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06 julho 2026

"Mestres do Universo" - "Pelos poderes de Grayskull... Eu tenho a força!"

He-Man devolve a infância aos fãs, mas também prova que nostalgia sozinha não sustenta um reino,
ainda mais Eternia (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Robhson Abreu
Parceiro do Jornal de Belô e Revista PQN

 
Muito antes de os super-heróis dominarem as plataformas de streaming e as bilheterias do cinema, um guerreiro de cabelos loiros, espada em punho e força sobre-humana já mobilizava milhões de crianças brasileiras diante da televisão. 

Exibido diariamente no "Xou da Xuxa", na segunda metade da década de 1980, He-Man e os Mestres do Universo transformou-se em um dos maiores fenômenos de audiência da programação infantil brasileira. 

O sucesso foi tão avassalador que ultrapassou as telas, impulsionou a venda de brinquedos, álbuns de figurinhas e inspirou uma canção gravada pelo grupo infantil Trem da Alegria que, até hoje, permanece viva na memória afetiva de quem cresceu naquela época.

He-Man, o guardião musculoso e bronzeado de Eternia, já ocupava um lugar privilegiado no imaginário de uma geração que transformou o príncipe Adam, o Castelo de Grayskull, Mentor, Teela, a Feiticeira e o temido Esqueleto e sua gangue em personagens inesquecíveis. 

He-Man, série animada de TV (Reprodução)

Quase quatro décadas depois, essa mesma geração, hoje formada por homens e mulheres acima dos 50 anos, volta a encontrar seus heróis nas telonas com o aguardado live-action de "Mestres do Universo" ("Masters of the Universe"), em cartaz nos cinemas da rede Cineart.

Reviver um clássico da cultura pop nunca é tarefa simples. A memória afetiva costuma ser implacável com qualquer adaptação. O diretor Travis Knight ("Bumblebee", 2018) demonstra desde a primeira sequência que conhece o peso dessa responsabilidade. 

Em vez de apostar apenas no apelo nostálgico, constrói uma aventura que respeita o legado da animação e, ao mesmo tempo, entrega um espetáculo visual compatível com as grandes produções contemporâneas. 

Eternia finalmente ganha a grandiosidade que os fãs imaginaram durante décadas, com cenários monumentais, figurinos ricos em detalhes e efeitos especiais que valorizam o universo criado pela Mattel.


O roteiro, assinado por Chris Butler ("Link Perdido", 2019), em parceria com David Callaham ("Homem-Aranha no Aranhaverso", 2018), além dos irmãos Aaron e Adam Nee ("A Cidade Perdida", 2022), preserva a essência dos personagens enquanto atualiza a narrativa para um público mais amplo. 

Algumas passagens poderiam ser mais desenvolvidas e certos conflitos se resolvem com rapidez excessiva, mas a história encontra um bom equilíbrio entre ação, emoção e fidelidade ao material original.

Boas atuações

Nicholas Galitzine ("Uma Ideia de Você", 2024), dublado em português por Garcia Júnior (voz original do herói na TV) entrega um Príncipe Adam convincente e um He-Man fisicamente imponente, transmitindo a evolução do jovem herdeiro até assumir plenamente o papel de defensor de Eternia. 


Mas quem domina boa parte da narrativa é Jared Leto ("Casa Gucci", 2021). Seu Esqueleto está ótimo, reunindo sarcasmo, inteligência e uma presença ameaçadora que transforma cada aparição em um dos grandes momentos do filme. 

O vilão acaba roubando a cena em diversos momentos, confirmando que grandes aventuras também dependem de antagonistas memoráveis.

O elenco de apoio também merece destaque. Idris Elba ("O Esquadrão Suicida", 2021) imprime autoridade, experiência e carisma ao Mentor de Armas, tornando Duncan um dos personagens mais sólidos da produção. 

Sua interpretação transmite a confiança de quem conhece cada batalha travada em Eternia e entende o peso de preparar o verdadeiro campeão de Grayskull, o tímido príncipe Adam.


Outro nome que chama a atenção do público brasileiro é Camila Mendes ("Música", 2024). Filha de pais brasileiros, a atriz assume o papel de Teela com personalidade, coragem e protagonismo. Sua personagem está longe de ocupar uma posição secundária. 

Ela participa das principais sequências de ação, demonstra independência e estabelece uma relação convincente com Adam, tornando-se uma das figuras mais importantes da narrativa.

Morena Baccarin ("Deadpool & Wolverine", 2024) empresta elegância e serenidade à Feiticeira de Grayskull, enquanto Alison Brie ("Bela Vingança", 2020) constrói uma Maligna fria, calculista, lora e ambiciosa, ampliando o clima de tensão que envolve a disputa pelo destino de Eternia.


Em busca da espada do poder

O rei Randor, interpretado por James Purefoy (série "Pennyworth", 2019–2022), e a rainha Marlena, vivida pela atriz Charlotte Riley (minissérie "Peaky Blinders", 2014), enviam Adam aos 10 anos para a Terra, a fim de protegê-lo da invasão liderada por Esqueleto. 

Em um portal mágico aberto pela Feiticeira, o jovem príncipe viaja em uma dimensão e acaba caindo em Oklahoma City, nos Estados Unidos. Durante a travessia, a Espada do Poder se separa dele, e esse é o acontecimento que desencadeia toda a história. 

Quinze anos depois e já com 25 anos de idade, Adam usa o nome Glenn. Ele trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa e divide um apartamento com o desconfiado Hussein interpretado por Christian Vunipola ("Nascida Para Cantar", 2024). 

Diariamente ele procura na internet o rumo da Espada do Poder para voltar a Eternia, até encontrá-la e se meter em confusões. 


Ao voltar para casa, Glenn/Adam é perseguido pelo Homem-Fera, interpretado pelo ator Gary Martin ("Minions", 2015). Fiel escudeiro de Esqueleto, ele persegue o príncipe pelas ruas da cidade é uma das principais sequências de ação da primeira parte do filme. E é justamente nesse momento que a bela Teela reaparece para salvar Adam e ajudá-lo a retornar a Eternia.

Esse é um dos principais diferenciais do filme em relação ao desenho do Xou da Xuxa. Na animação, Adam sempre viveu em Eternia e já era o príncipe do reino. No live-action, os roteiristas optaram por construir uma história de origem, mostrando o herói crescendo longe de seu planeta natal antes de assumir definitivamente a força de He-Man. 

Os fãs mais antigos certamente perceberão a ausência de alguns personagens fundamentais na animação original. O tigre Pacato aparece pouco durante o filme até sua aguardada transformação em Gato Guerreiro. 

Embora a escolha prepare o terreno para os próximos capítulos da franquia, fica a sensação de que um dos personagens mais carismáticos de Mestres do Universo merecia maior participação. 


Outro que aparece somente no final do longa é o atrapalhado Gorpo. O pequeno mago, inseparável companheiro de He-Man em praticamente toda a série animada dos anos 1980, sequer integra a aventura principal. 

Para quem acompanhou o desenho desde a infância, sua ausência provoca estranhamento e deixa evidente que a produção preferiu guardar personagens importantes como estratégia para uma futura continuação. Com certeza ele daria maior leveza à história com suas confusões.

Boa trilha sonora

Outro acerto importante em Mestres do Universo está na trilha sonora composta por Daniel Pemberton ("Enola Holmes", 2020, e "Ferrari", 2023). Em vez de viver apenas das lembranças da série animada, o compositor cria uma identidade própria para o filme, alternando momentos épicos e passagens mais emocionais que ampliam a força dramática da história. 

O principal destaque é "Eternia", composta por Pemberton em parceria com o guitarrista Brian May. A faixa abre o filme e ganha uma versão estendida nos créditos finais. O solo de guitarra de May dá à música uma identidade que remete ao rock épico dos anos 1980, uma escolha inspirada na trilha de Flash Gordon (1980), também marcada pela participação do Queen.


Ainda assim, fica a sensação de uma oportunidade perdida. Para o público brasileiro, especialmente aquele que hoje integra a geração 50+, uma discreta homenagem à música composta por Michael Sulivan e Paulo Massadas e gravada pelo Trem da Alegria teria sido um presente inesquecível. A canção ajudou a popularizar He-Man no Brasil e permanece viva na memória afetiva de milhões de fãs. 

Bastaria uma breve referência instrumental, talvez durante os créditos finais, para estabelecer uma conexão emocional ainda mais forte com quem descobriu os heróis de Eternia nas manhãs da eterna rainha dos baixinhos. Nas redes sociais, a Amazon MGM Studios soltou um trailer com a música He-Man, o que levou muito marmanjo aos cinemas.

A produtora fez uma aposta ambiciosa ao investir em uma franquia que marcou profundamente a infância de milhões de pessoas. O resultado demonstra que ainda existe espaço para grandes clássicos quando recebem planejamento, respeito ao material original e qualidade técnica. 

O estúdio deixa claro que pretende transformar "Mestres do Universo" em uma nova franquia cinematográfica.


Vale a pena permanecer na sala até o encerramento completo dos créditos. A cena extra não está ali apenas para cumprir uma tradição de Hollywood. Ela abre caminho para uma continuação e apresenta um importante gancho envolvendo Adora, a irmã gêmea de Adam, a She-Ra, que luta pela honra de Grayskull. 

Isso ampliará o universo da franquia, além de deixar evidente que novas aventuras já fazem parte dos planos da Amazon MGM Studios, embora a confirmação oficial dependa muito do desempenho nas bilheterias e do streaming.

"Mestres do Universo" está longe de ser apenas um exercício de nostalgia. O filme emociona quem cresceu repetindo o juramento diante da Espada do Poder, mas também apresenta esse universo para uma nova geração que só conhece a música do Trem da Alegria. 

Talvez essa seja sua maior qualidade. Mostrar que alguns heróis envelhecem muito bem e que certas lembranças continuam tão poderosas quanto no primeiro dia em que entraram na nossa vida.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: salas da rede Cineart: Boulevard, Cidade e Del Rey
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

02 julho 2026

"Minions & Monstros" reinventa a bagunça e aposta no cinema para garantir muita diversão

Os amarelinhos mais amados do planeta voltam com novas aventuras e inimigos bem coloridos e tão
loucos quanto eles (Fotos: Illumination Entertainment)
 
 

Maristela Bretas

 
Quando você pensa que a receita já não cabe mais nenhuma atualização, os Minions se reinventam, voltam ao passado e entregam uma animação ainda mais divertida, com ótimas referências ao mundo do cinema e contando um pouco da saga dos amarelinhos mais loucos de Hollywood.

Este é "Minions & Monstros", em cartaz nos cinemas para alegria da criançada e dos adultos também. Mas não espere ver Bob, Stuart, Kevin e Otto. Estes nossos amiguinhos são da primeira animação da turma - "Minions" (2015) -, que depois se tornaram leais servidores de Gru em "Meu Malvado Favorito 3” (2022).


A onda agora que está dominando o planeta e deixando os fãs loucos, com baldes de pipoca e copos nas salas de exibição, tênis, sanduíches, acessórios e até locadoras de veículos explorando o grande filão do momento, são outros quatro atrapalhados amigos amarelinhos - James, Harry, Ed e Dick (líder do grupo e mais rabugento).

James é o protagonista da vez e descobre no mundo do cinema sua vocação. Vive desenhando e criando histórias, sonha ser diretor de um filme e ganhar o prêmio máximo da academia.

E é em Hollywood que nossos amigos acabam caindo, sempre em busca do líder malvado perfeito. James, Ed e Harry são inseparáveis e essa amizade vai levá-los ao glamour e à riqueza, transformando-os em grandes astros.


Mas os Minions também vão conhecer seus mais perigosos inimigos, que podem parecer fofinhos, só que não. Os coloridos Goomi e sua turma, especialmente a gosmenta Irene, são os vilões - mal dá para acreditar. 

Nossos heróis de camisa amarela e macacão azul vão ter de se unir e contar com toda ajuda possível para vencerem estes estranhos seres que querem destruir o mundo.

A magia do cinema

Um dos maiores destaques de "Minions & Monstros" está na forma como o diretor, novamente Pierre Coffin, soube trazer para uma animação os anos 1920, durante a Era de Ouro de Hollywood, como pano de fundo. 


Como diria Martin Scorsese, o filme é "Absolute Cinema", cheio de referências, relembrando grandes sucessos como "ET - O Extraterrestre", "Toy Story", "Minions", "Jurassic Park". O diretor fez paródia com o diretor George Lucas e até mesmo com clássicos como "Casablanca" e "Tempos Modernos".

Participações que fizeram toda a diferença e ainda contaram com a ótima trilha sonora de John Powell  também com influências de diferentes gêneros e períodos, variando entre "Star Wars" e compositores eruditos como Tchaikovsky.



A voz inconfundível dos Minions é novamente do diretor e cocriador dos personagens Pierre Coffin, tendo como dubladores originais nomes como Jeff Bridges, Jesse Eisenberg e Christoph Waltz.

Mas é na versão dublada que estão nossos talentos brasileiros: Guilherme Briggs (Goomi), Márcio Simões (o diretor de cinema Max), Carla Pompilio (Olivia), Manolo Rey (Howard), Wendel Bezerra (Phillips), Alexandre Moreno (Dort), entre outros.   

Muita ação, diversão e cores fazem de "Minions & Monstros" uma das melhores opções de entretenimento para crianças e adultos nestas férias. Imperdível. Assista e conte aqui o que achou desta nova aventura. 

OBS. - Tem cenas estendidas e divertidas até o final dos créditos


Ficha técnica:
Direção: Pierre Coffin
Produção: Illumination Entertainment
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27
Classificação: 10 anos
País: EUA
Gêneros: aventura, animação, comédia

02 março 2026

“Cara de Um, Focinho de Outro” emociona ao misturar aventura, tecnologia e alerta ecológico

Em nova animação da Pixar, humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu
lado de uma história (Fotos: Disney Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Emocionante e divertido, uma animação para a família toda. A Pixar Animation entrega, com “Cara de Um, Focinho de Outro” (“Hoppers”), mais uma bela produção capaz de fazer rir e chorar, levando ao público — dos seis aos 100 anos — uma mensagem bastante atual: é preciso cuidar e preservar a natureza e aprender a viver em harmonia com ela.

O filme estreia nos cinemas no dia 5 de março, em versões dubladas e legendadas, mas já pode ser conferido em várias salas das redes Cineart, Cinemark e Cinépolis BH.


Humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu lado de uma história que gira em torno de um pequeno lago nos arredores de uma cidade. No passado, Mabel Tanaka (Piper Curda) já era defensora dos animais, mesmo quando toda a população a criticava.

A única que a compreendia era sua avó, a Sra. Tanaka (Karen Huie), que morava perto do lago. Foi ela quem ensinou à neta a importância de ouvir os sons da natureza para entendê-la melhor, além de ajudá-la a lidar com a própria raiva e a controlar suas emoções.


Na adolescência, não poderia ser diferente. Ao descobrir que o pequeno refúgio natural onde viveu seus melhores dias de infância seria destruído pelo “avanço do progresso”, Mabel decide recorrer a uma tecnologia revolucionária para se conectar aos animais que ali habitavam e que precisaram fugir.

Ela transfere sua consciência para o corpo de um castor robótico, o que lhe permite explorar o universo animal — suas aventuras, alegrias, emoções e conflitos. 

A partir daí, promove uma verdadeira revolução dos bichos, enfrentando Jerry (Jon Hamm), o prefeito da cidade, determinado a acabar com o lago dos castores. Mas tudo tem seu preço, e a situação pode acabar ameaçando também a existência dos humanos.


Nomes conhecidos de Hollywood participam da aventura como dubladores. Meryl Streep dá voz à Rainha dos Insetos — na versão brasileira, Renata Sorrah estreia na dublagem. 

Dave Franco interpreta Titus, auxiliar da professora Sam (Kathy Najimy), que também trabalha com Diane (voz de Vanessa Bayer no original e de Thaís Fersoza na versão em português). 

Destaque para George (Bobby Moynihan), o Rei dos castores e Mamíferos, com sua coroa e varinha, liderando toda a comunidade com pompa e personalidade e que se torna o melhor amigo de Mabel.

O elenco conta ainda com Melissa Villaseñor (Ellen), Ego Nwodim (Rainha dos Peixes), Sam Richardson (Conner), Aparna Nancherla (Nisha), Nichole Sakura (Rainha dos Répteis), Isiah Whitlock Jr. (Rei dos Pássaros), Steve Purcell (Rei dos Anfíbios).


Entre correrias, gritos e confusões no reino animal, “Cara de Um, Focinho de Outro” aposta em um humor afiado ao tratar da destruição da natureza pelo homem e de como ela pode revidar quando menos se espera. 

A história lembra um pouco “Avatar” — como a própria protagonista menciona — ao utilizar a tecnologia para transferir mentes humanas para robôs, que passam a funcionar como canal de comunicação com os animais reais.

Visualmente, a animação é impecável, com imagens vibrantes, cenários bem detalhados e personagens que conquistam o público de imediato — até mesmo os vilões. 


Alguns personagens podem assustar crianças muito pequenas, especialmente os reis e rainhas de determinadas espécies quando declaram guerra aos humanos. Ainda assim, o filme equilibra bem tensão e humor, mantendo o tom leve e reflexivo.

Mais uma vez, a Pixar mostra que sabe contar histórias que divertem, emocionam e, principalmente, fazem pensar, agora sem deixar de lado a presença da tecnologia como uma aliada.
 

Ficha técnica:
Direção: Daniel Chong
Roteiro: Jesse Andrews e Daniel Chong
Produção: Pixar Animation Studios e Walt Disney Pictures
Distribuição: Disney Pictures e Disney+
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia

19 novembro 2025

"O Sobrevivente" – o show sempre deve se superar

Glen Powell é Ben Richards, um desempregado que participa de um programa de TV ao vivo de vida e morte para conseguir dinheiro e salvar sua família  (Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em 1987, quando surgiu pela primeira vez o personagem Ben Richards, vivido por Arnold Schwarzenegger, a expectativa era maior que o resultado: a bilheteria baixa não fez jus ao filme. Mesmo com efeitos visuais artesanais, porém adequados à época, e a interpretação limitada do protagonista, o longa não rendeu o esperado.

Anos depois, o jogo virou. O filme tornou-se cult por sua ficção distópica e pela crítica à sociedade e ao controle da mídia. Atualmente, voltou a ser procurado na Netflix – especialmente com o lançamento, nesta quinta-feira (20), da nova versão.


Passadas quase quatro décadas, "O Sobrevivente" ("The Running Man") retorna às telas em um reboot que modifica parte da história original e traz como protagonista o atual queridinho de Hollywood, o carismático Glen Powell.

Baseado no romance "O Concorrente", de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman), o novo filme mantém a crítica social: um mundo dividido entre ricos vivendo em palácios verticais e marginalizados isolados para além dos muros das grandes cidades. A TV manipula tudo o que é exibido, criando heróis e vilões para uma população faminta por violência.


Assim como no longa de 1987, a audiência é o objetivo máximo — mesmo que, para isso, o público seja bombardeado com cenas de lutas, ataques e mortes, reais ou simuladas, transmitidas como um grande reality show para uma plateia sedenta por sangue e vingança.

A nova história se passa em 2025, em um cenário caótico de um Estados Unidos falido, com o governo manipulando a mídia e os pobres lutando diariamente para sobreviver.

Para salvar a esposa e a filha doente, Ben Richards (Glen Powell) se inscreve no violento game show "The Running Man". Durante 30 dias, os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais. O vencedor recebe um prêmio milionário em dinheiro.


"O Sobrevivente" apresenta as questões sociais e políticas de forma até mais clara que o original, em meio a muita ação, violência brutal e efeitos visuais competentes. 

Glen Powell se destaca como o trabalhador desempregado, revoltado com os abusos das corporações e o descaso com quem não pertence à elite. Para os fãs, as cenas do galã apenas de toalha são um colírio e estão entre as divertidas do filme.

De temperamento explosivo, Ben não consegue manter empregos e acaba chamando a atenção de Dan Killian, o produtor do programa, interpretado por Josh Brolin. O ator entrega um vilão frio, preocupado apenas em “ver o circo pegar fogo” e aumentar os lucros do show número um da emissora.


O elenco traz ainda nomes conhecidos como William H. Macy, em participação especial como um rebelde; Colman Domingo, vivendo o sádico showman Bobby T.; Michael Cera, como o revolucionário Elton Parrakis; e Lee Pace, interpretando o caçador assassino Ewan MacCone, entre outros.

À medida que a trama avança, o diretor Edgar Wright intensifica a raiva e o desprezo de Ben Richards por uma sociedade hipócrita e imoral. O personagem quer justiça para sua família e para aqueles que foram esquecidos — nem que, para isso, precise “tocar o terror e ligar o f#d#-se” para o programa e seus responsáveis.


Além das sequências de ação e perseguição, "O Sobrevivente" conta com uma excelente trilha sonora composta por Steven Price, incluindo uma clássica canção de ninar em nova versão, logo nos primeiros minutos.

Resta saber se, ao contrário do original, o filme conseguirá atingir bons números de bilheteria para compensar os US$ 110 milhões investidos na produção. Ou se será reconhecido apenas após alguns anos, assim como a boa atuação de Glen Powell.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Edgar Wright
Produção: Paramount Pictures, Complete Fiction Films, Genre Films
Distribuição: Paramount Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, suspense, ação

12 agosto 2025

"Juntos" até que a morte - ou algo pior - os separe

Terror corporal com Dave Franco e Alison Brie utiliza o sobrenatural para explorar uma relação de codependência (Fotos: Neon) 
 
 

Maristela Bretas

 
Com a proposta de ser um filme de terror corporal, "Juntos" ("Together"), que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas com roteiro e direção de Michael Shanks, mergulha no psicológico a partir de acontecimentos estranhos e sobrenaturais que afetam um casal.

Nos papéis principais estão Dave Franco ("Truque de Mestre: O 2º Ato" - 2016) e Alison Brie ("A Comédia dos Pecados" - 2020), casados na vida real, interpretando Tim, um músico que não consegue alcançar sucesso, e Millie, uma professora de inglês. 

Duas pessoas com objetivos opostos, mas que resolvem construir uma vida a dois em uma pequena cidade do interior dos EUA. 


Enquanto caminham por uma mata próxima à nova casa, eles caem em uma caverna durante uma tempestade e decidem acampar lá dentro durante a noite. 

Tim bebe de uma poça no local e, a partir daí, a vida do casal - e sua união - nunca mais será a mesma.

Mesmo vivendo um momento ruim e desgastado da relação, uma força estranha e dominadora faz com que permaneçam unidos, praticamente colados, ameaçando a sanidade de ambos, especialmente quando perdem o controle sobre seus próprios corpos. 


Na escola, Millie conhece Jamie (Damon Herriman, de "Era Uma Vez em... Hollywood" - 2019), um colega de trabalho, que entra vida do casal e agrava o problema ao explicar que "eles precisam ser um só para serem felizes e se tornarem inteiros". 

"Juntos" é um filme sobre relações e sobre uma dependência que chega a ser doentia entre duas pessoas, mesmo quando ambas desejam seguir caminhos diferentes. A trilha sonora acerta ao incluir a música "2 Become 1", das "Spice Girls", como referência ao enredo.


Terror sem sangue

O longa não aposta em sustos, mas apresenta várias cenas de possessão "incômodas" provocadas pela força sobrenatural que atua sobre o casal. A dos olhos é a mais angustiante. 

O sangue aparece pouco para um filme de terror, e há até alguns momentos de humor protagonizados por Tim, que provocam risos do público. 

O final pode surpreender por seguir uma linha diferente de outros filmes do gênero, mas não espere uma grande produção. Não é um filme indicado para quem pretende se casar ou começar uma vida a dois. Em "Juntos", a frase "Até que a morte os separe" ganha um novo significado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Michael Shanks
Produção: Picture Start, Princesa Pictures, 30West, Tango Entertainment
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 16 anos
Países: EUA/Austrália
Gênero: Terror psicológico

03 março 2025

Deu Brasil! "Ainda Estou Aqui" ganha o Oscar de Melhor Filme Internacional

Filme de Walter Salles conquistou a estatueta pela primeira vez para o Brasil e tem Fernanda Torres e
Selton Mello no elenco (Montagem sobre foto de Alile Dara Onawales)


Maristela Bretas


Brasil, Brasil, Brasil. E não é com "Z", mas com "S". "Ainda Estou Aqui" conquista seu primeiro Oscar e é eleito "Melhor Filme Internacional" na 97ª edição. A atriz Penélope Cruz entregou a estatueta ao diretor Walter Salles, que a dedicou a Eunice Paiva e Fernanda Torres, que a interpretou na produção.

"Ainda Estou Aqui" concorreu também nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz, com Fernanda Torres. A obra já levou mais de 5 milhões de pessoas aos cinemas e concorreu com “Emilia Pérez” (França), “Flow” (Letônia), “A Garota da Agulha” (Dinamarca) e “A Semente do Fruto Sagrado” (Alemanha).

"Ainda Estou Aqui" (Foto: Alile Dara Onawales)

O filme brasileiro é baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens Paiva. Ele trata da força da mãe em assumir a liderança da família de cinco filhos e sua resistência para lutar em busca de informações sobre o marido (interpretado por Selton Mello), levado pelas forças da Ditadura Militar dos anos 1970 e que nunca foi encontrado.

Pouco antes da cerimônia, no Tapete Vermelho, Fernanda Torres, que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama, agradeceu o apoio dos brasileiros e elogiou Eunice Paiva e Walter Salles. Ela disse que "o Brasil é um país muito afetuoso e no filme de Walter Salles as pessoas são tocadas". 

Walter Salles também falou que "Ainda Estou Aqui" é uma celebração da cultura brasileira e que estava muito honrado em representar esse Brasil que vale a pena.


A cerimônia do Oscar

O Oscar 2025 foi realizado nesse domingo de carnaval, diretamente do Teatro Dolby, em Los Angeles, na Califórnia. A cerimônia foi aberta com uma bela montagem de antigos e novos filmes vencedores da premiação. 

Ariana Grande interpretou "Somewhere Over the Rainbow", tema de "O Mágico de Oz", e Cynthia Erivo cantou "Home". A dupla encerrou as performances musicais com "Defying Gravity", da trilha sonora de "Wicked", e foi aplaudida de pé.

"Wicked" (Fotos: Universal Pictures)

Utilizando imagens do filme "A Substância", o comediante nada engraçado Conan O'Brien foi o apresentador da solenidade pela primeira vez. Ele chamou Robert Downey Jr. para anunciar o primeiro vencedor, Kieran Culkin, como Melhor Ator Coadjuvante pelo filme "A Verdadeira Dor'.

Goldie Hawn e Andy Garfiled anunciaram o Melhor Filme de Animação e, como era esperado, a estatueta saiu para "Flow", produzido na Letônia. Também entregaram o prêmio de Melhor Curta-Metragem em Animação para o iraniano "In the Shadow of the Cypress".

A estatueta de Melhor Figurino saiu para Paul Tazewell, do filme "Wicked", que agradeceu pela honra de ser o primeiro figurinista negro a receber este prêmio na categoria.

"Flow" (Foto: Sacrebleau Productions)

Halle Berry anunciou os homenageados de Hollywood deste ano - os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson -, responsáveis pela franquia 007. 

Foi apresentada uma coletânea dos 62 anos de filmes do espião James Bond, além de performances das trilhas sonoras com diversas cantoras. Em toda a sua trajetória, o famoso espião com licença para matar foi vivido por sete atores diferentes e conquistou seis Oscars. 

Mike Jagger foi uma das surpresas da noite, subindo ao palco para anunciar "El Mal", da trilha sonora de "Emilia Pérez" como Melhor Canção Original. 

"Duna: Parte 2" (Foto: Warner Bros. Pictures)

Representantes do Corpo de Bombeiros de Los Angeles também foram chamados e aplaudidos de pé numa homenagem da Academia por seu trabalho no combate aos incêndios que atingiram a cidade em janeiro deste ano.

"Duna: Parte 2" confirmou as apostas que davam como certa sua vitória em duas categorias técnicas, como Melhor Som e Melhores Efeitos Visuais.

Morgan Freeman apresentou o quadro In Memorian, que relembrou nomes de astros, diretores e pessoas do cinema que faleceram em 2024 e 2025. Como o de seu grande amigo Gene Hackman, falecido na semana passada, além de Maggie Smith, Kris Kristofferson, Louis Gosset Jr., Gena Rowland, James Earl Jones, David Linch, entre outros.

"Anora" (Foto: Universal Pictures)

Outro homenageado da noite, desta vez por Oprah Winfrey e Woopy Goldberg, foi o produtor musical, compositor, empresário e maestro Quincy Jones. Coube a Queen Latifah a interpretação de "Ease On Down the Road", uma das composições de Jones. 

Quentin Tarantino anunciou o Melhor Diretor, entregando a estatueta a Sean Baker por "Anora". A duplamente vencedora do Oscar, Emma Stone, anunciou Mikey Madison como Melhor Atriz em "Anora". O filme também conquistou a maior categoria do Oscar, vencendo como Melhor Filme.

Confira a lista dos vencedores

Melhor Filme: "Anora"
Melhor Filme Internacional: "Ainda Estou Aqui" (Brasil)
Melhor Direção: Sean Baker - "Anora"
Melhor Atriz: Mikey Madison - "Anora"
Melhor Ator: Adrien Brody - "O Brutalista"

"Emilla Pérez" (Foto: Paris Filmes)

Melhor Atriz Coadjuvante: Zoe Saldaña - "Emilia Pérez"
Melhor Ator Coadjuvante: Kieran Culkin - "A Verdadeira Dor"
Melhor Roteiro Original: "Anora"
Melhor Roteiro Adaptado: "Conclave"
Melhor Montagem: "Anora"
Melhor Figurino: Paul Tazewell - "Wicked"
Melhor Maquiagem e Cabelo: "A Substância"
Melhor Trilha Sonora Original: "O Brutalista"

"A Substância" (Foto: Universal Pictures)

Melhor Canção Original: "El Mal" - "Emilia Pérez"
Melhor Animação: "Flow"
Melhor Design de Produção: "Wicked"
Melhor Som: "Duna: Parte 2"
Melhores Efeitos Visuais: "Duna: Parte 2"
Melhor Fotografia: "O Brutalista"
Melhor Documentário: "No Other Land"
Melhor Documentário em Curta-Metragem: "A Única Mulher na Orquestra"
Melhor Curta-Metragem: "I'm Not a Robot" (Irlanda)
Melhor Curta-Metragem Animado: "In the Shadow of the Cypress"


"O Brutalista" (Foto: Universal Pictures)

21 julho 2024

"Eu Sou: Celine Dion" um relato da fragilidade e dos dias sombrios da artista

Documentário mostra o amor da artista em se apresentar em público, o desejo de voltar aos palcos e a paixão por sapatos (Reproduções Prime Video)

 

Marcos Tadeu


"Eu Sou: Celine Dion" é um dos bons documentários que vale a pena ser assistido no Prime Video. A produção revela um lado desconhecido da cantora canadense, mostrando sua rotina diária entre os afazeres de uma estrela, a vida doméstica, os momentos de vulnerabilidade. Além da paixão por sapatos - mais de 10 mil pares de diversos tamanhos -, guardados num depósito em Las Vegas, cidade onde a artista mora.


Celine Dion alcançou fama mundial nos anos 1990 com sucessos como "My Heart Will Go On" (da trilha sonora de "Titanic”), "The Power of Love" e "Because You Loved Me". Ganhou cinco Grammys Awards, incluindo Álbum do Ano e Melhor Performance Vocal Pop Feminina. 

E foi na entrega do Grammy de 2024, no dia 4 de fevereiro, que ela fez uma aparição surpresa ao anunciar o prêmio de Melhor Álbum do Ano, conquistado por Taylor Swift.

Conhecida por sua poderosa voz e emocionantes baladas, Dion vendeu mais de 200 milhões de álbuns globalmente. Além de sua carreira musical, realizou uma bem-sucedida passagem por Hollywood, com participações no cinema, como em "Era uma Vez... Deadpool" (2018)


Dirigido por Irene Taylor, o documentário nos apresenta a artista em seus dias comuns e como ela se tornou o sucesso atual, sem seguir uma linha cronológica. Conhecemos o auge de sua carreira, a relação com a família, e descobrimos que Céline Marie Claudette Dion é a mais jovem de 14 irmãos, todos com um amor pela música.

René Angélil, seu marido, também tem um papel importante no documentário, mostrando como o casal lidou com o nascimento de seus filhos em meio à fama e aos holofotes.


O documentário apresenta um dos aspectos mais comoventes da vida da cantora e compositora: seu diagnóstico de Síndrome da Pessoa Rígida (SPR), uma doença neurológica rara e autoimune, que causa rigidez e espasmos musculares dolorosos. 

Celine fala abertamente sobre suas dificuldades e sentimentos, contrastando com suas palavras de gratidão por tudo o que conquistou. Ela brilha e comove o público, especialmente quando vemos como a doença afetou o instrumento mais potente de sua vida - a voz.


Apesar da força do documentário, senti falta de depoimentos de pessoas próximas a Celine. Ouvir a família e amigos que a acompanham poderia reforçar a mensagem de que, mesmo sendo uma grande estrela, ela é frágil em seus momentos e não precisa ser forte o tempo todo. 

"Eu Sou: Celine Dion" é um convite para conhecer os dias sombrios da artista de maneira crua, forte e bela, impactando profundamente seu público e oferecendo a oportunidade para novos fãs conhecerem mais de sua história. Emocionante!


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Irene Taylor
Produção: Amazon MGM, Sony Music Entertainment, Vermilion Films
Exibição: Prime Video
Duração: 1h42
Classificação: Livre
Países: Canadá e EUA
Gêneros: documentário, musical