30 maio 2026

Documentário propõe um olhar singular sobre um marco arquitetônico brasileiro, o "Copan"

Projetado por Oscar Niemeyer, edifício paulistano possui 1.160 apartamentos e uma população estimada
em mais de cinco mil pessoas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Idealizado nos anos 1950 e finalizado há exatos 60 anos, o Copan, marco icônico da capital paulista, é um desses edifícios cuja fama transcende a localização geográfica.

No caso, não só pelo projeto ter sido assinado por Oscar Niemeyer, mas também pelos números portentosos que ostenta - 1.160 apartamentos (de dimensões variadas, de quitinetes a belas coberturas), distribuídos em 32 andares, e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas.

Atualmente, trata-se de um ponto cult da cidade - para citar um exemplo, recentemente, o sorvete de pudim vendido por um dos estabelecimentos situados no térreo viralizou nas redes e, agora, é possível ver filas na porta.


O local também abriga uma unidade da Livraria Megafauna, o badalado restaurante Dona Onça e, numa espécie de viagem no tempo, uma videolocadora. Este ano, a peça "Hamlet" foi encenada por lá, com ingressos esgotados a cada sessão.

Não é de se estranhar, pois, que essa cidade vertical fosse tema para uma produção audiovisual voltada a destrinchar um pouco de suas particularidades. É o que "Copan", documentário de Carine Wallauer (que por lá morou durante sete anos), que está em cartaz no Cine Belas Artes BH, se propõe a fazer, mas majoritariamente por um ângulo bem específico: o dos trabalhadores do condomínio.


Claro, a produção também se fixa em alguns moradores, caso do DJ KL Jay (Racionais MCs), bem como reserva um tempo para apresentar o síndico Affonso Prazeres, que faleceu em dezembro do ano passado, aos 86 anos.

Vale dizer que as filmagens foram feitas em 2022, época em que o Brasil ainda convivia com o flagelo do novo coronavírus - daí o número de pessoas que ainda aparecem em cena de máscara.

Do mesmo modo, período no qual os eleitores se preparavam para ir às urnas, em um país altamente polarizado, dividido entre conceder mais um mandato presidencial a Jair Bolsonaro ou trazer Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao poder.


E sim, o clima pré-eleição acaba sendo incorporado ao filme, mostrando representantes da torcida da direita e da esquerda tanto entre os funcionários quanto entre moradores, o que naturalmente acaba por ratificar a miríade de tipos que habita o Copan.

Evidentemente, um documentário só não daria conta de esquadrinhar todos os aspectos do edifício que está para São Paulo como o Conjunto JK para a capital mineira.

Portanto, a diretora teria inequivocamente que escolher um recorte, assim como o cineasta Eduardo Coutinho escolheu para o seu brilhante "Edifício Master" ou o jornalista Chico Felitti para o podcast "A Síndica", que, ao falar sobre o JK, se debruça sobre a finada Maria das Graças - ou, como ele brinca na produção, "Doutora Graça".


Um documentário sobre o Copan poderia enveredar pelos aspectos arquitetônicos. Ou, ainda, sobre a vida íntima de alguns moradores. Também poderia falar sobre o sucesso do sistema AirBnB por lá, assim como pela riqueza e disparidade dos apartamentos, muitos deles temas de matérias em revistas de decoração, como a fabulosa e inspiradora morada da atriz Mika Lins.

Não bastasse, poderia discorrer sobre o momento atual, de total efervescência - basta ver a fila que se forma de pessoas ansiosas para se sentar no empreendimento da chef Janaína Torres, o já citado Dona Onça.

O Copan, pois, comportaria ser abordado por vários aspectos. A diretora escolheu esse, e, com ele, conquistou o "É Tudo Verdade", o maior festival de documentários do país, sendo agraciado na categoria de Melhor Filme Brasileiro.


Também foi o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX 2025, tido como um dos principais festivais do gênero no mundo. 

Certo, talvez uma certa parte dos espectadores sinta falta de informações adicionais mais específicas, mas, claro, se elas não estão lá, explícitas, é de caso pensado.

Particularmente, senti falta de algumas referências que poderiam situar melhor quem não tem tanta familiaridade com o condomínio. A decisão de colocar a divisão política do Brasil é interessante, mas prefiro os momentos em que ela não está presente em cena, como os flagrantes de momentos comezinhos, caso do funcionário na lida de transportar o lixo, o recanto com redes para descanso, o cafezinho dos funcionários...


A reunião de condomínio e seus inerentes conflitos também é um momento alto do documentário, mas a melhor cena é mesmo a do desfecho. Poética, visualmente linda e com uma trilha sonora que coroa com perfeição o desenlace.
 
Aliás, há frames belíssimos - outro exemplo é a cena da escada externa. No cômputo geral, uma produção que lança um olhar interessante sobre o marco, deixando um gostinho de quero mais no espectador.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Carine Wallauer
Produção: O PAR
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h37
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e França
Gênero: documentário

28 maio 2026

"A Revolução dos Bichos" revela que não há limites nem escrúpulos para adaptações

Animação dirigida por Andy Serkis é uma repaginação piorada da obra de George Orwell (Fotos: Angel Studios)
 
 

Silvana Monteiro

 
Com estética peculiar e diálogos estranhamente bestializados "A Revolução dos Bichos" ("Animal Farm") se distancia da essência crítica criada por George Orwell e se aproxima de uma versão piorada da própria obra que pretendia revisitar. 

A animação, que estreou nesta quinta-feira nos cinemas, revela-se um produto moldado para impacto imediato, amplificado por sombras excessivas e frases feitas muito mais para vídeos curtos do que para o cinema. 

O romance original discute como um grupo de animais organiza um novo sistema baseado em igualdade e justiça coletiva. Aos poucos, porém, o ideal revolucionário passa a ser ameaçado pela ascensão autoritária de dois animais de uma espécie, os quais concentram o poder e transformam o local em um regime totalitário. 

Já no filme dirigido por Andy Serkis a situação se inverte quando a fazenda é vendida e os animais vão ser retirados dela. 


Nesse ponto, a tirania é bem estética e a escolha de inserir Lucky como ponto afetivo revela justamente esse movimento. O filme parece desconfiar da inteligência das pessoas e cria uma âncora emocional didática para conduzir o espectador por uma narrativa que, no livro, dispensava mediações tão evidentes, influenciando na perda da força visceral da história. Obviamente que é legal ter um contraponto afetivo, mas no contexto dessa adaptação, fica muito simplista.

Há ainda uma contradição curiosa na própria aparência da animação. Em muitos momentos, a animação lembra produções infantis genéricas dos anos 1990, revestidas por um acabamento tosco. O filme alterna entre humor escatológico, referências contemporâneas e discursos políticos, sem representar uma obra tecnicamente bem equilibrada.


Essa indecisão também atravessa Napoleon o porco que lidera a distorção dos objetivos de um grupo. No livro, ele era assustador justamente porque compreendia o poder como administração fria e absoluta da realidade. Aqui, surge quase como caricatura performática. Até a manipulação ideológica perde sofisticação: slogans substituem contradições; frases de efeito ocupam o espaço onde antes havia reflexão político-social. 

Talvez o aspecto mais interessante do filme seja involuntário. Esta adaptação parece menos uma leitura de Orwell e mais um retrato da atual dificuldade de lidar com profundidade sem convertê-la em entretenimento acelerado. 


No fim, o ponto positivo desta animação é que, de tão previsível e espetacularizada, mesmo quem nunca leu o livro ou nunca viu as demais adaptações, vai conseguir assistir e talvez, querer de fato ler a obra original para contrapor ou confirmar algo visto no filme.

O roteiro de "A Revolução dos Bichos" deixa a história pouco atrativa para crianças e abobada demais para adultos. É um filme que nos mostra a incapacidade de limites para adaptações. Adaptar não é o problema, como fazer isso de forma mais interessante? Fica a pergunta.


Ficha técnica:
Direção: Andy Serkis
Produção: Angel Studios, Aniventure, Cinesite e The Imaginarium Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h36
Classificação: 10 anos
Países: Reino Unido, Canadá e EUA
Gêneros: animação, fantasia

27 maio 2026

Em "Natal Amargo", Almodóvar transita entre dores, angústias e reflexões

Longa se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação
e a paleta colorida de praxe (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Patrícia Cassese

 
Já há algum tempo Pedro Almodóvar vem adotando um tom mais sombrio em suas narrativas fílmicas, o que não se restringe apenas ao roteiro, mas à própria paleta de cores, uma das características fortes do cineasta espanhol, hoje com 76 anos. 

Falado em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), até então mais recente longa do diretor a entrar em circuito, você se lembra, centrava foco em uma mulher – Michelle (Tilda Swinton) - que, acometida por um câncer em estágio terminal, convocava uma amiga, Ingrid (Juliane Moore), para estar próxima quando cometeria eutanásia. 

Em “Natal Amargo” ("Amarga Navidad"), filme que estreia nesta quinta-feira (28) no Cineart Ponteio, Cine Belas BH (Cine Belas Artes), Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall, a finitude também se faz presente, mas por outro prisma: o de uma mãe que perde um filho, no que é considerada, em justa medida, a pior dor. 


Na verdade, o intrincado tema nem é propriamente a espinha dorsal do filme (ah, sim, há, ainda, a personagem que, por conta do trabalho, não conseguiu se despedir da mãe), mas um ponto que aparece como liga em um roteiro que se vale da metalinguagem. Ou seja, há um filme dentro do filme.

Logo de início, o espectador é apresentado a Elsa (interpretada pela belíssima atriz Bárbara Lennie, que, particularmente na caracterização dessa personagem, fisicamente lembra demais Christiane Torloni em início de carreira). Atormentada por uma forte enxaqueca, que ela relaciona a dias de tempestade, Elsa se dirige a um hospital, acompanhada do namorado, Bonifacio (Patrick Criado), dublê de bombeiro e strip-teaser. 

Ocorre que Elsa é, na verdade, uma personagem que desponta na mente em ebulição de Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que, no momento, se debruça obsessivamente sobre um novo roteiro. Elsa é um alter ego de Raúl que, na verdade, parece ser um alter ego de Almodóvar. Obviamente, não se trata de uma representação realística, a ser interpretada literalmente, biograficamente, mas sim, de modo metafórico. 


Na própria ida da personagem ao hospital, um pouco da trajetória de Elsa é dissecada por meio da enfermeira que a acolhe, e que, em dado momento, percebe que já viu aquele rosto antes, assim como de seu acompanhante, porém em situações distintas.

Neste momento, há uma cena particularmente engraçada, que é quando a moça, já imbuída da informação de que a paciente é uma cineasta, pergunta a Elsa o que é ser “uma diretora de culto” (cult), se significa algo do tipo “seita”. Muito provavelmente, é Almodóvar a brincar com sua própria fama de cult. 

Na esfera da ficção dentro de uma ficção, Elsa é assim considerada no ecossistema da sétima arte de seu país: uma diretora cult. No entanto, para sobreviver, precisa se enveredar pela publicidade, território no qual acabou conhecendo Bonifacio, ao dirigir um filmete sobre underwear masculino.


Vale relembrar, aqui, que Elsa é uma personagem da mente de outro personagem do filme, Raúl, e que espelha a trajetória de seu criador. Pausa também para situar que o próprio Almodóvar já adentrou o universo publicitário, embora, vamos frisar, longe de ter se dobrado a ditames e, assim, abandonado sua matriz inventiva, sua mente em constante ebulição. 

No curso do filme, em suas distintas esferas, Elsa e Raúl se enveredam pelo caminho da autoficção, atualmente bastante em voga na seara literária, por meio de nomes como os dos franceses Édouard Louis e Annie Ernaux. 

Pedro Almodóvar e parte do elenco

E é neste ponto que ergue-se uma questão crucial à narrativa: até que ponto um roteirista (ou dramaturgo, ou escritor) pode, e deve, usar a realidade como calço para a sua obra, ponderando-se que essa transposição inequivocamente leva, a rebote, a inclusão de pessoas do entorno que, ao travarem contato com o resultado, certamente vão se reconhecer ali, como fonte de inspiração? E que, com isso, podem se sentir particularmente atacadas, com um sentimento de invasão de privacidade e de exposição desnecessário, às vezes até mesmo aviltante e dolorida? 

Uma mãe que perdeu um filho pode ser fonte de inspiração direta para um personagem sem ter sido consultada previamente? O impacto de saber que isso aconteceu não agravaria a dimensão de seu luto, sua dor, sua gana por privacidade?


Em suma, qual o limite ético da autoficção? Até onde ir? Vale a pena passar por cima dos sentimentos de outros para se sobressair e gerar impacto sobre si? E é em torno dessa questão que “Natal Amargo” se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação e, claro, a paleta colorida de praxe, porém, em tons mais “fechados”, escuros, como tem sido uma característica dos mais recentes filmes de Almodóvar. Não há nada estourado, gritante, nem em excesso. 


Os ambientes, não obstante abusem do contraste de cores, são extremamente elegantes, sofisticados, cool... um deleite para os olhos, sem resquícios do kitsch (nada contra). Aqui, a arte também se replica neste escaninho, assim como nos figurinos.

Um detalhe digno de nota é que há uma parte do filme que se passa em Lanzarote (ou Lançarote), lugar que o escritor português José Saramago escolheu como morada. Lanzarote pertence às Ilhas Canárias, próximas da costa da África Ocidental, e as paisagens mostradas no filme de Almodóvar são impactantes – em particular, quando Elsa e a personagem Natalia (Milena Smit), que perdeu o filho, caminham em meio às crateras de terra negra escavadas para proteger as videiras cultivadas na ilha – absolutamente deslumbrante. 


Lanzarote, aliás, já havia aparecido em outro filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, de 2009. O local é destino contumaz do diretor espanhol, que já o definiu como “repleto de segredos e mistérios”. 

E já que citamos Milena Smit, lembremos que ela é uma das personagens-chave em outro filme recente de Almodóvar, “Mães Paralelas” (2021). O argentino Leonardo Sbaraglia, por sua vez, é bastante conhecido do público cinéfilo brasileiro, já tendo atuado em filmes de sucesso, como “Relatos Selvagens” (2014), e mesmo dividido o set com Carolina Dieckmann no suspense dramático “O Silêncio do Céu”(2016).


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: El Deseo, RTVE, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Institute of Cinematography and Audiovisual Arts
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: Cineart Ponteio, Cine Belas BH, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: drama, comédia

26 maio 2026

“Fora de Controle”, lançamento francês com Omar Sy ecoa "Atração Fatal"

Drama com pinceladas de suspense aborda traição conjugal, possessividade e desejo de vingança
(Fotos: California Filmes) 
 
 

Eduardo Jr.

 
O conhecido rosto do ator francês Omar Sy volta às telonas no próximo dia 28 de maio. “Fora de Controle” ("Dis-moi juste que tu m’aimes"), dirigido por Anne Le Ny, chega aos cinemas brasileiros com trama sobre traição e possessividade. A distribuição é da California Filmes.   

Na obra, Julien (Omar Sy) está casado há 15 anos. Mas sua esposa Marie (Élodie Bouchez) sente a relação ameaçada com a volta da ex de Julien, Anaëlle, papel de Vanessa Paradis - a cantora de “Joe Le Taxi”, que conhecemos como “Vou de Taxi”, na voz de Angélica (eu não podia deixar vocês sem essa informação).  


A insegurança, a ira e o desejo de vingança por desconfiar que o marido se encontrou com a ex, colocam Marie num affair com seu próprio chefe, Thomas (José Garcia). 

Mas o carente e possessivo Thomas começa a perseguir Marie. É aí que o título se justifica. Manipulação, ameaças e suspense psicológico passam, então, a marcar presença no filme.    

A semelhança com “Atração Fatal” (1987) se dá pela obsessão de Thomas com Marie. Um toque de modernidade ao inverter os gêneros de perseguidor e perseguido. 


Mas claro, guardadas as proporções e a época em que o primeiro filme foi realizado, “Fora de Controle” fica abaixo na temperatura, afinal, é cinema francês, tem seus momentos de resfriamento. E cá pra nós, fica difícil abordar o tema e superar o que a série “Bebê Rena” (2024) estampou na tela. 

No frigir dos ovos, esta é uma obra correta. Fotografia que não compromete, inserção de trilha cuidadosa e atuações na medida. Não estaríamos errados em afirmar que é mais drama do que suspense, com boas reviravoltas. Carece de mais emoção, mas pode agradar ao espectador.    


Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Anne Le Ny
Distribuição: Califórnia Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h51
Classificação: 18 anos
Países: França e Bélgica
Gêneros: suspense, drama

24 maio 2026

VERdeCINE 2026 transforma Lavras em espaço de diálogo entre cinema, infância e sustentabilidade

Festival de cinema promove a exibição de 17 obras audiovisuais e dezenas de atividades culturais e
educativas gratuitas (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
Lavras recebe, entre os dias 29 e 31 de maio, sexta-feira a domingo, a edição 2026 do VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes, evento cultural e educativo que utiliza o audiovisual como ferramenta de transformação social e ambiental. 

Com programação gratuita no CEU Lavrinhas e na Praça Dr. Augusto Silva, o festival reúne a exibição de 17 obras audiovisuais em mais de 20 sessões de cinema, além de dezenas de atividades culturais e educativas, entre rodas de conversa, apresentações culturais, oficinas, feira de economia solidária e ações voltadas para a infância, educação e sustentabilidade.

A programação deste ano ganha um significado especial ao integrar o encerramento da Semana do Brincar em Lavras e abrir os diálogos para a construção do Plano Municipal da Primeira Infância, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. 

Renata Meirelles (Foto: David Vêluz)

Um dos destaques da edição será a presença da pesquisadora, documentarista e educadora Renata Meirelles, referência nacional quando o assunto é infância e cultura do brincar.

Idealizadora do projeto Território do Brincar, Renata é co-diretora e roteirista dos longas-metragens "Território do Brincar" e "Do Colo da Terra", além de autora de livros, curadora de exposições e pesquisadora dedicada às infâncias brasileiras. Sua participação marca a programação dos dias 30 e 31 de maio, com sessões especiais e conversas abertas ao público.

 “O VERdeCINE nasce do desejo de aproximar as pessoas de temas urgentes por meio do cinema e do encontro. Nesta edição, a infância ocupa um lugar muito potente dentro da programação, trazendo reflexões sobre escuta, pertencimento, educação e cuidado com os territórios e com as pessoas. É muito simbólico receber a Renata Meirelles justamente neste momento em que Lavras começa a dialogar sobre a construção do Plano da Primeira Infância”, destaca a coordenadora do festival, Cristiane Pederiva.

VERdeCINE de 2025

No dia 29 de maio o CEU Lavrinhas recebe sessões voltadas para estudantes da rede pública, às 8h, 13h e 15h30, com exibição de filmes seguida de conversa. Entre os destaques estão a animação "O Jardim Mágico" (PR), o híbrido "Habitar" (SP) e filmes produzidos por estudantes das escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Às 9h, acontece a abertura oficial do festival, com exibição de filmes e bate-papo sobre a trajetória do VERdeCINE. Ao longo da tarde e da noite, o espaço também recebe a Feira da Economia Solidária.

A programação infantil traz o longa de animação "Papaya" (SP), às 18h. Já às 20h, a sessão voltada ao público da EJAI apresenta os filmes "Às Compras" (RJ) e "Presépio" (RJ), acompanhados de apresentação musical e do tradicional Caldo VERdeCINE.

Animação "Umassuma - Lascas de Memória" (PA)

Cinema, brincadeiras e infância

No sábado, 30 de maio, o festival amplia o diálogo entre cinema, educação e infância. Das 9h às 12h, o público poderá participar da atividade especial da Semana do Brincar e da construção do Plano da Primeira Infância, com exibição do documentário "Do Colo da Terra" e presença da diretora Renata Meirelles.

A programação do dia inclui ainda Feira da Economia Solidária, apresentação musical, oficina “A Escola que Eu Quero”, contação de histórias e brincadeiras “Entre Letras e Brincares”, realizada pela UFLA, além de sessões infantis e exibições de filmes seguidas de conversa.

Oficina Escola (Foto: Pedro Michelli)

Entre os filmes exibidos ao longo do sábado estão "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO), "Ponto de Partida" (SP), "Quanto Vale?" (MG), "Às Compras" (RJ), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Da Aldeia à Universidade" (TO) e "Habitar" (SP).

A sessão infantil das 16h apresenta "O Jardim Mágico" (PR) e "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA). Na mesma faixa de programação, a Sessão Água exibe "Guardiões das Águas" (PE), filme realizado por crianças em ambiente escolar, além de produções desenvolvidas nas Oficinas Cinema na Escola com estudantes das escolas Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Encerramento

No domingo, 31 de maio, a programação segue na Praça Dr. Augusto Silva, no Centro de Lavras, reunindo atividades culturais e sessões gratuitas ao longo de todo o dia.

A manhã começa com apresentação teatral do Grupo Construção, às 9h. Em seguida, acontece a sessão em homenagem a Renata Meirelles, com exibição da série documental "Território do Brincar", encerrando oficialmente a Semana do Brincar na cidade e ampliando os debates sobre a construção do Plano da Primeira Infância.

"Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO)

Ao longo da manhã, o público poderá participar da oficina “A Escola que Eu Quero”, promovida pelo Unilavras, além de assistir aos filmes produzidos nas oficinas Cinema na Escola pelas escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

A programação infantil apresenta as animações "O Jardim Mágico" (PR), "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA) e o longa "Papaya" (SP). Durante a tarde, o festival exibe os filmes "Habitar" (SP), "Da Aldeia à Universidade" (TO), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Às Compras" (RJ), "Quanto Vale?" (MG), "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO) e "Um Filme de Ficção" (SP), sempre seguidos de conversa com o público.

O encerramento da programação será marcado por apresentação musical às 18h.


SERVIÇO
VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes
Data:
29 a 31 de maio de 2026
Locais: CEU – Centro de Artes e Esporte Unificados (Lavrinhas) e Praça Dr. Augusto Silva – Centro de Lavras
Programação: gratuita com sessões de cinema, debates, oficinas, apresentações culturais, atividades infantis e Feira da Economia Solidária
Classificação: livre
Informações: @verdecine e www.verdecine.com.br

23 maio 2026

“Cansei de Ser Nerd” é uma história sobre identidade e dificuldade de continuar sendo quem é

Fernando Caruso é o protagonista desta comédia sci-fi brasileira com várias referências ao universo geek (Fotos: Mariana Vianna)
 
 

Marcos Tadeu

Parceiro do blog Jornalista de Cinema
 
Chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, “Cansei de Ser Nerd”, com direção de Gualter Pupo e distribuição da (H2O Films). A comédia mistura romance, ficção científica, suspense e muitas referências ao universo geek para contar uma história sobre identidade, pertencimento e a dificuldade de continuar sendo quem você é.

Aírton (Fernando Caruso) é o tipo de nerd que nunca abandonou suas teorias. Anos depois da faculdade, ele volta ao reencontro da turma de faculdade decidido a fazer três coisas: provar sua inocência em um antigo mistério, expor um suposto culto alienígena e tentar reconquistar o amor do passado. 

O resultado é uma aventura caótica que transforma paranoia, nostalgia e romances mal resolvidos em uma trama fora do comum.


O filme conversa diretamente com o público que cresceu cercado pela cultura pop. Estão ali referências a super-heróis, ficção científica, monstros clássicos e grandes franquias do cinema. Existe carinho por esse universo e isso funciona bem nos momentos mais divertidos.

Por outro lado, as referências acabam ocupando espaço demais. Em alguns momentos, elas servem mais como apoio do que como parte da narrativa, deixando temas mais interessantes em segundo plano.


No elenco estão ainda Bia Guedes (Juliana), Pedro Benevides (Ulisses), João Velho (Charles, desafeto de Aírton), Thais Belchior, Junior Vieira, Ana Carolina Sauwen, entre outros, além da participação especial de Cissa Guimarães, como Dona Têca, mãe de Aírton, e Bel Kutner, mãe de Charles. 

Fernando Caruso sustenta boa parte do filme. Mesmo dentro da comédia, ele consegue trazer emoção quando o roteiro pede algo mais íntimo. Aírton funciona porque existe verdade nele: é alguém cansado de ser visto apenas como “o estranho” da história.

E talvez esse seja o melhor ponto do longa. Existe uma discussão interessante sobre a necessidade de mudar para ser aceito. Em determinado momento, Aírton tenta abandonar aquilo que o define para parecer mais comum. 


O filme toca numa ferida muito humana: quantas vezes as pessoas escondem partes de si para caberem onde nunca houve espaço? O problema é que a obra quer abraçar muitos caminhos ao mesmo tempo. 

Mistério, bullying, reencontro de amigos, romance, teorias conspiratórias e traumas do passado disputam atenção dentro de pouco tempo de tela.

Ainda assim, há carisma nessa bagunça. “Cansei de Ser Nerd” não é um filme perfeito e tropeça ao tentar falar de tudo. Mas acerta quando deixa de lado o exagero e olha para algo simples: o medo de não pertencer. 

No fim, fica uma mensagem sincera: talvez crescer não seja deixar de ser nerd. Talvez seja parar de pedir desculpas por ser quem você sempre foi.


Ficha técnica:
Direção:
Gualter Pupo
Produção: Hungryman e Na Paralela Filmes, em coprodução com a Paramount Pictures e Telecine
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia romântica, ficção, suspense

19 maio 2026

Primeiros dias de Cannes: "Fatherland", "Ceniza en La Boca" e outros destaques do festival

Entrada do Festival de Cinema de Cannes (Crédito: Carolina Cassese)
 
 

Carolina Cassese
Correspondente em Cannes

 
A 79ª edição do Festival de Cannes, que se encerra dia 23 de maio, tem movimentado a Croisette com grandes estreias internacionais. Em 12 de maio, a abertura do evento contou com a estreia de "La Vénus Électrique", comédia dramática assinada por Pierre Salvadori e ambientada na Paris dos anos 1920. A cerimônia também ficou marcada pela homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária por sua icônica trajetória. 

A edição de 2026 presta homenagem a "Thelma & Louise" (1991), clássico de Ridley Scott que retrata o percurso de duas amigas pelos Estados Unidos. O longa inspira a identidade visual oficial do festival neste ano, 35 anos após sua estreia em Cannes. Assim, a presença feminina – e a ideia de resistência – já está marcada na imagem principal do evento.

Ao fim da primeira semana, alguns filmes começam a se destacar entre crítica e público, embora muitos outros longas ainda tenham suas estreias previstas para os próximos dias.

Cartaz de “Thelma e Louise (Crédito: Carolina Cassese)

Entre as produções que mais chamaram atenção neste início de festival destacamos "Fatherland", de Paweł Pawlikowski; "L’Abandon", de Vincent Garenq; "Ceniza en la boca", de Diego Luna; e "Mémoire de Fille", de Judith Godrèche. 

Outras estreias que repercutiram bastante foram "Histoires Parallèles", novo filme de Asghar Farhadi apresentado em competição; o horror "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun; e "Club Kid", primeiro filme de Jordan Firstman na direção. 

A seguir, apresentamos destaques de algumas das obras que conseguimos assistir e acompanhar a conferência de imprensa:


"Ceniza en la boca" — Diego Luna
Adaptado a partir do romance de Brenda Navarro ("Cinzas na Boca", publicado no Brasil pela editora Dublinense), o filme acompanha Lucila (Anna Díaz) e seu irmão Diego (Sergio Bautista), jovens mexicanos que transitam entre a Cidade do México, Madri e Barcelona após anos de separação da mãe Isabel (Adriana Paz). 

A obra explora questões de pertencimento e relações familiares atravessadas por diversos empecilhos. A première foi marcada por um clima bastante emocionante e contou com a presença de Gael García Bernal, um dos produtores do filme, além de Alfonso Cuarón, outro grande nome do cinema mexicano. 

Diego Luna abraça Alfonso Cuarón em Cannes
(Crédito: Carolina Cassese)

O filme destaca a repetição como uma forma de elaboração do luto; determinadas imagens e até mesmo falas são frequentemente retomadas pela personagem principal, reforçando as oscilações emocionais características de processos complexos. 

Nesse sentido, ressaltamos que o próprio título da obra atribui uma dimensão menos “racional” aos acontecimentos, aproximando a narrativa de experiências subjetivas e espirituais. 

Destaca-se ainda a importância de ver cineastas latino-americanos adaptando obras de escritoras da região, movimento que amplia a circulação internacional dessas narrativas. 


Ficha técnica:
Direção: Diego Luna
Duração: 1h42
País: México
Gênero: drama

"Fatherland" — Paweł Pawlikowski
O novo filme de Pawlikowski acompanha Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha do pós-guerra, confrontando os efeitos persistentes do nazismo e das divisões ideológicas da Guerra Fria. 

Durante a conferência de imprensa do longa, o diretor, conhecido por "Ida" e "Cold War", comentou que chegou a considerar filmar a obra em cores, mas acabou optando pela fotografia em preto e branco por acreditar que essa estética estaria mais próxima da verdade de seu projeto. 

Saída da coletiva de imprensa de “Fatherland”
(Crédito: Carolina Cassese)

Na mesma coletiva, Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Anatomia de uma Queda" (2024), refletiu sobre o papel no novo filme e afirmou carregar uma culpa histórica ligada à Segunda Guerra Mundial. 

Nesse sentido, a atriz reforçou a importância de manter o sentimento presente, inclusive como uma forma de responsabilidade social. Ressaltamos que a recepção crítica de Fatherland tem sido bastante positiva: o The Times, por exemplo, destacou a densidade emocional e intelectual da obra; por sua vez, o Daily Telegraph chamou atenção para a direção precisa de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal.


Ficha técnica:
Direção: Pawel Pawlikowski
Duração: 1h22
Países: Alemanha, Polônia, Itália, França, Reino Unido
Gênero: drama

"L’Abandon" — Vincent Garenq
Exibido fora de competição, o filme é inspirado nos últimos dias do professor Samuel Paty (Antoine Reinartz) antes de seu assassinato em 2020, em um contexto marcado pelo crescimento de tensões religiosas e a desinformação presente nas redes sociais. A obra acompanha o isolamento progressivo do professor diante de tensões institucionais e falhas que antecedem a tragédia.

Nesse processo, o filme se destaca pela forma como trabalha o olhar das crianças diante de assuntos extremamente sérios, criando um contraste forte entre a espontaneidade infantil e planos arquitetados de maneira brutal. A história é muito bem construída e consegue prender a atenção justamente por desenvolver essa tensão de forma gradual ao longo da narrativa. 


Embora trate de um caso específico do contexto francês, o filme também dialoga com uma questão muito mais ampla e presente em diferentes partes do mundo: a rapidez com que discursos de ódio se propagam por meio das plataformas digitais. 

É muito possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre o filme e a série "Adolescência" (2025), da Netflix, que também aborda como as relações sociais têm sido profundamente afetadas por ambientes digitais caracterizados pela instantaneidade e desinformação.


Ficha técnica:
Direção: Vincent Garenq
Duração: 1h40
País: França
Gênero: drama

"Mémoire de Fille" — Judith Godrèche ("Un Certain Regard")
Inspirado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, o filme revisita lembranças da juventude feminina a partir de uma narrativa não linear, explorando a reconstrução subjetiva de um verão que a francesa passou em um acampamento. 

Apesar do desafio de adaptar uma obra marcada pela introspecção, o filme consegue transmitir reflexões muito presentes na escrita de Ernaux, em especial no que diz respeito ao diálogo entre experiência pessoal e coletiva. 

A incorporação de marcos históricos importantes, como a repercussão de "O Segundo Sexo", obra mais célebre de Simone de Beauvoir, também reforça essa dimensão mais ampla da narrativa. 


Além disso, chama atenção a sensibilidade com que o filme aborda experiências corporais femininas, incluindo alterações no período menstrual e o impacto dos transtornos alimentares na vida de uma adolescente. 

Destaca-se ainda o fato de que o olhar da protagonista para outras mulheres ocupa um papel importante no filme: inicialmente marcado por insegurança e sensação de ameaça, seu ponto de vista passa gradualmente a buscar referências de inspiração. 

Esse é um exemplo de como o cinema consegue acrescentar diferentes camadas às narrativas, já que, nessas cenas, nada precisa ser verbalizado pela personagem para que sua transformação se torne perceptível.


Ficha técnica:
Direção:
Judith Godrèche
Duração: 1h17
País: França
Gênero: drama

No que diz respeito à programação completa deste ano, vale ressaltar que não há um longa dirigido por um cineasta brasileiro na seleção oficial do festival. Ainda assim, o país marca presença em 2026 com uma das maiores delegações da década, reunindo profissionais do audiovisual, produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica em diferentes espaços do evento. 

As vitórias de "O Agente Secreto" no ano passado – Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura) – também foram importantes para consolidar ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. 

Agora, resta acompanhar os próximos lançamentos de 2026 e torcer para que histórias de contextos diversos sigam encontrando espaço no circuito cinematográfico.


Ruas de Cannes durante o Festival de Cinema (Crédito: Carolina Cassese)

17 maio 2026

“Surda”: o filme que obriga o espectador a ouvir o silêncio da exclusão

Drama espanhol, escrito e dirigido por Eva Libertad, tem a primeira atriz surda, Miriam Garlo, a vencer
um prêmio Goya (Fotos: Distinto Films, Nexus CreaFilms, A Contracorriente)
 
 

Silvana Monteiro

 
“Surda” ("Sorda"), dirigido por Eva Libertad, é uma obra que retrata a vida de uma mulher com deficiência auditiva que está à espera de uma menina. Prestes a se tornar mãe, as dimensões desse acontecimento tornam-se ainda mais profundas e conectam relações afetivas em torno da chegada e do futuro da criança. 

O longa está em exibição no Una Cine Belas Artes, com as sessões contando com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. 

O filme traça o centro da narrativa para aquilo que cerca Angela (Miriam Garlo): os constrangimentos cotidianos, os ruídos sociais produzidos pelo capacitismo e a exaustão de existir em espaços que ainda operam sob a lógica da exclusão. 


A maternidade surge atravessada por medo, desejo de autonomia, afeto e insegurança, compondo uma experiência profundamente humana e distante das representações higienizadas que o cinema costuma oferecer. Nesse ponto, é lindo de ver como a obra explora a sororidade e a rede de apoio como ferramentas importantes para uma vivência mais inclusiva.

A atuação de Miriam Garlo sustenta essa dimensão com impressionante precisão. Sua Angela nunca é reduzida à fragilidade nem convertida em um estático símbolo heróico.  Para imergir o telespectador na condição da protagonista, de forma empática, o filme mergulha na intensidade de sua comunicação por meio da língua de sinais. 


Ao longo da trama é possível sentir desconforto nos pequenos gestos e uma contenção emocional que torna cada cena mais densa. Há sempre uma tentativa de trazer a compreensão de que vulnerabilidade não elimina potência, e essa percepção atravessa toda a construção da personagem.

Tecnicamente, “Surda” trabalha o som de maneira inteligente e sensorial. O desenho sonoro alterna presenças, abafamentos e vazios para aproximar o espectador da percepção de Angela sem recorrer a truques manipulativos. 


A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos íntimos, luz naturalista e uma câmera que frequentemente permanece próxima do rosto da protagonista, captando tensões mínimas e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. A direção evita excessos dramáticos e aposta em uma mise-en-scène sóbria, permitindo que os conflitos emerjam do cotidiano.

Outro mérito do longa está na forma como aborda as interseccionalidades. A narrativa articula maternidade, trabalho, vida afetiva com Hector (Álvaro Cervantes), amizades e deficiência, sem transformar nenhum desses elementos em dramalhão. A relação com o marido evidencia como o amor não resolve sozinho as barreiras de comunicação e acessibilidade.  


“Surda” provoca ao expor o quanto a sociedade ainda condiciona pertencimento à adaptação forçada de quem é diferente. Ao abandonar metáforas simplistas de superação, Eva Libertad entrega uma obra madura, sensível e tecnicamente consistente, capaz de transformar silêncio em linguagens cinematográfica e social.

Premiações

O longa foi vencedor de três prêmios Goya, considerado o Oscar da Espanha, com Miriam Garlo fazendo história como a primeira mulher surda a vencer, pela categoria de Melhor Atriz Revelação. Eva Libertad também foi premiada, como Melhor Diretora Estreante, e Álvaro Cervantes venceu Melhor Ator Coadjuvante. 

Também foi premiado em Seattle, Málaga e Guadalajara. Além dos prêmios Platino de Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator Coadjuvante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Libertad
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 - 18h30
Duração: 1h38
Classificação: 12 anos
País: Espanha
Gênero: drama