da mãe, Úrsula (Jessica Chastain), que passa pouco tempo em casa, e com os conflitos entre os dois.


É nesse cenário que Bela começa a interagir com uma entidade sinistra e manipuladora, que sai do armário e assume a aparência perfeita de sua mãe. O que os pais consideram apenas fruto da imaginação infantil se transforma em um pesadelo à medida que a criatura tenta tomar o lugar da mãe verdadeira e ameaça toda a família.

O filme explora os conflitos familiares, seus reflexos no comportamento das crianças e como essas fragilidades podem abrir espaço para a atuação de entidades sobrenaturais. O tema já foi explorado em diversas produções, como “Annabelle” (2014) e “M3GAN” (2022), ambas da Blumhouse, a mesma produtora de “Outra Mamãe”. Também vale lembrar “Mama” (2013), “Amizade Maldita” (2019) e “Imaginário: Brinquedo Diabólico” (2024), entre outros títulos do gênero.


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Jessica Chastain entrega uma ótima interpretação da criatura que tenta tomar o corpo da criança. Mas o grande destaque fica para Arabella Clark. O olhar e as expressões da jovem atriz transmitem com clareza o medo da personagem, assim como a confiança que ela adquire ao lidar com os traumas familiares.

O elenco conta ainda com a veterana Karen Allen (Ruth, avó de Bela), Dichen Lachman (Lois Anthony) e Arian Moayed (Frank), entre outros. James Wan, diretor de “Invocação do Mal” e “Invocação do Mal 2”, assina a produção do longa.


Além das atuações de Chastain e Clark, “Outra Mamãe” se destaca pela maquiagem e pelos efeitos visuais, especialmente nas transformações da atriz na chamada Outra Mamãe. As cenas de suspense e terror também merecem atenção e seguem o estilo já conhecido das produções do gênero.

Em entrevista de divulgação do filme, Chastain contou que trabalhou as próprias expressões faciais para tornar sua personagem assustadora aos olhos da criança.


O título do filme também difere do livro e foi escolhido a partir da perspectiva infantil: a criatura assume a imagem da mãe que Bela gostaria de ter. Na obra literária, por outro lado, a entidade é descrita como um monstro gigante e peludo, bem diferente da figura apresentada na adaptação.

Apesar de recorrer a alguns clichês de produções semelhantes, o filme é bem conduzido pelo diretor Rob Savage e surpreende no desfecho. Uma dica: não se prenda ao trailer oficial, pois algumas cenas foram alteradas ou suprimidas na versão final.


Ficha técnica:
Direção: Rob Savage
Produção: Atomic Monster e Blumhouse Productions
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h33
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, suspense

16 outubro 2026

“Verity”: até onde alguém iria para ocupar o lugar de outra pessoa?

Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett protagonizam o longa baseado na obra literária
homônima de Colleen Hoover (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Das páginas para a tela, “Verity”, em cartaz nos cinemas, adapta o romance homônimo de suspense psicológico publicado em 2018 pela escritora Colleen Hoover. Dirigido por Michael Showalter, o filme reúne Dakota Johnson, Anne Hathaway e Josh Hartnett em uma trama marcada por segredos familiares, manipulação e dúvidas sobre a fronteira entre verdade e ficção.

A história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora contratada para concluir a série de livros policiais de sucesso de Verity Crawford (Anne Hathaway), afastada de suas atividades profissionais após sofrer um grave acidente. 

Lowen conhece Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, e ao chegar à casa do casal, encontra escritos perturbadores que levantam dúvidas sobre o passado da família e a verdadeira personalidade da escritora.


Um dos acertos do longa está na escolha do elenco, especialmente na escalação de Anne Hathaway como Verity. Mesmo com movimentos limitados e poucas expressões, seu personagem transmite inquietação e constrói uma presença que desperta dúvida e desconfiança. 

A atriz, que vem mostrando maturidade a cada nova produção, deixa de lado o rostinho quase inocente de Andy Sachs, de "O Diabo Veste Prada" e sua continuação para assumir contornos sombrios que garantem o suspense da trama. 


Dakota Johnson também entrega uma atuação consistente, embora não apresente grandes novidades em relação a trabalhos anteriores. Há momentos em que parece reproduzir seu papel como Anastasia Steele, da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" (2015, 2017 e 2018). 

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Já Josh Hartnett mantém aquela expressão de quem não é muito confiável, mesmo interpretando um bom pai e marido. Sua atuação lembra muito o papel dele como pai no suspense "Armadilha" (2024), dirigido por M. Night Shyamalan.


Mas é na trajetória da personagem de Dakota Johnson que a produção encontra espaço para discutir pertencimento e identidade. Ao entrar no universo dos Crawford, a jovem escritora descobre não apenas uma oportunidade profissional, mas também uma realidade que parece reunir tudo aquilo que ainda não conquistou: sucesso, reconhecimento, estabilidade financeira e uma vida familiar consolidada. 

A proximidade com Verity e Jeremy faz com que Lowen se envolva cada vez mais naquele ambiente, como se pertencer àquele universo também significasse conquistar um lugar de destaque na própria vida. 

Esse desejo ultrapassa a esfera profissional. A relação com os Crawford envolve o interesse por Jeremy e a aproximação com a dinâmica familiar, incluindo o vínculo dele com o filho. Lowen se sente atraída não apenas pelo que Verity representa como escritora, mas também por tudo o que existe ao redor dela. 


A questão central está justamente na tentativa de se aproximar de uma realidade alheia. Até que ponto admirar a vida de alguém pode se transformar no desejo de ocupar seu lugar? Essa busca evidencia as contradições de Lowen e a maneira como suas ambições influenciam suas escolhas. 

Mais do que descobrir quem é a mulher por trás dos livros, ela precisa confrontar quem deseja ser e o que está disposta a fazer para alcançar aquilo que admira.

O roteiro, entretanto, poderia explorar melhor a trajetória de Lowen. Conhecer mais sobre sua carreira, seus desafios e a maneira como conquistou seus leitores ajudaria a compreender por que o sucesso de Verity exerce tanta influência sobre ela. 


A ausência destas informações enfraquece parte do conflito, pois a construção da identidade profissional da protagonista merecia mais espaço antes de sua entrada naquele universo. 

Com um desenvolvimento mais aprofundado, suas inseguranças e ambições poderiam ganhar maior complexidade, tornando suas decisões ainda mais significativas. 

Outro aspecto interessante está no uso da metalinguagem. A escrita deixa de ser apenas parte da profissão das personagens e se transforma em um elemento fundamental para o suspense. Os textos de Verity alimentam as dúvidas sobre os acontecimentos e colocam em discussão a relação entre realidade, memória e ficção. 


Ao assumir a responsabilidade de concluir a obra da escritora, Lowen passa a lidar não apenas com uma narrativa literária, mas também com versões conflitantes sobre a identidade de quem a escreveu. O recurso mantém o espectador envolvido e reforça a incerteza sobre o que pode ser considerado verdade.

O desfecho em aberto também pode dividir opiniões. Ao deixar algumas questões sem respostas definitivas, o filme convida o público a reconsiderar as atitudes dos personagens e as motivações por trás de suas escolhas. 

Essa ambiguidade combina com a proposta do suspense psicológico, embora possa frustrar quem espera uma resolução mais conclusiva. Afinal, quando cada personagem parece ter seus próprios interesses, determinar em quem acreditar se torna parte da experiência.


Adaptações

Entre as adaptações das obras de Colleen Hoover para o cinema, “Verity” segue um caminho diferente de “É Assim que Acaba” e “Se Não Fosse Você”, ambos de 2025. Enquanto esses títulos exploram principalmente relacionamentos amorosos, conflitos familiares e marcas emocionais, o novo longa aposta em uma atmosfera mais sombria, marcada por segredos, traições, intrigas e manipulação. 

A mudança de abordagem amplia as possibilidades de adaptação da autora para além do romance dramático, embora o resultado também dependa da capacidade de aprofundar os conflitos apresentados.


Apesar do interesse os admiradores de Colleen Hoover, evidenciado pela bilheteria, o filme tem recebido duras críticas em relação à construção do roteiro. Um dos pontos negativos é o plot twist do final que não provoca o mesmo impacto da obra literária. 

Para quem não leu o livro e procura um suspense psicológico marcado por mistérios e ambiguidades, "Verity" apresenta um resultado positivo, mas não chega a ser excepcional, como se esperava, especialmente considerando o elenco. 

No fim, a história não questiona apenas quem diz a verdade, mas também o que acontece quando o desejo de pertencer interfere na maneira como nos enxergamos. Afinal, ao tentar ocupar o lugar de outra pessoa, será que ainda conseguimos reconhecer quem somos e o que realmente queremos para nós mesmos?


Ficha técnica:
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Nick Antosca
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense psicológico, drama

15 outubro 2026

“Dentro da Baleia” sufoca no suspense, mas afunda no drama familiar

 
Thriller de sobrevivência com Austin Abrams e Josh Brolin é baseado no romance “Whalefall”, de
Daniel Kraus (Fotos: 20th Century Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
A proposta era boa: deixar o espectador angustiado e até sufocado ao acompanhar o desespero do protagonista. Até a metade do longa, as cenas em que o mergulhador é engolido pelo animal e tenta escapar de dentro dele prendem a atenção e convencem.

Mas, da metade para frente, “Dentro da Baleia” (“Whalefall”) abandona o suspense de sobrevivência, até então tenso e bem conduzido, para se transformar em uma história arrastada sobre a relação mal resolvida entre pai e filho. O impacto se perde, e a baleia passa a ser apenas um pano de fundo. O filme estreia nesta quinta-feira nos cinemas.


Baseada no romance “Whalefall”, de Daniel Kraus, que também assina o roteiro, a produção conta com ótimos efeitos visuais, mas peca ao desviar o foco para os flashbacks do protagonista. As lembranças se prolongam mais do que a carga de um cilindro de oxigênio e a paciência de quem está assistindo permitem.

A trama acompanha Jay Gardiner (Austin Abrams), um jovem que viaja até a costa da Califórnia para tentar fazer as pazes com a própria consciência. Para isso, mergulha no mar em busca dos restos mortais do pai, Mitt Gardiner (Josh Brolin), que está desaparecido.


Mesmo alertado sobre os perigos, Jay insiste em levar sua missão adiante. Só não contava que seria engolido por uma gigantesca baleia-cachalote, de 25 metros e 60 toneladas. Com apenas uma hora de oxigênio, ele trava uma luta desesperada pela sobrevivência.

Preso dentro do animal, o jovem também embarca em uma jornada emocional de luto e reconciliação com o pai. São as lembranças e os ensinamentos deixados por ele que poderão ajudar Jay a encontrar uma saída.


Austin Abrams e Josh Brolin, conhecido por interpretar o vilão Thanos em “Vingadores: Guerra Infinita” (2018) e “Vingadores: Ultimato” (2019), já haviam trabalhado juntos em “A Hora do Mal” (2025). Também integram o elenco Elisabeth Shue, John Ortiz, Jane Levy e Emily Rudd, mas seus talentos são pouco aproveitados.

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O filme é claustrofóbico e não recomendo a experiência para quem não suporta lugares fechados e apertados. Algumas cenas, realmente angustiantes, funcionam e sustentam a tensão.


Outras situações, porém, irritam por serem absurdas e facilmente evitáveis. É claro que a estupidez humana é capaz de coisas que até Deus duvida, e o roteiro deixa isso bem evidente nas decisões de Jay.

Merecem elogios a atuação e a entrega física de Austin Abrams na luta pela sobrevivência, assim como o trabalho de Josh Brolin. São os dois que ajudam a sustentar uma história dividida entre o thriller de suspense e o drama familiar. 

Destaque também para a fotografia de Aaron Morton e a trilha sonora de Joseph Trapanese, que contribuem para tornar o ambiente ainda mais desesperador.


O principal problema está na condução da segunda metade. O diretor Brian Duffield parece preso à história original, escrita pelo próprio Daniel Kraus, e aposta mais nos flashbacks do que na luta pela sobrevivência. 

O resultado é um longa arrastado, previsível e cansativo no desfecho, com direito a uma mensagem de união familiar bem ao estilo dos estúdios produtores. A produção também tem lançamento previsto na plataforma Disney+ após sua passagem pelos cinemas.

“Dentro da Baleia” é um filme com boas ideias e potencial para ir muito além do que entrega. Mas, infelizmente, perde em impacto até para a história bíblica de Jonas e a baleia e para a animação “Pinóquio”. 

A cachalote — com seu esôfago — e a lula gigante merecem ser consideradas as grandes coadjuvantes da produção. Sem elas, nada aconteceria e tudo não passaria de um drama familiar.


Ficha técnica:
Direção: Brian Duffield
Roteiro: Daniel Kraus
Produção: 20th Century Studios, Imagine Entertainment, 3 Arts Entertainment, Jurassic Party Productions
Distribuição: Walt Disney Studios e 20th Century Studios
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, drama

12 outubro 2026

"Zona Zero": muito zumbi, pouca criatividade e quase nenhum terror

Longa de terror se passa dentro de um centro de convenções em Seul após um ataque terrorista que
espalha um vírus mutante (Fotos: Divulgação)
 
 

Maristela Bretas

 
Poderia ser um bom filme de terror sobre pessoas transformadas em zumbis. Mas a produção sul-coreana "Zona Zero" ("Colony") é facilmente esquecível. Não apresenta novidades, não provoca sustos nem cria suspense, e os efeitos visuais deixam muito a desejar.

A história gira em torno de um atentado bioterrorista contra uma empresa que trabalha com biotecnologia. Um vírus modificado é espalhado propositalmente em um centro de convenções em Seul, na Coreia do Sul, por um ex-cientista vingativo, transformando as pessoas em zumbis violentos e carnívoros.


A contaminação acontece a cada mordida de um infectado em uma nova vítima. Um pequeno grupo, liderado pela professora e pesquisadora Se-Jeong (Jun Ji-hyun), precisa encontrar uma maneira de escapar do local e sobreviver.

Nada de novo. Já vimos histórias semelhantes em outras produções do diretor Yeon Sang-ho, como "Invasão Zumbi" e "Invasão Zumbi 2". Tudo é previsível, a começar pelos personagens, cujos destinos parecem traçados desde o início.


Os zumbis até convencem, mas as atitudes de alguns personagens durante a tentativa de fuga são irritantes. Há momentos em que dá mais vontade de torcer para que os contaminados acabem logo com os sobreviventes do que de acompanhar a luta deles para escapar.

O longa poderia ter explorado melhor os recursos visuais para criar uma experiência de terror mais impactante. Mas o roteiro parece pouco disposto a arriscar. Aposta em uma fórmula desgastada, com uma trama fraca que se arrasta por mais de duas horas.


As cenas de ataque e perseguição movimentam o filme, mas são previsíveis demais para criar a tensão esperada em uma produção de terror. Nem mesmo quando os contaminados começam a evoluir e formar uma colônia (como sugere o título original) a trama consegue surpreender ou provocar o suspense que a situação exige.

"Zona Zero" tem ação de sobra, mas falta criatividade para surpreender o espectador. Apesar de já ter conquistado fãs nos países onde foi exibido, o longa pode não agradar a quem espera novidades no gênero. 

Resta saber como o público brasileiro vai recebê-lo a partir desta quinta-feira (15), data de estreia nos cinemas. Para quem busca sustos e suspense, a produção deixa muito a desejar.


Ficha técnica:
Direção: Yeon Sang-Ho
Produção: Wow Point, Smilegate, Midnight Studio e Showbox
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h02
Classificação: 16 anos
País: Coreia do Sul
Gênero: terror

10 outubro 2026

Cine Humberto Mauro mostra esplendor da China que poucos conhecem

Serão apresentadas dez produções audiovisuais chinesas abordando a história, a cultura e o desenvolvimento tecnológico do país (Crédito: China Media Group)
  
 

Da Redação

 
Nos dias 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados), com entrada sempre gratuita, o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, recebe a mostra “Ciclo China em Perspectiva”. Serão exibidas dez produções audiovisuais chinesas feitas entre 2023 e 2025, entre longas-metragens, curtas e uma série.

Os documentários percorrem diferentes dimensões da vida e da sociedade chinesas, destacando também a herança milenar e o desenvolvimento tecnológico, revelando facetas diversas de uma sociedade que já existe há cerca de 4 mil anos e se consolida cada vez mais no cenário global. 

A China é o segundo país mais populoso e segundo mais rico do mundo. Em 2026 é celebrado o Ano Cultural Brasil–China, marco que amplia as possibilidades de encontro e intercâmbio entre os dois países por meio da arte e da cultura. 


Em Minas Gerais, as comemorações ganham um significado ainda mais especial: o Estado completa 30 anos do acordo de irmanamento com a Província de Jiangsu, estabelecendo uma trajetória de aproximação que se renova, neste ano, por meio de diferentes ações culturais e institucionais. 

A programação começou no dia 1º de outubro, Dia Nacional da China, e segue até o fim do mês, com exibições regulares as terças e quintas-feiras, às 16h, e aos sábados, às 15h, incluindo documentários e programas audiovisuais chineses.

Além de abordar tradições milenares, patrimônio arquitetônico, gastronomia, paisagens e memória histórica, os filmes também acompanham a juventude, o desenvolvimento das cidades, a inovação tecnológica e os desafios da China contemporânea. 

"O Esplendor das Cidades”

No dia 13 (terça-feira), às 16 horas, será exibida a série "Milagre" (2025), de Shen Yan, dividida em quatro episódios: "Encontro na Floresta", uma emocionante história sobre o vínculo entre mãe e filho e a proteção dos animais; "Wing Chun", que conta a história de Chang Hongji, uma criança apaixonada pela dança em Nanyang, na província de Henan, que se tornou um ator de teatro de dança capaz de, em uma mesma expressão artística, unir as artes marciais e a dança. 

Os outros dois episódios são "Superando Obstáculos" - uma mãe, para ajudar o filho desempregado, mas enfrenta repetidos obstáculos devido à idade, à falta de habilidades específicas e às barreiras linguísticas; e "Vidas em Ascensão", uma história sobre crescimento, luta e emoções entrelaçadas, que se desenrola de 2011 a 2025 envolvendo a faxineira de um prédio comercial em Shenzhen e um jovem, mostrando como eles passam do primeiro encontro ao apoio mútuo e, finalmente, ao crescimento conjunto.

“Canção do Rio Amarelo” 

Entre os destaques da curadoria está o longa-metragem “Canção do Rio Amarelo” (2024), de Fan Zhiyuan, que será exibido no dia 15 de outubro. O filme acompanha o curso milenar e impetuoso do Rio Amarelo, traçando um amplo panorama da trajetória da civilização chinesa, desde suas origens até seu desenvolvimento ao longo dos séculos. 

A obra explora em profundidade os principais elementos culturais intimamente ligados ao Rio Amarelo em diferentes períodos históricos — da Pré-História às dinastias Qin e Han, passando pelas dinastias Tang e Song, Ming e Qing, até a era moderna. 

"Sabores da China"

Já no dia 17 (sábado), haverá sessão dupla. O público poderá fazer um mergulho na culinária do país asiático assistindo o curta "China através do seu Patrimônio Cultural Imaterial - Província de Fujian". Na sequência, o filme “Sabores da China” (2025), de Cai Yaqian, Gao Yue e Tu Xiaohe, é uma grande celebração da gastronomia chinesa, na qual chefes de diferentes regiões do país competem e demonstram suas habilidades culinárias. 

Por meio de técnicas criativas e inovadoras, são apresentados pratos marcados por fortes características regionais, que revelam o cotidiano, as tradições, as trocas e a riqueza cultural presentes nas gastronomias locais. 

"Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs"

No dia 20 haverá também sessão dupla a partir das 16 horas com o curta "Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs", que reúne diversos robôs inovadores e os engenheiros responsáveis por seu desenvolvimento, combinando análises de especialistas com apresentações artísticas. 

A  segunda produção é o documentário "China Rumo ao Futuro", de Wei Keran (2025), que acompanha três observadores de diferentes áreas profissionais em uma jornada pelos quatro principais agrupamentos urbanos da China. 

A produção revela como essas regiões estão promovendo um desenvolvimento mais integrado e harmonioso, superando barreiras geográficas e recorrendo à  inteligência artificial para melhorar a qualidade de vida da população e enfrentar os desafios do envelhecimento

"O Esplendor das Cidades”

"O Esplendor das Cidades” (2024), dirigido por Zhang Jie, Zhang Zhicheng e Zou Lin será exibido dia 22 de outubro (quinta-feira), mostra  detalhes das cidades chinesas de Suzhou, Hangzhou, Changsha, Kunming, Xangai e Zhuhai. 

Apresentadores percorrem mercados, vielas e margens de rios, revelando os encantos e a personalidade única de cada cidade. Convidados famosos compartilham memórias e histórias de sua infância, enquanto historiadores e especialistas locais ajudam a traçar os caminhos históricos e culturais que moldaram essas cidades ao longo do tempo. 

Destaque também para “Ecos de Xizang” (2023), da China Global Television Network, que será exibido no último dia da mostra, 24 de outubro (sábado), a partir das 15 horas. O curta-metragem acompanha a vida de um grupo diversificado de jovens de diferentes áreas profissionais no Planalto Qinghai-Xizang – região cuja altitude média é de 4 mil metros acima do nível do mar. 

Eles mostram como a juventude contemporânea está criando novas conexões entre suas raízes culturais tradicionais e as tendências globais.

"Patrimônio Arquitetônico Milenar"

Encerrando a programação, a série "Patrimônio Arquitetônico Milenar", de Zhu Jun (2024). Do Templo do Céu, onde os antigos buscavam “dialogar” com o Céu, à Torre de Madeira, construída sem um único prego e que permanece de pé há mais de mil anos; do Templo Suspenso, erguido à beira de um penhasco, ao Templo Foguang, a “joia da Dinastia Tang”; e ao Palácio Yongle, um precioso patrimônio taoista que passou por uma histórica “realocação integral”.

O documentário explora a arquitetura tradicional chinesa sob diferentes perspectivas — dos conceitos construtivos às técnicas de edificação, da busca estética à preservação, transmissão e inovação. Revela a extraordinária engenhosidade dos antigos mestres da construção, a sabedoria de uma arquitetura baseada na harmonia entre o ser humano e a natureza e a impressionante capacidade de preservação de obras que permanecem de pé há séculos e até milênios.

"Canção do Rio Amarelo"

A mostra “Ciclo China em Perspectiva” é realizada pelo Ministério da Cultura, a partir de uma parceria entre a Superintendência de Relacionamento Nacional e Internacional da Secretaria-Geral do Estado de Minas Gerais, o China Media Group e a Fundação Clóvis Salgado. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

O China Media Group (CMG), que cedeu os filmes para exibição, é um conglomerado estatal de mídia do país, criado em 2018, que produz e distribui conteúdos televisivos, documentários, notícias, entretenimento e programas culturais.

"Sabores da China"

Serviço
Mostra “Ciclo China em Perspectiva”
Local: Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro - Belo Horizonte)
Datas: 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados)
Horários: Variáveis
Classificações: Os filmes são livres para todos os públicos
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.