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24 maio 2026

VERdeCINE 2026 transforma Lavras em espaço de diálogo entre cinema, infância e sustentabilidade

Festival de cinema promove a exibição de 17 obras audiovisuais e dezenas de atividades culturais e
educativas gratuitas (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
Lavras recebe, entre os dias 29 e 31 de maio, sexta-feira a domingo, a edição 2026 do VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes, evento cultural e educativo que utiliza o audiovisual como ferramenta de transformação social e ambiental. 

Com programação gratuita no CEU Lavrinhas e na Praça Dr. Augusto Silva, o festival reúne a exibição de 17 obras audiovisuais em mais de 20 sessões de cinema, além de dezenas de atividades culturais e educativas, entre rodas de conversa, apresentações culturais, oficinas, feira de economia solidária e ações voltadas para a infância, educação e sustentabilidade.

A programação deste ano ganha um significado especial ao integrar o encerramento da Semana do Brincar em Lavras e abrir os diálogos para a construção do Plano Municipal da Primeira Infância, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. 

Renata Meirelles (Foto: David Vêluz)

Um dos destaques da edição será a presença da pesquisadora, documentarista e educadora Renata Meirelles, referência nacional quando o assunto é infância e cultura do brincar.

Idealizadora do projeto Território do Brincar, Renata é co-diretora e roteirista dos longas-metragens "Território do Brincar" e "Do Colo da Terra", além de autora de livros, curadora de exposições e pesquisadora dedicada às infâncias brasileiras. Sua participação marca a programação dos dias 30 e 31 de maio, com sessões especiais e conversas abertas ao público.

 “O VERdeCINE nasce do desejo de aproximar as pessoas de temas urgentes por meio do cinema e do encontro. Nesta edição, a infância ocupa um lugar muito potente dentro da programação, trazendo reflexões sobre escuta, pertencimento, educação e cuidado com os territórios e com as pessoas. É muito simbólico receber a Renata Meirelles justamente neste momento em que Lavras começa a dialogar sobre a construção do Plano da Primeira Infância”, destaca a coordenadora do festival, Cristiane Pederiva.

VERdeCINE de 2025

No dia 29 de maio o CEU Lavrinhas recebe sessões voltadas para estudantes da rede pública, às 8h, 13h e 15h30, com exibição de filmes seguida de conversa. Entre os destaques estão a animação "O Jardim Mágico" (PR), o híbrido "Habitar" (SP) e filmes produzidos por estudantes das escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Às 9h, acontece a abertura oficial do festival, com exibição de filmes e bate-papo sobre a trajetória do VERdeCINE. Ao longo da tarde e da noite, o espaço também recebe a Feira da Economia Solidária.

A programação infantil traz o longa de animação "Papaya" (SP), às 18h. Já às 20h, a sessão voltada ao público da EJAI apresenta os filmes "Às Compras" (RJ) e "Presépio" (RJ), acompanhados de apresentação musical e do tradicional Caldo VERdeCINE.

Animação "Umassuma - Lascas de Memória" (PA)

Cinema, brincadeiras e infância

No sábado, 30 de maio, o festival amplia o diálogo entre cinema, educação e infância. Das 9h às 12h, o público poderá participar da atividade especial da Semana do Brincar e da construção do Plano da Primeira Infância, com exibição do documentário "Do Colo da Terra" e presença da diretora Renata Meirelles.

A programação do dia inclui ainda Feira da Economia Solidária, apresentação musical, oficina “A Escola que Eu Quero”, contação de histórias e brincadeiras “Entre Letras e Brincares”, realizada pela UFLA, além de sessões infantis e exibições de filmes seguidas de conversa.

Oficina Escola (Foto: Pedro Michelli)

Entre os filmes exibidos ao longo do sábado estão "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO), "Ponto de Partida" (SP), "Quanto Vale?" (MG), "Às Compras" (RJ), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Da Aldeia à Universidade" (TO) e "Habitar" (SP).

A sessão infantil das 16h apresenta "O Jardim Mágico" (PR) e "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA). Na mesma faixa de programação, a Sessão Água exibe "Guardiões das Águas" (PE), filme realizado por crianças em ambiente escolar, além de produções desenvolvidas nas Oficinas Cinema na Escola com estudantes das escolas Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Encerramento

No domingo, 31 de maio, a programação segue na Praça Dr. Augusto Silva, no Centro de Lavras, reunindo atividades culturais e sessões gratuitas ao longo de todo o dia.

A manhã começa com apresentação teatral do Grupo Construção, às 9h. Em seguida, acontece a sessão em homenagem a Renata Meirelles, com exibição da série documental "Território do Brincar", encerrando oficialmente a Semana do Brincar na cidade e ampliando os debates sobre a construção do Plano da Primeira Infância.

"Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO)

Ao longo da manhã, o público poderá participar da oficina “A Escola que Eu Quero”, promovida pelo Unilavras, além de assistir aos filmes produzidos nas oficinas Cinema na Escola pelas escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

A programação infantil apresenta as animações "O Jardim Mágico" (PR), "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA) e o longa "Papaya" (SP). Durante a tarde, o festival exibe os filmes "Habitar" (SP), "Da Aldeia à Universidade" (TO), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Às Compras" (RJ), "Quanto Vale?" (MG), "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO) e "Um Filme de Ficção" (SP), sempre seguidos de conversa com o público.

O encerramento da programação será marcado por apresentação musical às 18h.


SERVIÇO
VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes
Data:
29 a 31 de maio de 2026
Locais: CEU – Centro de Artes e Esporte Unificados (Lavrinhas) e Praça Dr. Augusto Silva – Centro de Lavras
Programação: gratuita com sessões de cinema, debates, oficinas, apresentações culturais, atividades infantis e Feira da Economia Solidária
Classificação: livre
Informações: @verdecine e www.verdecine.com.br

23 maio 2026

“Cansei de Ser Nerd” é uma história sobre identidade e dificuldade de continuar sendo quem é

Fernando Caruso é o protagonista desta comédia sci-fi brasileira com várias referências ao universo geek (Fotos: Mariana Vianna)
 
 

Marcos Tadeu

Parceiro do blog Jornalista de Cinema
 
Chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, “Cansei de Ser Nerd”, com direção de Gualter Pupo e distribuição da (H2O Films). A comédia mistura romance, ficção científica, suspense e muitas referências ao universo geek para contar uma história sobre identidade, pertencimento e a dificuldade de continuar sendo quem você é.

Aírton (Fernando Caruso) é o tipo de nerd que nunca abandonou suas teorias. Anos depois da faculdade, ele volta ao reencontro da turma de faculdade decidido a fazer três coisas: provar sua inocência em um antigo mistério, expor um suposto culto alienígena e tentar reconquistar o amor do passado. 

O resultado é uma aventura caótica que transforma paranoia, nostalgia e romances mal resolvidos em uma trama fora do comum.


O filme conversa diretamente com o público que cresceu cercado pela cultura pop. Estão ali referências a super-heróis, ficção científica, monstros clássicos e grandes franquias do cinema. Existe carinho por esse universo e isso funciona bem nos momentos mais divertidos.

Por outro lado, as referências acabam ocupando espaço demais. Em alguns momentos, elas servem mais como apoio do que como parte da narrativa, deixando temas mais interessantes em segundo plano.


No elenco estão ainda Bia Guedes (Juliana), Pedro Benevides (Ulisses), João Velho (Charles, desafeto de Aírton), Thais Belchior, Junior Vieira, Ana Carolina Sauwen, entre outros, além da participação especial de Cissa Guimarães, como Dona Têca, mãe de Aírton, e Bel Kutner, mãe de Charles. 

Fernando Caruso sustenta boa parte do filme. Mesmo dentro da comédia, ele consegue trazer emoção quando o roteiro pede algo mais íntimo. Aírton funciona porque existe verdade nele: é alguém cansado de ser visto apenas como “o estranho” da história.

E talvez esse seja o melhor ponto do longa. Existe uma discussão interessante sobre a necessidade de mudar para ser aceito. Em determinado momento, Aírton tenta abandonar aquilo que o define para parecer mais comum. 


O filme toca numa ferida muito humana: quantas vezes as pessoas escondem partes de si para caberem onde nunca houve espaço? O problema é que a obra quer abraçar muitos caminhos ao mesmo tempo. 

Mistério, bullying, reencontro de amigos, romance, teorias conspiratórias e traumas do passado disputam atenção dentro de pouco tempo de tela.

Ainda assim, há carisma nessa bagunça. “Cansei de Ser Nerd” não é um filme perfeito e tropeça ao tentar falar de tudo. Mas acerta quando deixa de lado o exagero e olha para algo simples: o medo de não pertencer. 

No fim, fica uma mensagem sincera: talvez crescer não seja deixar de ser nerd. Talvez seja parar de pedir desculpas por ser quem você sempre foi.


Ficha técnica:
Direção:
Gualter Pupo
Produção: Hungryman e Na Paralela Filmes, em coprodução com a Paramount Pictures e Telecine
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia romântica, ficção, suspense

19 maio 2026

Primeiros dias de Cannes: "Fatherland", "Ceniza en La Boca" e outros destaques do festival

Entrada do Festival de Cinema de Cannes (Crédito: Carolina Cassese)
 
 

Carolina Cassese
Correspondente em Cannes

 
A 79ª edição do Festival de Cannes, que se encerra dia 23 de maio, tem movimentado a Croisette com grandes estreias internacionais. Em 12 de maio, a abertura do evento contou com a estreia de "La Vénus Électrique", comédia dramática assinada por Pierre Salvadori e ambientada na Paris dos anos 1920. A cerimônia também ficou marcada pela homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária por sua icônica trajetória. 

A edição de 2026 presta homenagem a "Thelma & Louise" (1991), clássico de Ridley Scott que retrata o percurso de duas amigas pelos Estados Unidos. O longa inspira a identidade visual oficial do festival neste ano, 35 anos após sua estreia em Cannes. Assim, a presença feminina – e a ideia de resistência – já está marcada na imagem principal do evento.

Ao fim da primeira semana, alguns filmes começam a se destacar entre crítica e público, embora muitos outros longas ainda tenham suas estreias previstas para os próximos dias.

Cartaz de “Thelma e Louise (Crédito: Carolina Cassese)

Entre as produções que mais chamaram atenção neste início de festival destacamos "Fatherland", de Paweł Pawlikowski; "L’Abandon", de Vincent Garenq; "Ceniza en la boca", de Diego Luna; e "Mémoire de Fille", de Judith Godrèche. 

Outras estreias que repercutiram bastante foram "Histoires Parallèles", novo filme de Asghar Farhadi apresentado em competição; o horror "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun; e "Club Kid", primeiro filme de Jordan Firstman na direção. 

A seguir, apresentamos destaques de algumas das obras que conseguimos assistir e acompanhar a conferência de imprensa:


"Ceniza en la boca" — Diego Luna
Adaptado a partir do romance de Brenda Navarro ("Cinzas na Boca", publicado no Brasil pela editora Dublinense), o filme acompanha Lucila (Anna Díaz) e seu irmão Diego (Sergio Bautista), jovens mexicanos que transitam entre a Cidade do México, Madri e Barcelona após anos de separação da mãe Isabel (Adriana Paz). 

A obra explora questões de pertencimento e relações familiares atravessadas por diversos empecilhos. A première foi marcada por um clima bastante emocionante e contou com a presença de Gael García Bernal, um dos produtores do filme, além de Alfonso Cuarón, outro grande nome do cinema mexicano. 

Diego Luna abraça Alfonso Cuarón em Cannes
(Crédito: Carolina Cassese)

O filme destaca a repetição como uma forma de elaboração do luto; determinadas imagens e até mesmo falas são frequentemente retomadas pela personagem principal, reforçando as oscilações emocionais características de processos complexos. 

Nesse sentido, ressaltamos que o próprio título da obra atribui uma dimensão menos “racional” aos acontecimentos, aproximando a narrativa de experiências subjetivas e espirituais. 

Destaca-se ainda a importância de ver cineastas latino-americanos adaptando obras de escritoras da região, movimento que amplia a circulação internacional dessas narrativas. 


Ficha técnica:
Direção: Diego Luna
Duração: 1h42
País: México
Gênero: drama

"Fatherland" — Paweł Pawlikowski
O novo filme de Pawlikowski acompanha Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha do pós-guerra, confrontando os efeitos persistentes do nazismo e das divisões ideológicas da Guerra Fria. 

Durante a conferência de imprensa do longa, o diretor, conhecido por "Ida" e "Cold War", comentou que chegou a considerar filmar a obra em cores, mas acabou optando pela fotografia em preto e branco por acreditar que essa estética estaria mais próxima da verdade de seu projeto. 

Saída da coletiva de imprensa de “Fatherland”
(Crédito: Carolina Cassese)

Na mesma coletiva, Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Anatomia de uma Queda" (2024), refletiu sobre o papel no novo filme e afirmou carregar uma culpa histórica ligada à Segunda Guerra Mundial. 

Nesse sentido, a atriz reforçou a importância de manter o sentimento presente, inclusive como uma forma de responsabilidade social. Ressaltamos que a recepção crítica de Fatherland tem sido bastante positiva: o The Times, por exemplo, destacou a densidade emocional e intelectual da obra; por sua vez, o Daily Telegraph chamou atenção para a direção precisa de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal.


Ficha técnica:
Direção: Pawel Pawlikowski
Duração: 1h22
Países: Alemanha, Polônia, Itália, França, Reino Unido
Gênero: drama

"L’Abandon" — Vincent Garenq
Exibido fora de competição, o filme é inspirado nos últimos dias do professor Samuel Paty (Antoine Reinartz) antes de seu assassinato em 2020, em um contexto marcado pelo crescimento de tensões religiosas e a desinformação presente nas redes sociais. A obra acompanha o isolamento progressivo do professor diante de tensões institucionais e falhas que antecedem a tragédia.

Nesse processo, o filme se destaca pela forma como trabalha o olhar das crianças diante de assuntos extremamente sérios, criando um contraste forte entre a espontaneidade infantil e planos arquitetados de maneira brutal. A história é muito bem construída e consegue prender a atenção justamente por desenvolver essa tensão de forma gradual ao longo da narrativa. 


Embora trate de um caso específico do contexto francês, o filme também dialoga com uma questão muito mais ampla e presente em diferentes partes do mundo: a rapidez com que discursos de ódio se propagam por meio das plataformas digitais. 

É muito possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre o filme e a série "Adolescência" (2025), da Netflix, que também aborda como as relações sociais têm sido profundamente afetadas por ambientes digitais caracterizados pela instantaneidade e desinformação.


Ficha técnica:
Direção: Vincent Garenq
Duração: 1h40
País: França
Gênero: drama

"Mémoire de Fille" — Judith Godrèche ("Un Certain Regard")
Inspirado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, o filme revisita lembranças da juventude feminina a partir de uma narrativa não linear, explorando a reconstrução subjetiva de um verão que a francesa passou em um acampamento. 

Apesar do desafio de adaptar uma obra marcada pela introspecção, o filme consegue transmitir reflexões muito presentes na escrita de Ernaux, em especial no que diz respeito ao diálogo entre experiência pessoal e coletiva. 

A incorporação de marcos históricos importantes, como a repercussão de "O Segundo Sexo", obra mais célebre de Simone de Beauvoir, também reforça essa dimensão mais ampla da narrativa. 


Além disso, chama atenção a sensibilidade com que o filme aborda experiências corporais femininas, incluindo alterações no período menstrual e o impacto dos transtornos alimentares na vida de uma adolescente. 

Destaca-se ainda o fato de que o olhar da protagonista para outras mulheres ocupa um papel importante no filme: inicialmente marcado por insegurança e sensação de ameaça, seu ponto de vista passa gradualmente a buscar referências de inspiração. 

Esse é um exemplo de como o cinema consegue acrescentar diferentes camadas às narrativas, já que, nessas cenas, nada precisa ser verbalizado pela personagem para que sua transformação se torne perceptível.


Ficha técnica:
Direção:
Judith Godrèche
Duração: 1h17
País: França
Gênero: drama

No que diz respeito à programação completa deste ano, vale ressaltar que não há um longa dirigido por um cineasta brasileiro na seleção oficial do festival. Ainda assim, o país marca presença em 2026 com uma das maiores delegações da década, reunindo profissionais do audiovisual, produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica em diferentes espaços do evento. 

As vitórias de "O Agente Secreto" no ano passado – Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura) – também foram importantes para consolidar ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. 

Agora, resta acompanhar os próximos lançamentos de 2026 e torcer para que histórias de contextos diversos sigam encontrando espaço no circuito cinematográfico.


Ruas de Cannes durante o Festival de Cinema (Crédito: Carolina Cassese)

17 maio 2026

“Surda”: o filme que obriga o espectador a ouvir o silêncio da exclusão

Drama espanhol, escrito e dirigido por Eva Libertad, tem a primeira atriz surda, Miriam Garlo, a vencer
um prêmio Goya (Fotos: Distinto Films, Nexus CreaFilms, A Contracorriente)
 
 

Silvana Monteiro

 
“Surda” ("Sorda"), dirigido por Eva Libertad, é uma obra que retrata a vida de uma mulher com deficiência auditiva que está à espera de uma menina. Prestes a se tornar mãe, as dimensões desse acontecimento tornam-se ainda mais profundas e conectam relações afetivas em torno da chegada e do futuro da criança. 

O longa está em exibição no Una Cine Belas Artes, com as sessões contando com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. 

O filme traça o centro da narrativa para aquilo que cerca Angela (Miriam Garlo): os constrangimentos cotidianos, os ruídos sociais produzidos pelo capacitismo e a exaustão de existir em espaços que ainda operam sob a lógica da exclusão. 


A maternidade surge atravessada por medo, desejo de autonomia, afeto e insegurança, compondo uma experiência profundamente humana e distante das representações higienizadas que o cinema costuma oferecer. Nesse ponto, é lindo de ver como a obra explora a sororidade e a rede de apoio como ferramentas importantes para uma vivência mais inclusiva.

A atuação de Miriam Garlo sustenta essa dimensão com impressionante precisão. Sua Angela nunca é reduzida à fragilidade nem convertida em um estático símbolo heróico.  Para imergir o telespectador na condição da protagonista, de forma empática, o filme mergulha na intensidade de sua comunicação por meio da língua de sinais. 


Ao longo da trama é possível sentir desconforto nos pequenos gestos e uma contenção emocional que torna cada cena mais densa. Há sempre uma tentativa de trazer a compreensão de que vulnerabilidade não elimina potência, e essa percepção atravessa toda a construção da personagem.

Tecnicamente, “Surda” trabalha o som de maneira inteligente e sensorial. O desenho sonoro alterna presenças, abafamentos e vazios para aproximar o espectador da percepção de Angela sem recorrer a truques manipulativos. 


A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos íntimos, luz naturalista e uma câmera que frequentemente permanece próxima do rosto da protagonista, captando tensões mínimas e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. A direção evita excessos dramáticos e aposta em uma mise-en-scène sóbria, permitindo que os conflitos emerjam do cotidiano.

Outro mérito do longa está na forma como aborda as interseccionalidades. A narrativa articula maternidade, trabalho, vida afetiva com Hector (Álvaro Cervantes), amizades e deficiência, sem transformar nenhum desses elementos em dramalhão. A relação com o marido evidencia como o amor não resolve sozinho as barreiras de comunicação e acessibilidade.  


“Surda” provoca ao expor o quanto a sociedade ainda condiciona pertencimento à adaptação forçada de quem é diferente. Ao abandonar metáforas simplistas de superação, Eva Libertad entrega uma obra madura, sensível e tecnicamente consistente, capaz de transformar silêncio em linguagens cinematográfica e social.

Premiações

O longa foi vencedor de três prêmios Goya, considerado o Oscar da Espanha, com Miriam Garlo fazendo história como a primeira mulher surda a vencer, pela categoria de Melhor Atriz Revelação. Eva Libertad também foi premiada, como Melhor Diretora Estreante, e Álvaro Cervantes venceu Melhor Ator Coadjuvante. 

Também foi premiado em Seattle, Málaga e Guadalajara. Além dos prêmios Platino de Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator Coadjuvante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Libertad
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 - 18h30
Duração: 1h38
Classificação: 12 anos
País: Espanha
Gênero: drama

14 maio 2026

“O Rei da Internet”: filme revive a era da conexão discada e a ascensão do hacker que parou o Brasil

João Guilherme Ávila entrega ótima atuação sobre a vida do jovem que aplicou golpes financeiros que
lesaram milhares de pessoas nos anos 2000 (Fotos: Clube Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Anos 2000. Internet discada, conexão lenta, barulho do modem e jovens esperando dar meia-noite para finalmente entrar na rede sem ocupar a linha telefônica da casa. Era um período em que pouco se falava sobre crimes digitais, roubo de dados ou invasões virtuais. 

Foi justamente nesse cenário que surgiu Daniel Nascimento (João Guilherme Ávila, ator de séries de TV e dos filmes "Fala Sério, Mãe!" - 2017 e "Tudo por Um Popstar" - 2018), adolescente que descobriu um talento incomum para driblar sistemas e acabou se tornando um dos hackers mais famosos do país. 

Essa é a trama de “O Rei da Internet”, longa inspirado em fatos reais que estreou nesta quinta-feira (14) nos cinemas, com direção de Fabrício Bittar e distribuição da Manequim Filmes.


Daniel é apresentado como um jovem de classe média que sofre bullying e agressões constantes na escola. A vida dele começa a mudar quando ganha dos pais um computador equipado com o clássico Windows 98 e entrada para disquete, com conexão discada. 

Fascinado pela máquina e pela recém-popularizada internet doméstica, ele mergulha no universo da informática de forma autodidata.

Mesmo enfrentando as limitações técnicas da época, Daniel aprende rapidamente. Estuda por revistas especializadas, faz cursos de computação — embora demonstre saber mais que os próprios colegas — e logo percebe que consegue invadir sistemas nacionais e internacionais com facilidade impressionante.


O que começa como curiosidade adolescente logo se transforma em uma perigosa escalada criminosa. Primeiro vieram invasões a sites de revistas e empresas. Depois, ataques maiores, incluindo sistemas estratégicos e, posteriormente, o setor bancário. 

Daniel passa então a desviar dinheiro de milhares de contas, chamando a atenção de uma poderosa organização criminosa liderada por Fábio, personagem de Marcelo Serrado, que chegou a movimentar 62 milhões de reais à época.

Com dinheiro fácil entrando sem parar, o jovem abandona a casa dos pais e mergulha em uma rotina de luxo, ostentação e excessos. Antes mesmo dos 17 anos, já era considerado um dos maiores hackers do Brasil — até virar alvo de uma das primeiras grandes operações da Polícia Federal contra crimes virtuais.


Um dos maiores acertos do filme está justamente no mergulho nostálgico nos anos 2000. “O Rei da Internet” recria com eficiência o nascimento da cultura digital brasileira: os computadores caríssimos para a maior parte da população, as gambiarras para melhorar a conexão, as revistas de informática, os chats, os disquetes e, claro, o inesquecível som da internet discada conectando. Para quem viveu aquela época, o longa desperta memória afetiva imediata.

Narrada em primeira pessoa por Daniel, a história mantém ritmo ágil e envolvente até sua prisão. Mesmo sendo responsável por crimes que prejudicaram milhares de pessoas e empresas, o protagonista consegue despertar certa empatia do público. 

Muito graças à atuação segura de João Guilherme, mesmo com 24 anos interpretando um garoto de 15/16 anos. O ator entrega um Daniel impulsivo, inconsequente e seduzido pela possibilidade de conquistar tudo aquilo que jamais teve.


O elenco de apoio também funciona bem, com Emílio de Mello e Bia Seidl interpretando os pais de Daniel; Kaik Pereira (o amigo e parceiro Nilson), Adriano Garib (Moretti); Caio Horowicz (o hacker Noturno); Miguel Nader (o segurança Muralha); Enrico Cardoso (Peota); Clarissa Müller (Letícia); Débora Ozório (a namorada de Daniel, Carol); Davi Xiang Li (Augusto) e André Silberg (Mauricio). Participações especiais de Tânia Alves e Eri Johnson.

“O Rei da Internet” reúne ingredientes capazes de prender diferentes públicos: ação, suspense, golpes milionários, violência, bullying, festas extravagantes, drogas, sexo, carros de luxo e dinheiro fácil. Mas, acima de tudo, o filme funciona como retrato de uma geração que descobria a internet ao mesmo tempo em que ainda desconhecia os perigos daquele novo universo digital.


Hacker do Bem

Anos depois, Daniel Nascimento reconstruiu a própria trajetória e passou a atuar como consultor de segurança digital. Em 2015, contou sua história no livro “DNpontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-hacker”, escrito em parceria com Sandra Rossi. Daniel, que pode ser adquirido na Amazon.

Em entrevistas a TVs e jornais, afirmou que, aos 15 anos, não tinha dimensão real do impacto de seus crimes — e que nunca ficou rico porque gastava tudo em festas, compras e ostentação. Mas que pagou por seus crimes, tornando-se conhecido como um “hacker do bem” com seu trabalho.

“O Rei da Internet”, adaptado do livro, provoca nostalgia e mostra como um adolescente aparentemente comum conseguiu transformar talento, revolta e ambição em uma trajetória meteórica — e perigosa — dentro do submundo digital brasileiro. Confira o longa no cinema e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Fabrício Bittar
Roteiro: Fabrício Bittar e Vinícius Perez
Produção: Clube Filmes, coprodução Maquiagem Filmes e Telecine
Distribuição: Manequim Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h15
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, policial, biografia

13 maio 2026

Instigante e criativo, "Eu Não Te Ouço" é um convite ao diálogo no país da intolerância


Márcio Vito faz ótima interpretação dos dois papéis do filme: o caminhoneiro e o patriota do caminhão
(Fotos: Amaia Distribuidora)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Certamente muitos vão se lembrar do estranhíssimo caso do manifestante que, revoltado, se agarrou a um caminhão cujo motorista se recusou a parar e se juntar a ele na tentativa de bloquear as estradas e paralisar o país. Era novembro de 2022, a eleição presidencial estava encerrada, mas parte dos brasileiros não aceitou o resultado. 

O vídeo do homem de camisa e boné amarelos se segurando de braços abertos como um Cristo à frente de um caminhão viralizou nas redes sociais e não faltaram memes do caroneiro patriota passeando pelas estradas de várias partes do mundo.

Reprodução


Foi mesmo uma sacada genial do ator e diretor Caco Ciocler, que decidiu transformar essa história bizarra em um interessante road movie, em que um motorista de caminhão e seu passageiro preso ao veículo  tentam manter alguma conversa. 

Mas por estarem separados pelo vidro, a prosa dos dois se transforma num diálogo de surdos e ninguém se entende, enquanto os temas vão além da política, passando por filosofia, Deus, o diabo, família, filosofia, escolhas, cotidiano etc etc. 

O longa "Eu Não Te Ouço", que estreia dia 14 de maio no UNA Cine Belas Artes, encerra a chamada Trilogia Política de Ciocler, que antes dirigiu "Partida" (2019) e "O Melhor Lugar do Mundo É Agora" (2021).


Outra sacada incrível de Caco Ciocler, que aliás assina também o roteiro com Isabel Teixeira e Márcio Vito, foi se colocar no filme como um documentarista. Do início ao fim, apenas por meio da sua voz, ele levanta assuntos, pergunta, provoca e instiga motorista e patriota, que expõem seus pontos de vista em monólogos entrecortados, enquanto o caminhão desliza pela rodovia, se desviando de outros veículos apressados e enfrentando os inevitáveis baques dos buracos do asfalto. 

Para falar do artista Márcio Vito é preciso um capítulo à parte. Em mais um atrevimento dos roteiristas e do diretor, a ideia de fazer com que o mesmo ator fizesse ambos os papéis, foi um acerto e tanto. E Vito se sai muito bem, intercalando o motorista e o patriota, interpretando textos que vão do cômico à reflexão séria e necessária. 


Não por acaso, ele recebeu o troféu de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Mais do que merecido. O duplo papel acaba por tornar-se outra metáfora do longa, como se o filme quisesse mostrar como somos ao mesmo tempo diferentes e humanamente iguais.

Mais um acerto de "Eu Não Te Ouço": como se passa apenas e tão somente na estrada e em movimento, o barulho infernal da rodovia torna-se uma instigante trilha sonora, com suas freadas, ronco de motores e buzinas. 

Enfim, ao retomar o estranho caso do caroneiro patriota, Caco Ciocler provoca o espectador e o faz refletir sobre a falta de diálogo, a polarização nefasta e a intolerância que impera no país. Quem sabe o filme possa ser um convite a - quem sabe? - (re)construir este Brasil?


Ficha técnica:
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: AMAIA Filmes, coprodução UNO Filmes, 555 Studios e Schifiguer
Distribuição: AMAIA Distribuidora
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h11
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: road movie, comédia

11 maio 2026

“O Gênio do Crime”: aventura divertida aposta no carisma dos detetives mirins

Gordo, Edmundo, Pituca e Beré formam o quarteto que vai investigar a falsificação de figurinhas da
Copa do Mundo (Fotos: Pivô Audiovisual)
 
 

Maristela Bretas

 
“O Gênio do Crime”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, aposta na combinação de aventura, mistério, humor e amizade para conquistar o público infantojuvenil — e também os adultos que cresceram acompanhando histórias de detetives mirins. 

Adaptado da clássica obra literária de João Carlos Marinho, o longa apresenta a Turma do Gordo em uma investigação cheia de reviravoltas envolvendo a falsificação de uma figurinha rara do álbum da Copa do Mundo de 2026.


A trama acompanha João, mais conhecido como Gordo (Francisco Galvão), Edmundo (Samuel Estevam) e Pituca (Breno Kaneto), trio inseparável que ganha o reforço da inteligente e destemida Berenice, a Beré (Bella Alelaf). 

Juntos, eles tentam descobrir quem está produzindo as figurinhas falsas que ameaçam levar à falência a editora Escanteio, comandada pelo Sr. Tomé, personagem de Ailton Graça.

Na tentativa de salvar a empresa, Sr. Tomé acaba se unindo aos adolescentes, que também contam com a ajuda — nem sempre eficiente — do famoso detetive televisivo Mister Mistério, interpretado por Marcos Veras. 


Convencido de que não precisa de ninguém para solucionar casos, o personagem rende alguns dos momentos mais engraçados do filme, funcionando como um alívio cômico que conversa bem com o público infantil.

Ambientado em São Paulo, o longa segue uma linha semelhante à de “Detetives do Prédio Azul” (D.P.A.), fenômeno criado por Flávia Lins e Silva para a TV e posteriormente levado aos cinemas. Assim como na produção carioca, aqui o protagonismo infantil é o grande motor da narrativa, conduzindo uma investigação repleta de pistas, suspeitos e descobertas.


Cada integrante do grupo possui características bem definidas. Gordo é inteligente, curioso e apaixonado por histórias de investigação, especialmente pelo programa de Mister Mistério. Edmundo é o atleta da turma, fanático por futebol e figurinhas, além de ser justamente quem encontra a rara figurinha do Vini Jr., prêmio que garante assistir à final da Copa do Mundo. 

Já Pituca se destaca pelo jeito atrapalhado, carismático e sempre bem-humorado, responsável por boa parte das situações cômicas. A chegada de Beré traz equilíbrio ao grupo: ela é corajosa, observadora e rapidamente se torna peça fundamental na solução do caso.


Os jovens atores funcionam muito bem juntos. Têm naturalidade, carisma e falam diretamente com o público da mesma faixa etária, tornando crível a dinâmica dos “detetives mirins”. O filme acerta especialmente ao construir personagens que se comportam como adolescentes reais, com inseguranças, disputas, amizades e descobertas típicas da idade.

Dirigido por Lipe Binder e produzido por Tiago Mello, “O Gênio do Crime” consegue equilibrar aventura, suspense, ação e humor em um ritmo leve e acessível. 

Ao mesmo tempo, aborda temas importantes sem perder o tom divertido, como a transição da infância para a adolescência, o bullying relacionado ao peso de João, os primeiros interesses amorosos e as mudanças naturais nas amizades.


O elenco conta ainda com atores conhecidos da TV e do cinema que garantem o suporte necessário para a obra: Douglas Silva, Rafael Losso, Marcelo Goes, Fafá Rennó, Favel Andrade, Estevam Nabote, Thelmo Fernandes e Larissa Nunes.

Mesmo sendo um filme essencialmente familiar, há uma cena específica que sugere um crime que pode assustar crianças menores. Ainda assim, o saldo é bastante positivo. 

Com uma narrativa ágil, personagens simpáticos e clima de sessão da tarde, “O Gênio do Crime” tem potencial para iniciar uma nova franquia nacional voltada ao público jovem — algo raro e necessário no cinema brasileiro atual.


Ficha técnica:
Direção: Lipe Binder
Roteiro: Ana Reber
Produção: Boutique Filmes, coprodução com a Globo Filmes e Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: aventura, ação, infantojuvenil